segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Perdas de cada dia

 


O acervo cultural arquitetônico brasileiro se perde a cada dia, pela completa ausência de políticas de preservação em todos os níveis.
A realidade das cidades brasileiras é de paisagens urbanas heterogêneas. Um desafio ainda não compreendido pelos responsáveis pela criação, implantação e gestão das políticas de preservação. Se os sítios históricos são desafiadores, preservar imóveis históricos em ambientes heterogêneos é muito mais. A pressão econômica diferenciada é ainda um desafio a ser compreendido e finalmente enfrentado.
No fluxo da destruição de nossas referências culturais, alguns casos ganham grande projeção nacional, outros (normalmente bem mais relevantes) se perdem sem grandes alardes ou comoção pública.
Na imagem, um dos últimos exemplares de arquitetura luso-brasileira no litoral norte gaúcho, município de Osório, demolido na semana que passou.


domingo, 3 de novembro de 2019

Patrimônio Material e Imaterial

Material e Imaterial são duas dimensões do mesmo fenômeno, motivo pelo qual, cada vez mais, fala-se (ou deveria se falar) em “patrimônio cultural” apenas, evitando as setorizações desnecessárias.
As “caixinhas” do material e do imaterial facilitaram a compreensão isolada destas duas dimensões, mas podem também afastar do reconhecimento integral do patrimônio.
O nosso patrimônio é, efetivamente, mais do que a simples soma do material com o imaterial, pois o todo também compreende as relações entre as partes.
(Jorge Luís Stocker Jr. / Parecer nº 406/2019 CEC/RS)

terça-feira, 5 de março de 2019

Desabamento da Casa da Feitoria Velha / Casa do Imigrante de São Leopoldo



O desabamento da Casa da Feitoria Velha, posteriormente rebatizada de "Casa do Imigrante", é mais um trágico capítulo na trajetória do patrimônio cultural da antiga Colônia Alemã de São Leopoldo.
Antes de tudo - e frente aos empurra-empurras de responsabilidades, típicos destes momentos - é preciso lembrar que o princípio constitucional é de co-responsabilidade de todos os entes públicos e da sociedade na promoção e proteção do patrimônio cultural brasileiro. A solução independe quem é proprietário, de quem tombou, de quem está mais próximo - a responsabilidade é e era de todos, e deve ser construída, assessorada e viabilizada conjuntamente.
Há um detalhe esquecido e muito silenciado - o de que o principal problema do imóvel, o telhado, parece ter se agravado após uma intervenção repleta de problemas técnicos, efetuada por uma construtora como contrapartida pela demolição de outros imóveis históricos da cidade. Na época, a publicidade positiva foi grande, mas hoje poucos parecem dispostos a lembrar e colar sua marca nesta "boa ação".
Enfim, aquilo que seria um problema simples de conservação preventiva do telhado, inclusive de solução pouco dispendiosa, tornou-se um fator de colapso da edificação após poucos anos de abandono.
Além do desafio de articular diferentes instâncias pela recuperação do que sobrou do imóvel, é importante de que esse processo de recuperação seja realizado com pleno domínio técnico e conceitual.
É preciso entender o documento histórico tal como hoje se apresenta, os valores simbólicos dos quais é portador e as perdas deixadas pelo colapso.
Restauro é muito mais do que recuperar a integridade visual da edificação a partir de alguma idealização. Restaurar presume uma investigação exaustiva do imóvel, ou do que dele restou, e a Casa da Feitoria Velha ainda aguarda estudos mais aprofundados.