sábado, 23 de abril de 2011

Abandonados, arruinados, desfigurados ou destruídos: os cemitérios das antigas colônias alemãs no Rio Grande do Sul

Falar de cemitério ainda é tabu. A mesma dificuldade que o ser humano apresenta em lidar com a fatalidade da morte também se manifesta na valorização do patrimônio cemiterial. Este artigo tenta abordar, de forma muito sucinta, a importância destes espaços e os problemas enfrentados no caso das antigas colônias alemãs.


A igreja luterana e seu respectivo cemitério em Linha Nova (RS). Um dos cemitérios mais conservados. (foto: Jorge Luís Stocker Jr. /2010)

Um pouco sobre os cemitérios teuto-gaúchos

Os cemitérios das antigas colônias alemãs do Rio Grande do Sul são no geral pouco reconhecidos. Sua importância, no entanto, é inquestionável pela série de peculiaridades que apresentam.

O cemitério de São José do Herval, localidade de Morro Reuter (RS). Quando bem conservados, estes cemitérios são dignos de locação cinematográfica. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)

Em linhas gerais, verifica-se a existência de no mínimo dois cemitérios em cada povoado: o luterano (das comunidades luteranas que posteriormente se organizaram em sínodos, que atualmente constituem a IECLB) e o católico. Poucos lugares apresentam ainda um terceiro cemitério histórico, relativo a igreja luterana iniciada pelo sínodo missouri (atualmente IELB), ou de outras religiões minotritárias.


O cemitério católico de Jammerthal, em Picada Café (RS), mantém muitas de suas lápides antigas sem maiores intervenções. (Foto: Elis Regina Berndt/2010)

Os cemitérios no geral não foram previstos nos projetos de colonização, nem mesmo no caso das picadas loteadas pelo próprio governo imperial (antigos distritos de São Leopoldo). Com o tempo, as comunidades religiosas se organizaram e definiram seus cemitérios particulares, normalmente sobre terras doadas por fiéis.

Nos locais de colonização alemã mais recente, como Esperança do Sul (RS), no noroeste do Estado, percebe-se a recorrência das lápides de pedra grês, embora o estilo da arte seja bastante diferente. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)

A arte cemiterial das colônias alemãs gaúchas é peculiar. A maioria das lápides relativas ao século XIX eram esculpidas em “pedra grês” por algum artesão da localidade. O entalhe destas pedras “brincava” com diversos tipos de ornamentação, passeando pelos estilos de forma inocente, porém com uma desenvoltura.


O belo aspecto de conjunto formado pelas lápides históricas no cemitério de Linha Harmonia, em Teutônia (RS). Estes cemitérios fazem parte da paisagem cultural das antigas colônias alemãs. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)

As inscrições em alemão gótico eram muito comuns, e algumas vezes narram a trajetória do imigrante desde sua saída da Alemanha, ou temas filosóficos e religosos. Mais interessante ainda, é a recorrência dos “epitáfios” em alemão, frases que, se estudadas, poderiam revelar muito da mentalidade da época.


Epitáfio encontrado na parte posterior de uma lápide do cemitério de Picada Holanda, localidade de Picada Café (RS) (Foto: Jorge Luís Stocker Jr. /2009)

O desenvolvimento econômico das regiões de imigração, e da própria capital, trazem já no final do século XIX a popularização das lápides esculpidas em marmorarias especializadas. Alguns teuto-brasileiros começam a comprar seus monumentos funerários diretamente de artistas eruditos, como a Casa Aloys, de Porto Alegre. As lápides em pedra grês, porém, demoram a desaparecer: existem exemplares que datam até mesmo dos anos 40.

Interessante notar que a orientação “normal” de um cemitério, é voltar as lápides para o sol nascente, mas em alguns casos, devido a peculiaridades do terreno, esta orientação é rotacionada.


O cemitério católico de Picada Holanda, com seu belo contexto natual, tem suas lápides viradas ao poente, e não ao nascente como seria de se esperar. O terreno em aclive pode ser uma das explicações. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2009)

Problemas enfrentados

O desrespeito com os cemitérios não é recente. Ao contrário do que se poderia pensar, apesar de envolver um assunto delicado, a demolição e transferência de cemitérios foi muito mais comum do que pode parecer. O crescimento econômico de algumas localidades supervalorizou o terreno dos cemitérios, localizados em pontos privilegiados. A especulação logo assediou as comunidades religiosas detentoras a vendê-los.

Assim, desapareceram já no começo do século XX muitos cemitérios, alguns transferidos de local, outros simplesmente demolidos.


O que restou do cemitério luterano de Campo Bom (RS). Após a transferência da maioria dos monumentos funerários e translado dos restos mortais para novo cemitério, restaram apenas poucas lápides, que desde então sofrem com depredação e com a perspectiva absurda de duplicação da Avenida Brasil - que atingirá cerca de 5m do cemitério, removendo algumas das lápides mais antigas. (foto: Jorge Luís Stocker Jr. / 2009)

A substituição gradual das lápides mais antigas, com remoção dos restos mortais, e uso do mesmo espaço para novos sepultamentos, é outro problema gravíssimo. É o mais recorrente e ocorre em praticamente todos cemitérios que ainda não encontram-se abandonados. O campo santo de propriedade das comunidades religiosas acaba ficando pequeno para a quantidade de sepultamentos, em determinadas localidades, devido ao crescimento populacional acelerado. O aspecto de conjunto homogêneo de lápides fica completamente prejudicado, danificando o aspecto visual do cemitério e anulando seu valor paisagístico.

O completo abandono do cemitério de Quatro Colônias Norte, em Campo Bom (RS). Restam poucas lápides de pé, e o local é praticamente desconhecido de iniciativas públicas. (foto: Jorge Luís Stocker Jr. / 2009)

Com a existência de lápides muito antigas, cujos descendentes não mais vivem na região ou são muito distantes, de gerações muito posteriores que jamais tiveram convivência, torna-se a alternativa mais fácil e mais utilizada a remoção. Muitos monumentos importantíssimos são diariamente reduzidos a cinzas com marretadas, ou em alguns casos, retirados e encostados contra o muro.


Lápides históricas removidas do seu local original e escoradas contra o muro no cemitério da comunidade luterana São João, em Picada Café (RS)

Outro problema frequente é o completo abandono e depredação das lápides, quando é construído um cemitério novo na localidade. Com a falta de manutenção, estes lugares tornam-se alvo fácil de vandalismo ou de ocupação irregular.

Como um dos problemas mais amenos neste contexto assustador, mas igualmente preocupante, está a desfiguração das lápides de pedra grês através da pintura com tintas inadequadas. Embora o aspecto de asseio seja agradável, e digno de aplauso o investimento em melhorias em um cemitério antigo, não pode-se deixar de considerar a falta de respeito com o monumento funerário. O uso de tintas corrosivas pode prejudicar a pedra a longo prazo, e a própria modificação do aspecto das lápides é uma grande perda para o conjunto histórico.


O belo cemitério luterano de Morro Bock, em Picada Café (RS), onde o conjunto de lápides históricas mantém-se impressionantemente bem conservado e homogêneo. O maior problema enfrentado é a pintura uniforme de prateado sobre a pedra grês. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2009)

Conclui-se que, o maior problema enfrentado por esses bens culturais inestimáveis é a própria resistência em reconhecê-los oficialmente como patrimônio. Muitos continuam sendo utilizados como cemitérios, e o espaço que as lápides antigas ocupam, ainda são considerados parte da dinâmica econômica do cemitério, por tratar-se de área particular. A falta de pagamento e de cuidados acarreta a remoção das lápides, o que em poucos casos é feito com o cuidado necessário.

A falta de cuidados com os cemitérios abandonados e depredados também é preocupante.
Estes locais são representativos de uma das etnias formadoras da população brasileira, são ricos em interpretações culturais, e não podem continuar recebendo este tipo de tratamento por parte das comunidades religiosas e do poder público. A patrimonialização destes bens poderá trazer vantagens a todos.


Epitáfio em alemão semi-enterrado entre as ruínas do cemitério de Quatro Colônias Norte, em Campo Bom (RS), um dos casos mais críticos de abandono e depredação. É um retrato da situação deste patrimônio em todo o Estado.

Leia também:
- Algumas fotos de cemitérios mapeadas pelo autor no Panoramio: http://www.panoramio.com/user/807622/tags/cemit%C3%A9rio
Link

9 comentários:

  1. Já li que motivos judaicos nas lápides (candelabros, Estrela de Davi) indicam que a pessoa tinha origem judia. Para o judeu, a oportunidade de imigração oferecia a chance de um recomeço independente de sua procedência religiosa.

    Acho importante ressaltar que a História é feita por pessoas, e é fascinante que podemos encontrar as pessoas que formaram a comunidade todas juntas, lado-a-lado, mirando o Nascente esperando o Arrebatamento.

    Muito boas as fotos.

    ResponderExcluir
  2. Conheci seu blog hoje. Fiquei encantada com a matéria sobre os cemitérios. Vários ascendentes meus devem estar sob aquelas lápides. Meu tataravô materno instalou-se em Teutônia em 1874 e a família da minha avó materna é descendente de Jacobina Mentz.
    Parabéns pelo blog.

    ResponderExcluir
  3. Nós não temos o hábito da preservação. É muito triste, é como apagar o passado e ignorar o futuro.

    ResponderExcluir
  4. Que bom! Mais textos e fotografias de qualidade pra gente. Obrigado por abordar esse assunto, tão rico, repleto de simbologias e ainda tão cheio de tabus.

    ResponderExcluir
  5. O de Quatro Colônias foi destruido por babacas, faz uns 15 anos.

    ResponderExcluir
  6. Tche parabens pela materia, é lamentavel a falta de "caso" para com parte importante da historia de nossos antepassados, uma pequena adicao a tua materia, o cemiterio de Esperança do Sul, o mostrado na foto esta inteiro em relaçao a outro localizado na Linha Ismael em Esperança, hoje ele se encontra no meio do mato...
    Abraços

    ResponderExcluir
  7. Falar sobre a preservação de cemitérios é algo bem delicado. Acho que a principal dificuldade está no fato que familiares de pessoas de gerações passadas não vêm mais motivo em manter sepulturas que chegam a ser centenárias. O debate sobre tombamento de cemitérios não é tão simples pelo fato que são aluguéis de covas e teoricamente elas devem ser esvaziadas para novas vendas. É assim que resume-se a memória do indivíduo nas necrópoles.

    ResponderExcluir
  8. Jonas, se por um lado é sim bem delicado, por outro é o mesmo problema enfrentado nos meios urbanos com a preservação do patrimônio arquitetônico.
    A partir do momento de que o objeto é portador de valores culturais, simbólicos e representativos para toda uma comunidade, acho que não devem continuar sendo conduzidos como meros objetos imobiliários (ou funerários). Isso envolve a memória e a identidade coletiva, que são tão delicadas quanto o bolso de uma paróquia ou proprietário de imóvel, e certamente bem mais relevantes!

    ResponderExcluir
  9. Parabéns mais uma vez Jorge. Sem dúvida, cemitérios são uma atração interessante (apesar dos que os achem apenas mórbidos).Aliás. Uma das principais atrações turísticas de Buenos Aires, é o Cementerio de la Recoleta, não só pelos seus mausoléus, mas pelas histórias que mostra. Por que então, não valorizar os nossos?
    João Antônio
    destinosdosul.blogspot.com

    ResponderExcluir

Atenção: nos reservamos o direito de não aprovar comentários agressivos, difamatórios ou anônimos.

OS COMENTÁRIOS SÃO DE RESPONSABILIDADE DE SEUS AUTORES E NÃO EXPRESSAM O POSICIONAMENTO DO DZEITRS