terça-feira, 22 de junho de 2010

Motivos para preservação do patrimônio e as destruições em Novo Hamburgo (RS)

Com políticas de preservação ineficazes ou inexistentes, edificações valiosas que identificam a região de imigração alemã do Rio Grande do Sul sucubem às pressões do mercado imobiliário.
ATENÇÃO: ESTE ARTIGO NÃO É CONTEÚDO LIVRE E SÓ PODE SER REPRODUZIDO TOTAL OU PARCIALMENTE SOB AUTORIZAÇÃO EXPRESSA DOS AUTORES.
Preservar não (apenas) pelo belo, mas pelo conteúdo


Casa demolida em junho/2010, sob aprovação do poder público, no centro de Novo Hamburgo: uma das pioneiras do padrão volumétrico que marcaria as colônias alemãs e que surgiu na cidade. (foto: Jorge Luís Stocker Jr.)
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O patrimônio cultural brasileiro têm sido depredado e destruído dia após dia. Quando muito, ouvem-se lamúrias que buscam valorizar a "beleza"dos prédios antigos, em contraponto à padronização e falta de senso artístico da produção atual. Porém, mais do que um "regojizo" para o olhar, os prédios antigos desempenham muitas funções importantes dentro do tecido urbano.
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A mais importante das funções talvez seja a sua própria materialidade como "documento histórico". O prédio como um todo pode ser analisado de forma a encontrar respostas e perguntas sobre determinados períodos - as soluções construtivas revelam a procedência do conhecimento técnico e aspectos culturais da sociedade que o construiu, bem como o estágio de evolução tecnológica. Já a organização espacial diz muito sobre o modo de vida, aspectos sociais relevantes, entre outras. Até mesmo as modificações dos prédios através dos tempos, podem ser ricas fontes sobre as mudanças de valores estéticos, sociais e como eles se manifestaram na construção.
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Maquetes (reais ou virtuais), levantamentos, fotografias: nada pode substituir o valor de um prédio histórico na sua integridade, justamente por ser uma fonte não terceirizada, da qual podemos extrair informações e interpretações diretamente, sem resíduos interpretativos ou erros acumulados.
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Exemplo de conjunto importante, abandonado pelos olhares da sociedade. Situa-se na rua Marcílio Dias, em Novo Hamburgo (RS). Apesar do seu inestimável valor histórico, as casas deste padrão volumétrico típico das regiões de imigração alemã são desprezadas, e por este motivo, constantemente demolidas ao ponto de estarem próximas do desaparecimento. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2009)
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Considerando a cidade, novamente os prédios históricos desempenham importante papel, ainda que estejam deslocados de um conjunto homogêneo e isolados em suas características de época. Eles são responsáveis pela sensação de continuidade, esta "ponte" que nos permite conhecer e reconhecer o passado, tendo assim segurança para viver o atual e o futuro. Esta sensação agradável deriva da facilidade de entendimento: tudo aquilo que pode ser entendido e linearizado nos traz mais segurança. Uma cidade sem referenciais (sejam marcos históricos ou contemporâneros, monumentos, etc.) é carente de identidade, e traz por isto insegurança, dificuldades de localização, além da falta de "apego" pelo local de morada.
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É possível, através da preservação de exemplares autênticos, datar de forma confiável a existência de determinadas vias e sua configuração estética e social em determinadas épocas.
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O bem histórico é insubstituível na sua condição de documento
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É recorrente que, na atualidade, se faça amplos levantamentos históricos e fotográficos, além de séries de entrevistas orais que procuram "resgatar" a história das cidades. Desta forma, deixa-se "vestígios" e registros para posteriores pesquisas, visto que é provável a perda definitiva destas memórias e do aspecto destes prédios e lugares. Instrumentos de preservação previstos constitucionalmente, os inventários muitas vezes tem sido empregados com esta função reduzida de "deixar registros".
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O mais triste de tudo é que sabemos: história escrita e interpretada é sim, importantíssima, porém, não faz parte do cotidiano da população. Assim como "a cura para o câncer" não faz parte da pauta e do dia-a-dia de todos os moradores da cidade, também o estudo da história e seus meandros é irrelevante para estas pessoas. A memória da dona Maria, de fato e infelizmente, não vai interessar de forma alguma a dona Joana.
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O valor do patrimônio também reside no seu significado atual
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E é aí que reside um dos maiores valores do patrimônio cultural material: Ele pertence sim a um mundo que já não existe, nasceu no passado - porém, pode fazer sentido e pode ser vivenciado no mundo presente!
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A continuidade do patrimônio e sua inclusão no cotidiano da população torna possível que ele continue fazendo sentido através dos tempos, "referendando" sua própria conservação. Criando estes vínculos entre a sociedade atual e o legado pretérito, o passado passa a participar da vida cotidiana, e não apenas dos estudos históricos do meio acadêmico. Novamente relembramos que fotografias, maquetes, textos e vídeos podem ser analisados, mas nunca vivenciados como o patrimônio conservado em sua integridade.
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Uma das casas pioneiras neste padrão volumétrico, a Casa Richter é atualmente mantida de forma exemplar pelos proprietários. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr.)
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A demolição de um bem histórico pela mera pressão imobiliária, apesar de uma constante, não pode continuar sendo encarado como rotineiro e comum. O risco é o bem-estar da cidade como um todo e a fragilização de sua identidade: não apenas se perde um "belo prédio antigo", mas queima-se definitivamente uma série de informações possíveis. Perde-se, ainda, uma possibilidade de vínculo afetivo dos moradores com as raízes culturais do município.
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As casas germânicas da Colônia Alemã de São Leopoldo
(conhecidas como: casas de frontão recortado, casas de telhado simétrico, casas de sótão-frontão)

Ainda inexpressivos na bibliografia existente, e com aspectos e peculiaridades ansiando um estudo completo e adequado, as casas construídas na colônia alemã no período aproximadamente compreendido entre a década de 10 e o início da década de 40, tem sido sistematicamente destruídas.
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Antiga sociedade Frohsin, projetada pelo arquiteto alemão Theo Wiederspahn em 1909, é prova da influência da linguagem eclética erudita na difusão de uma arquitetura da germanidade. (foto: Elis Regina Berndt/2009)
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Alinhadas em certos aspectos com o ideário eclético, estas casas provavelmente foram influenciadas pela presença maciça de profissionais arquitetos e engenheiros de formação alemã na região de Porto Alegre deste período. São legítimas "construções da germanidade", pretendiam-se teuto-brasileiras na sua aparência. Apresentam uma inconfundível volumetria, marcada pela inclinação dos telhados (com consequente uso da área como sótão).
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O deslocamento da "fachada principal", do lado maior para o lado menor, diferencia esta arquitetura da praticada em áreas de pura influência luso-brasileira. O oitão do telhado é valorizado, normalmente com uso de platibandas que constituem-se um marcante frontão - lembrando algumas vezes as soluções ecléticas para meios urbanos medievais, onde a estreiteza dos lotes impossibilita um aproveitamento mais horizontal.
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Um dos poucos conjuntos homogêneos ainda existentes, apesar da desfiguração de algumas partes, na Av. São Miguel de Dois Irmãos (RS). Em primeiro plano, a casa Konradt. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2009)
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As variações são muitas, existindo exemplares extremamente decorados - alguns com elementos eruditos, outros, com interpretações nitidamente vernaculares; e também exemplares extremamente despojados e geometrizantes, sintonizados, com algum atraso, às vanguardas européias.
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Essa arquitetura relaciona-se com acontecimentos pré e pós primeira Guerra Mundial, e provavelmente, com o pangermanismo. e, praticamente, desaparece quando eclode a Segunda Guerra Mundial (e a consequente campanha maciça de nacionalização, repressão à cultura germânica e muitos outros episódios traumáticos que seguem mal contados e sempre omitidos). Esta "repressão nacionalista" é a provável causa do abandono moral destas casas, e seu esquecimento como portadoras de um conteúdo simbólico (o germanismo) e histórico (interpretação local do eclético).
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Os exemplares que seguem existindo, são no geral desvalorizados, desprezados em inventários e omitidos em listas de tombamentos. O poder público de cidades onde estas casas foram o "padrão" por décadas - como Campo Bom, Sapiranga, Ivoti e Novo Hamburgo - mostram-se indiferentes a sua importância, ignorando os poucos exemplares existentes e permitindo sua sumária demolição.
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Nos poucos casos em que foram recentemente valorizados alguns exemplares, isto se deve muito mais ao seus aspectos históricos (ter sido importante entreposto comercial, como no caso da Casa Amarela de Ivoti, por exemplo) do que um real conhecimento e valorização do inegável caráter simbólico.
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Construída em 1949 - curiosamente, pelo menos 03 anos após o "fim da arquitetura teuto-brasileira" declarada pelo arquiteto Gunter Weimer em seu trabalho Arquitetura Erudita da Imigração Alemã. Situado em Jammerthal, interior de Picada Café, este exemplar bastante tardio ilustra a penetração da volumetria e das formas deste estilo pela população em geral, sua aplicação em prédios expontâneos e a perenidade que teve em locais de menos repressão nacionalista. (Foto: Elis Regina Berndt/ Março 2010)
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O berço deste patrimônio e sua destruição - Novo Hamburgo e arredores
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Segundo o historiador Jean Roche, estas casas (que numa rápida análise, denominou "casas de telhado simétrico") teriam surgido em Novo Hamburgo. A informação, sem fontes, parece se confirmar pela datação das casas ainda encontradas (e vêm aí, reforçada, a importância da preserva dos prédios como documentos): a mais antiga encontrada por nós data de 1903. Trata-se da Casa Richter, que ainda não se afasta de forma tão óbvio da arquitetura luso-brasileira, mas já apresenta uma volumetria característica. Mais tarde, com o aperfeiçoamento do padrão, os telhados se tornariam ainda mais inclinados e a presença da janela central do sótão, ainda mais pronunciada.
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A demolição deste legado
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Engana-se quem pensa que a desvalorização do patrimônio das imigrações restringiu-se ao período da campanha nacionalista da Ditadura. Muitos dos últimos e importantes exemplares deste acervo tem sido demolidos nos últimos anos, alheios ao desenvolvimento turístico e desprezado pelos inventários culturais.
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Casa inteiramente demolida no mês de junho de 2010 no centro de Novo Hamburgo. Construída em 1915, consistia em uma das mais antigas ainda existentes deste padrão, e uma das poucas praticamente ainda intocadas por modificações posteriores. (foto: Jorge Luís Stocker Jr. / 2009)
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Um dos primeiros exemplares deste padrão foi recentemente demolido em Novo Hamburgo. A casa, cuja datação da fachada informava sua construção em 1913, considerou-se desvalorizada por seu mau estado de conservação. Sem quaisquer protestos de nenhum setor da sociedade, este inestimável patrimônio foi rapidamente demolido sob acato da lei.
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Casa Moraes, nas proximidades do sítio histórico de Hamburgo Velho, inteiramente demolida no último ano. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2008)
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Aliás, esta tem sido a característica comum aos recentes casos de dano ao patrimônio cultural em toda região: contrariando o princípio dos direitos difusos (entre eles, o interesse cultural da sociedade na continuidade destes prédios, o potencial turístico, entre outros), as demolições são legalizadas e referendadas por conselhos (que infelizmente, apesar do esforço, são pressionados e engessados pelo mercado imobiliário, interesses políticos e falta de apoio das entidades), órgãos preservacionistas, e pelo próprio poder público - a quem cabe, constitucionalmente, a tutela e preservação deste patrimônio.
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Localização da casa demolida, em imagem de 1952. (fonte: Acervo Gilberto Winter - www.bauderecordacoes.com.br)
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Com a autorização da própria lei, torna-se um ataque ao patrimônio cultural cometido a olhos vistos e acobertado pela legislação ineficiente e pela população desinteressada e ignorante de seus direitos e deveres. Ainda há quem atrasa-se no lento raciocínio de que constitui-se patrimônio histórico apenas os bens devidamente tombados.
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Para estes, a citação abaixo poderia ser bastante esclarecedora:

É perfeitamente cabível a proteção ao bem de valor cultural, esteja ou não tombado. Um bem pode ter acentuado valor cultural, mesmo que ainda não reconhecido ou até mesmo se negado pelo administrador. Como vimos, o tombamento é ato declaratório e não constitutivo desse valor: pressupõe esse valor; não é o valor cultural que decorre do tombamento.

Hugo Nigro Mazzilli (“A Defesa dos Interesses Difusos em Juízo”, Ed. Saraiva, 17ª ed., SP 2004, p. 20)


Casa Trenz, de 1917, também foi recentemente demolida, em prejuízo da memória do município. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2008)
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As casas, que comprovavam a ligação de Novo Hamburgo com o advento deste tipo de construção, que se tornou padrão e marcou o visual de todas as colônias alemãs, simplesmente desaparecem para dar lugar a um prédio qualquer da rotina imobiliária. Fica ferida e perpetuamente danificada, assim, a própria IDENTIDADE do município de Novo Hamburgo.
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Comprovam esta lenta agonia outras recentes destruições: as casas Trenz, Fensterseifer e Moraes, todas integrantes do Inventário provisório e inteiramente demolidas. Constituíam-se, em alguns casos, no último testemunho histórico deste período em toda a rua ou no trecho em que se situavam e, certamente, seu desaparecimento empobrece o meio urbano do município, bem como invibiliza futuras pesquisas que procurem mapear este padrão construtivo.
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Casa Fensterseifer, de 1925, já em processo de demolição. Inteiramente demolida em Maio/2010. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr.)

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Texto: Jorge Luís Stocker Jr.
Imagens: Elis Regina Berndt e Jorge Luís Stocker Jr.

Veja também:

# Gunter Weimer: Arquitetura Erudita da Imigração Alemã (livro)
# Fotos de casas com este padrão volumétrico.

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sexta-feira, 14 de maio de 2010

Fotografias antigas como forma de interpretar o passado... e o Album Comemorativo de Campo Bom em 1926.

A sociedade tem mostrado um crescente interesse pelas fotografias históricas. O pitoresco dos costumes e paisagens do passado, reforçados pelo nostálgico do preto e branco ou do sépia, encantam até mesmo os menos interessados na memória cultural.
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Vista da atual rua Voluntários da Pátria, no centro de Campo Bom. Encontrada no Album Fotográfico lançado na ocasião da elevação a distrito de São Leopoldo, em 1926. (fonte: Acervo digital de Roberto Atkinson/extraído do acervo do memorial do trem)
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A imagem fotográfica histórica, que antes ficava restrita a posse de apenas uma pessoa, hoje é compartilhada por centenas de pessoas, podendo ser acessada pela internet e salva no computador, ou ainda reproduzida em cópias físicas, através de ampliação, quantas vezes for necessário.
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O ônus desta facilidade é o distanciamento entre a imagem fotográfica e a informação sobre sua origem: não raro nos deparamos com fotografias sem qualquer indicação de autoria, datação, ou qualquer informação que possa ajudar a localizar o registro no tempo e espaço.
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Sem o acesso a estas informações, qualquer informação "lida" na imagem será deficiente, e possivelmente equivocada.
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Ao retratar uma sociedade completamente diferente da atual, a imagem fotográfica traz subsídios para muitos questionamentos dos quais pode-se extrair muitas informações interessantes. Mais do que apenas responder perguntas, a fotografia podem trazer novas perguntas, enriquecendo a pesquisa histórica (ou a simples reflexão).
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O mais comum, no entanto, é nos depararmos com conclusões simplórias a respeito do conteúdo das imagens. É celebrado, por exemplo, o "progresso" dos dias atuais, ao se confrontar com a precariedade das estradas ou a pobreza das construções das épocas passadas. Ou então, depreciada a arquitetura contemporânea, em oposto a um tempo onde tudo era "romântico" e a arquitetura supostamente prezava mais a estética.

A fotografia urbana histórica, no entanto, pode mostrar muito mais do que um 'retrato fiel' da cidade no passado ou um comparativo peculiar com a atualidade. Ela fala do que o fotógrafo pretendeu "recortar" da realidade - e no caso de álbuns oficiais ou postais, é ainda possível entender como a cidade queria ser vista em determinada época.
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A ausência de determinados elementos, ou a omissão de alguma característica, também podem ser importantes na hora de interpretar uma fotografia.
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A seguir, uma pequena e despretenciosa análise de um conjunto de imagens históricas do ano de 1926. Importante ressaltar que foco das interpretações pretendidas são derivadas de uma pesquisa relativa exclusivamente à arquitetura e urbanismo da cidade. Não foram procedidas, portanto, maiores análises sociológicas, com exceção das que podem dar suporte ao tema.

Campo Bom e o Album fotográfico comemorativo da emancipação (1926)*
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*este trecho é resumo de um capítulo da pesquisa de iniciação científica do autor, em andamento, que aborda a arquitetura da cidade de Campo Bom através das décadas.

Até o ano de 1926, a Vila de Campo Bom carecia de autonomia administrativa, sendo subordinada ao distrito de Novo Hamburgo. Considerando a eminente emancipação deste distrito, que de fato se concretizaria um ano depois, a intendência de São Leopoldo entendeu que deveria elevar Campo Bom a 10º Distrito de São Leopoldo, evitando assim que se viesse a perder mais território. Para comemorar esta elevação a distrito, o fotógrafo porto-alegrense Max Milian teria sido convidado a elaborar um álbum, que foi denominado “Album Photographico de Campo Bom”.
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Capa do Album Fotográfico lançado na ocasião da elevação a distrito de São Leopoldo, em 1926. (fonte: Acervo digital de Roberto Atkinson/extraído do acervo do memorial do trem).

No conjunto de imagens percebe-se a clara a intenção, por parte do fotógrafo, de retratar um lugarejo pequeno, mas em acelerada expansão comercial e industrial. Esta ambivalência é explorada no álbum: sua capa retrata uma pequena casa eclética típica; imersa em meio a mata nativa, em oposição ao restante do ensaio, onde verificamos uma sucessão de casarões e prédios industriais, em áreas semi-urbanizadas. Podemos fazer uma analogia que compara a pequena casa (representando a vila de Campo Bom) e a floresta ainda virgem (simbolizando as grandes extensões de matas nativas ainda existentes na época, no meio das quais Campo Bom se localizava), visto que foi escolhida como capa do álbum.
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Abre o álbum a imagem das autoridades, sub-intendente, chefe, juiz e escrivão. É curiosa a inclusão dos dois professores então atuantes, Helmut Cullmann representando a escola evangélica e a única mulher retratada, a professora Maria Zeiss representando a escola “pública”.
A inclusão dos professores, e das duas fotos posteriores abrangendo o grupo dos alunos de ambas as instituições, parece ter a intenção de desmistificar o “isolamento sócio-cultural” das colônias alemãs, então muito criticado. A superioridade numérica da escola pública, que tinha como característica o ensino da língua nacional, reforça essa imagem de inclusão na vida social brasileira.
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Escola Evangélica e Escola Pública dee Campo Bom. Encontrada no Album Fotográfico lançado na ocasião da elevação a distrito de São Leopoldo, em 1926. (fonte: Acervo digital de Roberto Atkinson/extraído do acervo do memorial do trem).
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Em seguida, o álbum traz uma série de imagens urbanas do município. Apesar da visível busca pelas áreas de maior densidade de construções, não foi possível evitar o forte contraponto entre essas construções novas, em estilo eclético e de caráter muito erudito, com a falta de estrutura urbana e precariedade das vias. Fica também evidente a quantidade de espaços vazios, mesmo nas principais ruas da localidade).
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É apresentada então uma imagem individual do “Curtume e Fábrica de Calçados Vetter e Cia”. A foto certamente foi estratégica, com intenção de surpreender os que pouco esperavam de um lugarejo tão pequeno, e também como forma exacerbar a importância da indústria. O fotógrafo afasta-se da edificação e obtém um ângulo lateral, que exibe tanto a imponente fachada frontal, quanto toda a extensão lateral do prédio. É clara a pretensão de demonstrar a grandeza do prédio (e da própria atividade industrial) brotando no seio de uma comunidade que até então sequer havia sido elevada a distrito.


Vista da Fábrica de Calçados Irmãos Vetter, no centro de Campo Bom. Encontrada no Album Fotográfico lançado na ocasião da elevação a distrito de São Leopoldo, em 1926. (fonte: Acervo digital de Roberto Atkinson/extraído do acervo do memorial do trem). Ao lado, uma vista atual, onde vemos a fachada 'restaurada', com demolição de todo corpo da edificação (Jorge Luís Stocker Jr/2009)
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Outros prédios industriais são mostrados ao longo do álbum, todos com a mesma preocupação de retratar a “totalidade” da edificação, em uma busca por vistas quase isométricas. São apresentadas as fábricas de W. Korndoerfer e Cia (prédio ainda existente e bastante desfigurado), a fábrica de louças e barro de F. & M. Blos (idem), entre outras.
Também a contrastar com a pequenez do lugarejo, é apresentada uma fotografia da Sociedade Concórdia (hoje XV de Novembro). O fotógrafo novamente evita uma vista frontal.


Villa Ida, Solar dos Leões e Casa de Felipe Blos, no centro Campo Bom, retratadas no Album Fotográfico lançado na ocasião da elevação a distrito de São Leopoldo, em 1926. (fonte: Acervo digital de Roberto Atkinson/extraído do acervo do memorial do trem). A primeira foi demolida na década de 90, após realização do Inventário, a segunda, já bastante modificada, foi demolida em 2009. A casa de Felipe Blos, com algumas modificações, ainda resiste na Avenida Brasil.
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O álbum continua, apresentando as mais importantes edificações então existentes na cidade. Continua, mesmo nas residências, a recorrência das vistas laterais, desta vez ressaltando a opulência dos elementos decorativos e das saliências e reentrâncias existentes nos palacetes ecléticos. Destacam-se a Villa Ida (e seu forte caráter germânico), o Solar dos Leões de Emílio Vetter e a Villa de Felipe Blos, todas as três ostentando balaustradas delimitando o espaço público e privado, e evocando um ar mais “urbano” do que rural, pretendido na época. Este é outro forte contraponto às precárias estradas de chão batido de uma localidade até então muito ligada ao mundo colonial.
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Também em oposição a grandiosidade das construções apresentadas individualmente nestas imagens, o álbum traz algumas poucas vistas gerais, tomadas do alto dos morros que circundam a área central de Campo Bom. Nestas, vemos que Campo Bom, apesar da imagem progressista cuidadosamente construída pelas imagens anteriores, ainda não passava de um tímido vilarejo em meio ao campo, onde se destacava apenas a grandiosidade dos prédios da Sociedade Concórdia e da Fábrica dos Vetter.


Uma das vistas gerais retratadas no Album Fotográfico lançado na ocasião da elevação a distrito de São Leopoldo, em 1926. (fonte: Acervo digital de Roberto Atkinson/extraído do acervo do memorial do trem). Destaca-se, no lado direito, a grandiosidade do prédio da Sociedade Concórdia.
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Nestas vistas gerais, e apenas nelas, poderemos distinguir algumas das construções mais antigas da localidade, vernaculares. São as casas enxaimel, ou as casinhas de alvenaria com influência luso-brasileira. Extremamente ligadas a um “passado colonial”, de dificuldades e escassez de recursos, não foram consideradas propícias a representar a nova realidade daquela comunidade. Os únicos prédios retratados que remetem a este passado colonial, são aqueles que até então conservavam sua importância social: a Escola e a Igreja Evangélica, que aliás, representam o extrato do que de mais simples é retratado neste álbum (e ousamos dizer, do que mais correspondia à realidade imediata da época, se considerarmos o que vemos nas vistas gerais. A ambientação colonial só seria completamente varrida a partir dos anos 40-50).
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A escola evangélica, edificação mais modesta retratada Album Fotográfico lançado na ocasião da elevação a distrito de São Leopoldo, em 1926. (fonte: Acervo digital de Roberto Atkinson/extraído do acervo do memorial do trem). O provável motivo de sua inclusão, é a importância social que desempenhava. Seu aspecto contraria, em partes, a imagem de cidade moderna construída ao longo do album.
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Nem mesmo como curiosidade cultural ou histórica, comparecem as dezenas exemplares de enxaimel então existentes na cidade. Considerados “prédios precários”, frutos de tempos difíceis, jamais serviriam para forjar a imagem que agora se pretendia ‘vender’: um lugarejo em espantosa ascensão econômica.
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Esta imagem de prosperidade e progresso seria cultivada e ultrapassaria as décadas, se mantendo até os dias atuais.

Texto: Jorge Luís Stocker Junior - acadêmico de Arquitetura e Urbanismo

#Agradecemos especialmente ao amigo Roberto Atkinson, do grupo Pró-memória de Campo Bom, pelo generoso compartilhamento do material histórico digitalizado que possui em seu acervo particular. Sem este apoio, a coleta de dados da pesquisa de iniciação científica seria muito mais difícil, e em muitas etapas, inviável. Obrigado e conte conosco também!

Leia também:
#Livro: Testemunha Ocular - História e Imagem. Peter Burke.

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terça-feira, 30 de março de 2010

Homenagens equivocadas

São Leopoldo é conhecida por ter sido o “berço da imigração alemã no sul do Brasil”. Por muito tempo, foi a sede administrativa da colônia alemã promovida pelo governo Imperial. Era de se esperar da cidade que fosse hoje uma “Alemanha” no Brasil, um pólo turístico cultural.
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Centro histórico de São Leopoldo. Ao centro, a igreja, e ao fundo, antigo Seminário Jesuíta, projetos do arquiteto alemão Grunewald (foto:Jorge Luís Stocker Jr./2008)

Nada disso se confirma na realidade. Uma série de fatores levaram a cidade a renegar sua origem cultural – entre elas, o regime de nacionalização imposto durante a ditadura, que visava unificar a identidade brasileira. O desenvolvimento econômico obtido com o setor calçadista trouxe novas pessoas e novos meios de vida e sociabilidade, completamente diferentes do contexto cultural da imigração.
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Mas ainda que a cultura germânica sempre tenha sido muito presente, percebe-se que a arquitetura urbana de São Leopoldo nos seus primórdios foi muito mais influenciada pela cultura construtiva luso-brasileira, do que pela alemã. Enquanto no ambiente rural da colônia prevaleciam as casas enxaimel construídas pelos imigrantes, na área urbana o estilo colonial português era uma constante, regido a partir de certa data por um código de posturas urbanas, assim como os vilarejos colonizados por açorianos.
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Com a evolução deste vilarejo, São Leopoldo veria surgir um conjunto arquitetônico muito conhecido, que consiste no que hoje restou do seu “centro histórico”: a praça do Imigrante, a Igreja Matriz, e o antigo Seminário, hoje pertencente à Unisinos – sendo os dois últimos, obras do conhecido “Mestre João” – o arquiteto construtor Johann Grünewald, autor também do prédio da Cúria Metropolitana de Porto Alegre, recentemente tombado.

Conjunto projetado pelo arquiteto Johann Grunewald. (foto: Jorge Luís Stocker Jr/2008)

O arquiteto de origem alemã trabalhara como assistente nas obras de restauração e conclusão das torres da catedral de Colônia, na Alemanha, e era especialista no entalhamento de pedra grês e no estilo gótico. Suas obras consistem em exemplares interessantíssimos de arquitetura influenciada pela construtividade e estética dos edifícios góticos.
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Lateral de um dos prédios antigos da Unisinos, projetado por Johann Grunewald, antes da última pintura. Foto: Jorge Luís Stocker Jr/2008

Para homenagear o passado é preciso conhecê-lo

Dando um salto no tempo, chegamos no período atual. De olho no marketing, na tentativa de angariar fundos através do turismo de massas - com forte inspiração nos erros grotescos de Gramado - as prefeituras da região começam a promover um resgate da identidade germânica.
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Tudo parece muito bem intencionado: homenagear o passado não é, afinal, necessário?
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O problema é que nos deparamos com projetos que negam o passado real, e o patrimônio cultural autêntico, em favor de uma construção de realidade, onde se tenta das piores formas possíveis dar sobrevida a características culturais que já não fazem sentido nos dias atuais (ou que jamais fizeram sentido. )
Ao invés de um resgate das origens arquitetônicas do município, valorizando os prédios históricos autênticos existentes e relacionando com a cultura alemã, vemos construções novas tentando "homenagear" um passado idealizado, com um completo desconhecimento das técnicas construtivas originais e do contexto histórico da arquitetura regional. São demonstrações de vista grossa para toda a evolução da história da arquitetura desde então.

A nova Prefeitura de São Leopoldo (RS)

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A bola da vez é o novo projeto de Prefeitura Municipal para São Leopoldo, recentemente divulgado. A obra já encontra-se em fase de licitação, e seu aspecto visual assusta pelo completo desrespeito com a técnica construtiva enxaimel. A técnica original é reduzida a ‘estilo’, e este pretenso estilo, reduz-se ainda a meras traves diagonais agregadas à fachada.


Uma das imagens das fachadas, divulgadas na internet (fonte: PM São Leopoldo).

A tentativa aparentemente foi de conferir ares germânicos ao prédio, homenageando uma realidade que não faz mais parte do dia-a-dia da cidade e nem da cultura da população. E como vimos anteriormente, nunca fez. O projeto se pretende 'tradicional', mas acaba afrontando os precedentes históricos da área central da cidade, antigamente caracterizada pelo colonial português e mais tarde pelo eclético influenciado por arquitetos e construtores alemães que atuaram na região.
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Em primeiro plano, o segundo prédio antigo da Unisinos, numa foto da década de 70. O prédio sofreu incêndio e foi inteiramente demolido ainda na década de 70, sendo este terreno o local onde se pretende construir a nova prefeitura, lado a lado com as construções históricas mais importantes da cidade. (Fonte: Album Sesquicentenário da Imigração Alemã)

É, ainda, de cair o queixo o local de implantação do dito projeto: lado a lado com o conjunto histórico mais importante da cidade. A interferência nesta área seria bastante problemática apenas considerando o já caótico trânsito da avenida, e o conflito de escalas gerado pelo novo edifício, em desarmonia com o conjunto construído. Mas o descrédito conferido a este conjunto histórico (o mais importante da cidade), com a presença de um exemplar arquitetônico fazendo piada com o enxaimel, torna-se um problema apavorante.
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Mais imagens das fachadas, divulgadas na internet (fonte: PM São Leopoldo).

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O enxaimel foi resposta à privação do acesso a materiais básicos, como pregos. Foi a forma adequada e vernacular de se conceber a estrutura de pequenas edificações, predominantemente nas áreas rurais. Cada arquitetura pertence ao seu contexto, portanto, não há sentido em 'imitar' na forma de parque temático, características próprias de uma época.

Afinal, por mais que se insista, não existe uma "ponte" que ligue a técnica construtiva enxaimel aos dias atuais, pois ela foi descartada já no início do século passado, quando com a chegada de novos materiais e técnicas e com a prosperidade da região. Foi abandonada em prol das construções de alvenaria, assim como estas dariam lugar ao concreto armado.

O meio acadêmico e profissional precisa ajudar a construir a imagem das cidades

Sabemos que a sociedade há muito está “deseducada” pelo sucesso turístico de Gramado com deste tipo de aberrações, e com as sandices do mercado imobiliário, interessado em lucrar com arquitetura barata e utilizando o fator “tradição” como forma de vender fácil aos mais desavisados. Mas, com tantos cursos de arquitetura que estão funcionando na região, e a quantidade de profissionais da arquitetura atuando na área, ONDE está o bom senso? E o conhecimento das cartas patrimoniais, e de tantos outros tratados nacionais e internacionais envolvendo intervenção em áreas históricas? É dever da classe profissional e meio acadêmico se manifestam contra este tipo de absurdo, afinal, o conhecimento técnico da área não pode continuar limitado ao seu próprio meio.
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Não podemos deixar nossas cidades adotarem estas soluções sem qualquer reflexão teórica e completamente alheios ao desenvolvimento da arquitetura contemporânea. Precisamos ser exigentes com os equipamentos públicos. São Leopoldo dará uma aula de provincianismo, se chegar a concretizar esta triste homenagem – que soa como uma verdadeira gozação com a história da cidade.
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O enxaimel teve sua importância dentro do seu ciclo histórico, e os exemplares existentes precisam ser preservados. Mas não podemos reduzir o passado a uma estética ‘temática’. Nem reduzir nosso momento atual a cópia de características antigas, sem problematização. Afinal, esse tipo de homenagem nada faz além de reduzir uma forma de construir a meros adornos de concreto ou madeira na fachada: é reduzir toda uma dimensão cultural a um mero fachadismo.
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Temos ainda a reforçar dois de nossos artigos anteriores, muito pertinentes a este caso:

- Pensar no presente como um legado para o futuro

-Continuidade histórica e arquitetura moderna em POA

E veja também um exemplo de homenagem ao passado muito bem resolvida.

Vale também a ressaltar que a idéia não é de forma alguma ofender pessoalmente qualquer um dos profissionais envolvidos na obra, que sequer conhecemos, e acreditamos que tiveram a melhor das intenções. A crítica de arquitetura é saudável e necessária para que haja uma produção realmente qualificada – o corporativismo profissional, que impede que exista um ambiente de crítica, tem se mostrado danoso para a qualidade da produção atual, tão carente de bons referenciais.

Buscamos apenas alertar contra a gravidade do crime contra o patrimônio que será cometido caso esta Prefeitura seja construída tal e qual foi apresentada. Basta entrar em contato com as fontes mais primárias, como as conhecidas Cartas Patrimoniais, para se ter uma boa ideia de que existem convenções previamente estabelecidas. Não precisamos reinventar a roda. Se a intenção é homenagear o passado, que as construções autênticas sejam preservadas e requalificadas!

A Prefeitura Art Déco de São Leopoldo, junto ao centro histórico. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr/2008)

Ainda há tempo de elaborar uma proposta adequada a nosso tempo e respeitando o entorno histórico, empregando todo o conhecimento construído existente sobre o assunto. Que sirva de exemplo o prédio art-deco da Prefeitura Municipal atual, bastante adequado pra época em que foi concebido.

Leia também:

- Notícia sobre a polêmica no site da Defender

-Artigos 1 e 2 do arquiteto Rafael Spindler