domingo, 30 de dezembro de 2018

Sobre a publicidade na Usina


O caso da publicidade na chaminé da Usina do Gasômetro, em Porto Alegre, é representativo das limitações do debate público sobre a preservação do patrimônio cultural.
De um lado, a Prefeitura e parte da população que simplesmente não conseguiu entender qual, afinal, é o problema de afixar temporariamente a placa de uma lojinha de variedades num prédio símbolo da cidade. Quanto a isso, pouco a declarar pois muito já foi dito de forma certeira.
De outro, uma argumentação que parece focar nos aspectos formais e burocráticos da preservação do patrimônio – nas regras, e não no motivo das regras existirem.Pouco se aproveita os raros momentos em que o patrimônio aparece na pauta pública para pensar naquilo que é (ou deveria ser) o próprio motivo de existência dos tombamentos e da preservação do patrimônio.
Não, afixar o cartaz não é errado apenas porque a lei diz... Ou por que o procedimento correto é esse ou aquele. A lei e os procedimentos derivam necessariamente de uma motivação, que não é obra do acaso.
Intervenções como esta infeliz publicidade, ainda que temporárias, podem prejudicar não apenas o aspecto visual por alguns dias, mas alterar aspectos simbólicos que são, acima de tudo, os que motivam a proteção do patrimônio.
E é por isso que a chaminé da Usina ser utilizada para simbolizar um evento importante pra cidade, como já foi anteriormente (e muitos estão lembrando), “somava” no seu aspecto simbólico de ícone da cidade...
Já afixar uma placa publicitária de uma lojinha de variedades agride de forma espantosa e reduz o papel do mesmo ícone da cidade.
Colocar o aspecto formal/burocrático, e mesmo legal, na frente dos valores simbólicos do patrimônio é, ao meu ver, mais um dos tantos motivos que afastam a população da possibilidade de envolvimento e engajamento com o tema.
O mero cumprimento desmotivado de burocracias é de difícil compreensão, mais difícil ainda que venha a ser defendido por leigos.
Fonte da Foto: Robinson Estrásulas / Agencia RBS