quinta-feira, 24 de maio de 2012

Taquara (RS) - A encruzilhada do turismo na contramão da história

    Taquara é uma cidade ímpar dentro do contexto do Vale do Paranhana e do próprio Rio Grande do Sul. Nascida como sede de um processo de colonização alemã movido por particulares, a Colônia de Santa Maria do Mundo Novo, a cidade funciona até hoje como uma espécie de "capital" daquela microrregião, tanto em termos econômicos quanto sócio-culturais.


    A cidade apresenta ainda um conjunto significativo do auge de seu centro urbano, grande parte no estilo eclético e Art Déco. Trata-se de um impressionante sítio histórico relativo a imigração alemã, sendo um dos últimos minimamente preservados no Estado.
    As edificações públicas e particulares deste município apresentam peculiaridades em relação a outras cidades da região, existindo um contexto cultural e arquitetônico riquíssimo ainda pouco explorado pelo meio acadêmico.

    Não bastasse a importância e beleza do conjunto histórico e da paisagem urbana, Taquara ainda localiza-se em ponto estratégico, no caminho da mais importante rota turística: a serra gaúcha, mais especificamente, Gramado.

    Infelizmente toda esta riqueza cultural e potencial turístico passam por um momento trágico. Nunca Taquara demoliu tanto e tão rápido o que tem. Nunca esta cidade buscou com tanto vigor, tornar-se feia e genérica.

    O conjunto histórico de Taquara vai ficando "banguela", com algumas demolições em meio aos conjuntos. Algumas torres começam a ser plantadas em meio a paisagem cultural típica. Alguns prédios históricos vão ficando desqualificados, com a sumária substituição de esquadrias por "blindex" ou mesmo pela transformação volumétrica. Atentados de todos os tipos contra todas as convenções internacionais reconhecidas. Mesmo quando não se perde a integridade do prédio, se perde o contexto ou o valor documental com reformas absurdas. É difícil citar bons exemplos de intervenções recentes que não tenham desfigurado significativamente o valor histórico das edificações.



    Taquara está geograficamente na "encruzilhada do turismo", mas agora escolhe seguir a contramão da história e desvalorizar e demolir tudo aquilo que até então manteve, e cuja perda é irreversível.
    Em detrimento a qualidade de vida, dos direitos adquiridos na Constituição Federal, à revelia do Estatuto das Cidades e prejudicando o potencial turístico (que também é econômico), Taquara destrói diariamente sua identidade, com a conivência dos mais diversos órgãos e da própria sociedade.



    Haverá tempo para reverter um quadro tão crônico? Quais interesses estão envolvidos nessas demolições, e a quem elas beneficiam? São questões de fácil resposta. Taquara carece de um inventário de patrimônio cultural. Carece de um Conselho de Patrimônio. Carece de tombamentos e de bons exemplos de resgate. Coisas simples que poderiam mudar a cidade, gerar empregos especializados, movimentar a economia e o turismo.


    Os cidadãos de Taquara deveriam se perguntar: que cidade queremos? Uma cidade do futuro, planejada, com desenvolvimento sustentável, respeito a identidade e com qualidade de vida? Ou um atrasado "american way of life" que desembarca na cidade com lapso de décadas, trazendo monstruosidades urbanas, problemas viários e uma vida caótica? Um modelo contemporâneo e qualificado, ou um grosseiro e ultrapassado desenvolvimento ignorante e sem planejamento?

    Esperamos que Taquara  saia logo da contramão da história, que deixe de ser uma mera encruzilhada do turismo para tornar-se de fato uma cidade com vida social e cultural atrativa, tanto para os moradores quanto para os turistas. O potencial ainda resiste. O interesse da população, órgãos de patrimônio e poderes públicos pode ser conquistado. Quem está se omitindo?

7 comentários:

  1. cristina mansueti29 de maio de 2012 10:46

    Parabéns, Jorge! Lograstes captar e expressar muito bem a potencialidade do Município e o grave risco que nós, cidadãos, corremos. Parabéns à DEFENDER pela iniciativa de tutela!

    ResponderExcluir
  2. Prezado Jorge,
    Encontrei o seu site por acaso. Estou quebrando a cabeça para encontrar uma casa em estilo italiano (1890-1930) para um filme. Se puder ajudar, agradeço. Abz.
    alan.cinema@gmail.com

    ResponderExcluir
  3. Sr. Jorge.

    Tenho acompanhado manifestações sobre o Patrimônio Histórico de Taquara com especial interesse, pois mantinha sozinho um imóvel antigo na cidade.

    E por esta condição, que me fez investir significativa quantia durante mais de 20 anos, posso lhe garantir que a abordagem de militantes de ONGs, historiadores e autoridades do executivo, legislativo e judiciário é, no mínimo, equivocada – para não dizer, omissa – no reconhecimento efetivo de quem realmente manteve de pé, por décadas a fio, o que hoje é chamado de Patrimônio Histórico.

    O senhor sabe que até hoje caminhões de carga e ônibus não têm nenhuma restrição de trânsito diante de casas antigas? O senhor sabe que não existe nenhum programa público de combate a pragas como formigas e cupins? O senhor sabe que não existe nenhum benefício fiscal em IPTU, despesas cartoriais, ITBI ou inventários? O senhor sabe que não há linhas especiais de financiamento ou isenção de tributos na compra de materiais para reforma e manutenção? O senhor sabe que não há nenhum benefício nos impostos das contas de energia?

    Não bastasse arcar com tudo sozinho, em nome de um bem de interesse público, o proprietário ainda convive com o fantasma do tombamento. E como sua propriedade não é só um prédio antigo, este fantasma realmente assombra: sua propriedade vai virar um mico imobiliário.

    Agora o senhor sabe porque cidadãos como eu, desistem de manter um prédio antigo, ou histórico. Esta foi a razão pela qual derrubei uma casa de 1928 (creia, não tenho menor orgulho; mas estou convicto de ter razão matemática para ter feito o que fiz).

    Em vez de criticar e amedrontar o principal agente de preservação do Patrimônio Histórico, lute para que ele seja beneficiado por ter mantido este patrimônio. Aja rapidamente no sentido de transformar sua propriedade num objeto de desejo do mercado e não num mico imobiliário.

    Eu tenho certeza de que, como mágica, vai ter fila de proprietários aderindo ao tombamento voluntário de seus imóveis.

    Obrigado pela atenção.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Amigo anônimo, peço que leia o seguinte texto, deste mesmo blog:
      http://dzeit.blogspot.com.br/2012/04/o-patrimonio-que-espera-pelo-messias.html

      Este é um entre tantos outros em que já abordamos os problemas apresentados.

      Abraço,
      Jorge Luís Stocker Jr.

      Excluir
  4. Sr. Jorge.

    Tenho acompanhado manifestações sobre o Patrimônio Histórico de Taquara com especial interesse, pois mantinha sozinho um imóvel antigo na cidade.

    E por esta condição, que me fez investir significativa quantia durante mais de 20 anos, posso lhe garantir que a abordagem de militantes de ONGs, historiadores e autoridades do executivo, legislativo e judiciário é, no mínimo, equivocada – para não dizer, omissa – no reconhecimento
    efetivo de quem realmente manteve de pé, por décadas a fio, o que hoje é chamado de Patrimônio Histórico.

    O senhor sabe que até hoje caminhões de carga e ônibus não têm nenhuma restrição de trânsito diante de casas antigas? O senhor sabe que não existe nenhum programa público de combate a pragas como formigas e cupins? O senhor sabe que não existe nenhum benefício fiscal
    em IPTU, despesas cartoriais, ITBI ou inventários? O senhor sabe que não há linhas especiais de financiamento ou isenção de tributos na compra de materiais para reforma e manutenção? O senhor sabe que não há nenhum benefício nos impostos das contas de energia?

    Não bastasse arcar com tudo sozinho, em nome de um bem de interesse público, o proprietário ainda convive com o fantasma do tombamento.
    E como sua propriedade não é só um prédio antigo, este fantasma realmente assombra: sua propriedade certamente vai virar um mico imobiliário.

    Agora o senhor sabe porque cidadãos como eu, desistem de manter um prédio antigo, ou histórico. Esta foi a razão pela qual derrubei uma casa de 1928 (creia, não tenho menor orgulho; mas estou convicto de ter razão matemática para ter feito o que fiz).

    Em vez de criticar e amedrontar o principal agente de preservação do Patrimônio Histórico, lute para que ele seja beneficiado por ter mantido este patrimônio. Aja rapidamente no sentido de transformar sua propriedade num objeto de desejo do mercado e não num mico imobiliário.

    Eu tenho certeza de que, como mágica, vai ter fila de proprietários aderindo ao tombamento voluntário de seus imóveis.

    Obrigado pela atenção.

    ResponderExcluir
  5. Desculpe-me pelo anonimato. Tenho dificuldades de publicar o post ao escolher "perfil". Meu nome é Renato Konrath.
    Abraços.

    ResponderExcluir
  6. Renato Konrath, novamente. Obrigado pela dica da leitura. De fato, o post comprova minha infeliz experiência: fui amedrontado por uma tentativa de tombamento, sem nenhum tipo de compensação pelos prejuízos que o mesmo me causaria. E voltamos ao verdadeiro n ó da questão: o que o proprietário ganha por ceder seus direitos legalmente adquiridos? Esta é a pergunta que deve ser feita - e principalmente respondida - para que casos como o meu tenham um desfecho diferente, com o imóvel preservado em nome do interesse comunitário e o proprietário justamente recompensado pelos direitos privados cedidos.
    Abraços.

    ResponderExcluir

Atenção: nos reservamos o direito de não aprovar comentários agressivos, difamatórios ou anônimos.

OS COMENTÁRIOS SÃO DE RESPONSABILIDADE DE SEUS AUTORES E NÃO EXPRESSAM O POSICIONAMENTO DO DZEITRS