quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

São Leopoldo (RS) está sumindo - "a todo vapor"!

Imitações históricas fantasiosas. Enjambrações e desfiguração de prédios históricos. Muitos destes erros com os quais nos deparamos em nossas cidades diariamente poderiam ser justificados pela “ingenuidade”. Até mesmo algumas demolições.

Esta “ingenuidade” de que tratamos nada mais é do que a falta de conhecimento. Na maioria das vezes, a falta de acesso ao conhecimento. E ingenuidade se perdoa.

Talvez com ingenuidade, a Prefeitura Municipal de São Leopoldo lançou em 2009 um projeto de Centro Administrativo para a cidade. Localizado no coração histórico da cidade, o prédio seria um nefasto vizinho do patrimônio cultural circundante: Um bloco em altura, que tanto mimetizava o prédio Art Déco da antiga Prefeitura quanto acrescentava traves enxaimel a fachada.



Imagem da fachada, divulgada na internet em 2010. (fonte: PM São Leopoldo).


Em suma, uma completa vergonha. Um projeto digno de figurar em programa humorístico, ou em alguma sátira arquitetônica de faculdade. Era difícil, à época, acreditar na veracidade da notícia. Mas ela estava lá, apresentando uma Prefeitura “vexaimel” que viria para resgatar a cultura alemã na cidade e “criar” um novo ponto turístico.

Os erros desta proposta foram aqui discutidos na ocasião,
no artigo que pode ser acessado clicando aqui.

Mas o Die Zeit não discutiu sozinho. Fomos apenas uma pecinha entre muitos: Diretórios Acadêmicos de Arquitetura e Urbanismo das universidades Unisinos e Feevale; profissionais autônomos da região, Defender, IAB e o ICOMOS. Lotamos a Câmara de Vereadores.

Fomos educados e sucintos, apontando os erros da proposta, que aliás, eram muitos. O enxaimel era apenas a cereja no topo do bolo. As traves enxaimel estavam lá apenas para evidenciar a todos: “opa, alguma coisa está MUITO errada aí!”. Muitas vezes este tipo de “cereja” já fez falta, aliás. Quem sabe outras obras teriam chamado a atenção e pudéssemos ter evitado muitas atrocidades maiores.

Mas de qualquer forma, remover a cereja não muda o sabor e o formato do bolo. Tampouco girá-lo no prato. Essa analogia pobre explica a estratégia da Prefeitura Municipal para readequar o projeto, uma espécie de “cala a boca” aos que reclamavam:





Mudou a cara, mudou a posição no terreno – a essência é a mesma!



Analisando bem a edificação, vemos uma ilustração clara da decadência das obras públicas. Com dinheiro público e com a oportunidade de ouro de construir um programa especial (Prefeitura) em um território rico em informações para serem exploradas, vemos que a Prefeitura Municipal desiste do fiasco vexaimel para investir numa espécie de “torre residencial”.

A arquitetura é mais do que apenas sua funcionalidade e sua materialidade: ela também é o que parece e o que representa. Quando tratamos de um Paço Municipal, esse significado redobra.

A torre agora é "contemporânea" (sic), o projeto é o mesmo. Ele representa para a cidade o mesmo que tantas outras torres residenciais representam. Um nada. Um edifício sem o caráter que uma Prefeitura deveria ter.

Mas, se por um lado ter essa forma “residencial” poderia fazer o prédio se esconder entre o mar de mediocridade, tornando-se apenas discreto, por outro, implantá-la num local onde ainda predomina a escala colonial e praticamente ao lado de edificações históricas cruciais para o centro histórico da cidade, é completamente insano. Prejudica imensamente o perfil da rua, a ambiência histórica e a visual de entrada do município.

Como compatibilizar esta escala com o edifício proposto?


Parafraseando o jornalista cultural André Azevedo da Fonseca, é “como se um engraçadinho suprimisse um parágrafo da história da cidade e inserisse, por conta própria, palavrões e vulgaridades”. O efeito é o mesmo. Mas ao contrário do caso a que se referia Fonseca, aqui não estamos lidando com uma mera desfiguração de prédio histórico, mas de uma intervenção crítica no coração da cidade.

Os problemas são, enfim, nítidos e visíveis, mas agora não é ingenuidade. Está claro: com tantos órgãos importantes e profissionais gabaritados alertando sobre os problemas que esta obra da forma como é proposta irá acarretar, a Prefeitura Municipal de São Leopoldo segue a construção “a todo vapor”.


"Em São Leopoldo, a obra não pode parar". Publicado no Informe Especial do jornal Zero Hora em 12/01.


E aliás, faz questão de usar os veículos de comunicação da região para demonstrar seu poder. O prédio sai, não importa se faça chuva, sol ou vento; e daí se o Ministério Público nos processa. Não vamos parar pra pensar, agora é agir.




"Nova Prefeitura com Obra Adiantada", em reportagem típica de assessoria de imprensa publicada no Jornal VS.


Definitivamente isso não é ingenuidade. Hipocrisia? Só sei dizer que o Poder Público Municipal de São Leopoldo é privilegiado. Cada erro que comete ou pensa em cometer, lá está a sociedade, atenta, ativa, engajada. Lotando a Câmara! Que o digam as últimas duas audiências públicas, onde destaca-se a causa ambiental do Bosque de São Francisco de Assis – causa esta, que a Prefeitura parece tentar “transferir” para abafar o caso. Fico imaginando que salto de qualidade a região daria, se a sociedade reagisse sempre assim.

Mas com tanta participação, tanto engajamento, a contrapartida que a Prefeitura concede é pífia. Responde com o silêncio e a ausência nas audiências. Toma atitudes como *esta sem consultar a sociedade.

Temos uma série de ganhos particulares com consequentes prejuízos coletivos. A balança pende pra um lado. E o lado vitorioso, não está interessado com a qualidade de vida, com o entendimento e apreciação da cidade como um todo. Não está interessado na proteção das fragilizadas migalhas de ecossistemas e de patrimônio cultural. Não está interessada, enfim, em nada que torna São Leopoldo a cidade de São Leopoldo.

E fica apenas a tristeza e a revolta, ao nos depararmos com as reportagens que nos deixam claro que obra não para. Afinal, sabemos que certamente este erro não é obra da ingenuidade.
Corram, pois o que conhecemos por São Leopoldo está sumindo. E no que depender da Prefeitura e do 'cronograma da obra', será " a todo vapor".

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

As vaquinhas ensinam arquitetura - Cow Parade Porto Alegre 2010

O Cow Parade de Porto Alegre tem despertado atenções. É impossível visitar uma das cerca de 80 vaquinhas espalhadas pela cidade e não se deparar com vários visitantes, com máquinas digitais em punho, registrando as obras de arte. Essa "movimentação" pelo meio urbano é elogiável, por reconciliar o cotidiano da cidade com os espaços que ela ocupa. A inserção das "vacas" como pontos de referência temporários suscita o reconhecimento dos pontos de interesse (permanentes) situados nas cercanias.


(Vacaduto da Borges - Foto: Elis Regina Berndt/Nov 2010)

Visitar as vaquinhas é um passatempo divertido, e resgata o "passear pela cidade", hoje tão incomum na cidade pelos mais variados motivos. E acredite, também pode ser divertido dedicar alguns cliques e olhares aos prédios evidenciados pelo posicionamento de algumas vaquinhas - lugares que dizem muito sobre a identidade de Porto Alegre.
Para dar um gostinho, vamos sugerir algumas visitas... Mas com olhar atento, é possível ver muito mais coisas interessantes entre uma vaquinha e outra!

"27 - Cowversa comigo?" - Estação Mercado

A vaquinha Cowversa comigo está sob o arco da Estação Mercado. O entorno é um dos mais interessantes de Porto Alegre, a começar pelo próprio Mercado que dá nome a estação. Trata-se de um dos prédios mais antigos ainda existentes na cidade, inicialmente com apenas um pavimento e torreões laterais, acrescido no início do séc. XX de mais um andar, recebendo a linguagem mais eclética que hoje o caracteriza.


Aspecto do Mercado Público de Porto Alegre. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr/2010)


O mercado público é até hoje, palco do cotidiano da cidade, existindo uma vida própria muito característica. A reforma dos anos 90 deixou o ambiente bastante asséptico em relação ao que se espera deste tipo de espaço, mas em contrapartida preparou o Mercado para continuar participando do cotidiano da cidade no século XXI.


Ao fundo, o Palácio do Comércio, projetado por Joseph Lutzenberger. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)


Também vale a pena reparar no Palácio do Comércio, situado ao lado da Estação. Inaugurado em 1940, o prédio reflete a tendência geometrizante, inspirada no Art Déco, que influenciou boa parte da produção arquitetônica da cidade na época, além de exemplificar a resistência aos modelos modernos de matriz corbuseana. Ironicamente, foi projetadopor um arquiteto alemão (Joseph Lutzenberger), durante o governo de Getúlio Vargas, que tanto faria pela nacionalização forçada e pela repressão à cultura alemã, respingando estas consequências na atuação de alemães em profissões como engenharia e arquitetura.


O entorno do mercado é riquíssimo em prédios de diferentes momentos da cidade. (foto: Jorge Luís Stocker Jr.)

"76 - Vacaduto da Borges" - Borges de Medeiros

A obra Vacaduto da Borges, situada no início da Borges de Medeiros, deixa em evidência um quarteirão de primeira importância para a arquitetura moderna na cidade. Como principal prédio do conjunto, desponta o monumental Sulacap, com sua inconfundível cobertura piramidal. O prédio, projetado pelo arquiteto Arnaldo Gladosch, foi inaugurado em 1943 e já então encontrava oposição ferrenha no meio acadêmico e profissional da cidade, que começava a interessar-se pelo modernismo corbuseano. Apesar de retrógrado pelo fato de utilizar mais cheios do que vazios e dos elementos decorativos, o prédio exemplificava a revolução urbana moderna que se pretendia na área, através de plano diretor elaborado pelo mesmo Gladosch. O "quarteirão Masson", como era então chamado, apresentava aspecto monumental, com a marcação da esquina através da torre. Tudo em substituição ao casario colonial e ao traçado de quadras pré-existentes no local, com complicada divisão de terras que atravancava a verticalização da cidade.


Edifício Sulacap, projetado por Arnaldo Gladosch. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)


Gladosch conseguiu deixar sua marca neste entorno não apenas através do Sulacap e do Sul América, prédios de sua autoria, mas também na própria avenida, mais precisamente no Quarteirão Masson que até hoje representa a síntese soluções urbanas por ele defendidas, como o abrigo coberto para pedestres, as relações de escala e alturas e a própria modernidade expressa através do "futurismo" e da monumentalidade. É impossível visualizar o impactante "cânion" de prédios da Borges de Medeiros, com o coroamento minucioso do Sulacap, e não remeter-se a cenas como as do filme alemão Metrópolis, de Fritz Lang.
Os prédios do entorno representam diferentes momentos da absorção do ideario "moderno" na cidade de Porto Alegre.


Conjunto "Continente", construído em diferentes momentos (Ed. Planalto, Ed. Missões e Ed. Fronteira), visivelmente inspirado no Palácio Capanema, de Niemeyer, Lucio Costa e cia, denotando a influência do modernismo carioca na cidade. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)


"72 - O Pensamento" - Casa de Cultura Mario Quintana


O Pensamento (Foto: Elis Regina Berndt/2010)


O antigo Hotel Majestic, que hoje abriga a Casa de Cultura Mario Quintana, é de longe um dos locais mais bacanas da cidade para se visitar, não importa o motivo: cinema, teatro, exposições artísticas culturais, café, ou mesmo apenas um chimarrão no jardim. Ou mesmo visitar a vaquinha "O Pensamento" da Cow Parade.


A Travessa dos Cataventos, que divide os dois blocos do antigo Hotel Majestic. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)

O projeto original, de Theo Wiederspahn, previa duas edificações idênticas, simétricas, unidas pelas duas cúpulas e pelas passarelas. A travessa interna, bastante ousada até para os dias atuais, acabou configurando-se em um dos espaços urbanos mais interessantes da capital gaúcha. É um espaço especial que a cidade soube apropriar-se.


Detalhe do Antigo Hotel Majestic, de Theo Wiederspahn (Foto: Jorge Luís Stocker Jr/2010)

O volume situado do lado leste, inaugurado em 1918, teve grande parte de suas características originais preservadas. O outro volume recebeu uma importante intervenção interna nos anos 90, quando foi convertido para Centro Cultural, com interessante uso de concreto armado nu.


A vista do "Jardim Joseph Lutzenberger" da CCMQ privilegia a vista da igreja das Dores, cuja fachada também é autoria de Theo Wiederspahn. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)

"80 - Bochincho no Galpão da CowParade" - Santander Cultural


Antiga sede do Banco Nacional do Comércio, hoje Santander Cultural. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)

Em frente ao Santander Cultural, na Praça da Alfândega, está situada a vaquinha denominada "Bochincho no Galpão da CowParade". O local é único, pelo "confronto" de dois modelos de edificação bancária: o antigo Banco Nacional do Comércio, hoje convertido em Santander Cultural, de feições fortemente clássicas, e o prédio modernista do antigo SulBanco, hoje Banco Santander.


Bochincho no Galpão da CowParade - Foto: Elis Regina Berndt/2010

O primeiro, teve projeto encomendado ao arquiteto Theo Wiederspahn, na época com um programa mais extenso. Problemas fariam com que Widerspahn falisse e se afastasse da obra, e seus estudos foram posteriormente adaptados por outros profissionais. Foi inaugurado em 1931. A riqueza dos conjuntos escultóricos, alguns dos quais executados pelo artista Fernando Corona, é um dos destaques da edificação, bem como a monumentalidade conferida pelos grandes pilares de ordem coríntia.


Inserção da antiga sede do Sulbanco a partir da rua General Câmara ("da ladeira"). (foto: Jorge Luís Stocker Jr/2010)

O segundo edifício, antiga sede do Sulbanco, inaugurado em 1943, passa despercebido aos que pouco conhecem sobre a arquitetura moderna. No entanto, é um dos principais exemplares da cidade. A adoção dos princípios modernistas, como o emprego do Brise-Soleil como elemento de proteção na fachada oeste (solução técnica mas de grande impacto visual) que permitiu grandes aberturas. O prédio marca o novo "programa" exigido pelas agências bancárias, um grande bloco verticalizado de escritório. A robustez exigida na época para sedes bancárias, porém, continua presente no pavimento térreo, revestido de granito preto. Vale ainda ressaltar a interessante articulação de materiais proposta pelo arquiteto Guido Trein - o metal do brise-soleil em contraste com os tijolos cerâmicos e a base de granito.

A interessante articulação de materiais do antigo Sulbanco. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)

Texto: Jorge Luís Stocker Jr.

Leia também:

-"Arnaldo Gladosch - O Edifício e a Metrópole" (livro) - Anna Paula Cannez

- Arquitetura Moderna em Porto Alegre (livro) - Alberto Xavier / Ivan Mizoguchi

- Cow Parade Porto Alegre 2010

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Por que tem valor? Discutindo os critérios para a seleção de bens históricos - Parte I

Em qualquer tipo de estudo ou trabalho relacionado ao patrimônio construído, costuma ser nítida a ausência de critérios rígidos utilizados para afirmar, de modo definitivo, que um bem histórico é portador ou não de valores que determinem a necessidade de sua preservação. Deixando de lado qualquer tipo de dogmatismo, e munindo-se de conhecimentos, sensibilidade e principalmente bom senso, pode ser possível chegar a um resultado que seja o mais satisfatório possível.

Casa de caráter historicista, bastante tardia (1949), localizada entre Jammerthal e Joaneta, em Picada Café (RS): seu valor histórico poderia eventualmente ser contestado pela aplicação tardia destas formas históricas então já ultrapassadas. Mas esta adoção tardia de formas e da volumetria típica dos anos 10-30 nas cidades mais desenvolvidas de imigração alemã, pode ser bastante significativa historicamente: uma casa de caráter tão germânico, em plena campanha de nacionalização, e tão tradicional, em tempos de modernização, só seria possível em lugares muito isolados geograficamente. (Foto: Elis Regina Berndt/ Março 2010)

O patrimônio histórico construído tem uma inegável importância para as cidades, assunto que já discutimos em diversos artigos do Die Zeit. No entanto, como definir o que, de fato, é patrimônio? É nítido que não devemos nos restringir apenas aos bens históricos já tombados ou indicados para preservação. Afinal, o tombamento não determina o valor de um bem, apenas o declara oficialmente. Mas então, quais edificações são, de fato, portadoras de valores que a tornem merecedoras de proteção?

Casa neo-colonial, uma das últimas das tantas que caracterizaram o centro de Torres (RS): terá algum significado pra cidade? O sufocamento da casa pelas edificações lindeiras antecipa seu destino. (foto: Jorge Luís Stocker Jr/ Janeiro 2010)


Primeiramente, a única certeza que podemos ter é que não existe nenhuma resolução definitiva sobre o assunto. Na busca por embasamento, nos depararemos com a legislação, que no geral chega a ser bastante completa a respeito do tema, mas reticente e vaga quando aplicada em situações práticas; com as convenções e cartas patrimoniais, normalmente contraditórias quando aplicadas sem a análise dos seus contextos históricos, e ainda com a produção intelectual existente - que apesar de importantíssima e ótimo ponto de partida, é arriscada quando adotada sem a problematização necessária. Qualquer uma dessas fontes, adotada sem senso crítico e profunda reflexão, pode encorajar atitudes precipitadas. Num assunto onde tudo é tão subjetivo, é praticamente impossível adotar uma postura única e rígida que não analise cada caso como um caso único.
Com este artigo, pretendemos deixar nossa modesta contribuição para o tema, levantando questões, opiniões e exemplos para discutir formas e critérios que ao nosso ver deveriam nortear a seleção e preservação de bens históricos representativos do nosso patrimônio cultural.

O valor cultural

Mais conhecido de todos, e de maior aceitação, o valor cultural de um bem diz respeito a seu histórico e importância afetiva. Tem valor cultural os exemplares que ilustrem ("contem") uma história importante para a cidade, que tenham abrigado personalidades ou sejam características de algum grupo social, que representem uma cultura diferenciada (como a imigratória), e/ou que tenham importância social, como referencial afetivo. Também em alguns casos, pode ser considerado um exemplar que, ainda que hoje isolado, represente determinado período histórico de uma rua ou bairro.

É talvez o critério mais amplo, considerando-se que a "importância" de cada evento ou período histórico é muito relativa.


Casa eclética com a volumetria típica das regiões de imigração alemã, situada em Sander - bairro de Três Coroas (RS). Por muitos anos o estilo eclético foi considerado sem qualquer valor cultural e mera cópia de um estilo europeu. Em alguns casos ainda se mantém este preconceito, o que se torna um absurdo quando, como neste exemplo, é possível relacionar peculiaridades regionais tanto na volumetria quanto na espacialidade dos prédios. Sem pesquisa, é impossível determinar o valor de um bem! (foto: Jorge Luís Stocker Jr./ Agosto 2010)

Não podemos esquecer que, para conhecer o valor cultural de um prédio, é preciso bem mais do que uma simples visita de levantamento fotográfico e confecção imediata de laudo assinado por profissional legalmente habilitado (e algumas vezes, teoricamente bitolado): a pesquisa oral, documental e bibiliográfica é imprescindível para que se consiga obter dados que ajudem a contextualizar a edificação, sua origem e histórico. É impossível adivinhar o valor cultural de uma edificação através de uma fotografia ou ficha de inventário incompleta e portanto, é completamente hipócrita negar seu valor histórico sem que se tenha procedido uma pesquisa completa e competente. Decisões importantes como esta não podem ser tomadas precipitadamente, na pressa e de portas fechadas, por uma pessoa ou comissão responsável que não tenha respaldo representativo da sociedade e entidades interessadas no assunto.


As poucas edificações modernistas realmente significativas do ponto de vista arquitetônico, como a sede da Previdência Social em Sapiranga (RS), certamente tem um valor morfológico muito acentuado, embora ainda encontrem intensa contrariedade. No entanto, principalmente nas capitais, aos poucos vão encontrando sua valorização através da ampliação das pesquisas de mestrado e doutorado na área e do próprio distanciamento temporal que vai crescendo. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr/ Julho 2010)

O estado de conservação do bem em questão também costuma ser a justificativa para demolições. Oferecer risco aos transeuntes é realmente crítico, mas as providências tomadas devem vir em encontro à valorização e preservação do valor cultural do bem, e não sua erradicação através de demolição. Desta forma, ao invés da resolução de um problema, gera-se outro: um vácuo histórico e cultural irreversível para as nossas cidades já sequeladas e desmemoriadas. O mau estado de conservação pode prejudicar e colocar em risco o valor cultural, mas de modo algum o elimina. Não podemos esquecer ainda que, o próprio estado de ruínas de um edifício pode ser muito representativo e seu restauro ou consolidação enquanto ruína pode ser uma forma de educação patrimonial.



O prédio do antigo Evangeliches Stift e posteriormente Lar da Menina, em Novo Hamburgo, encontra-se em ruínas desde um incêndio nos anos 90, e se desintegrou lentamente ao longo dos anos. Felizmente foi tombado a nível municipal, como reconhecimento ao seu inestimável valor cultural - mesmo no atual estado de ruínas. Nos parece importante que não se reconstrua ou recomponha a fachada exatamente tal como se apresentava antes do incidente, como forma de educação patrimonial: seria demonstrar erroneamente que o patrimônio pode ser facilmente reconstruído, comprovando que erros como descaso e demolições são reversíveis posteriormente. As soluções para seu restauro deveriam, preferencialmente, recompor os volumes mas manter uma forma de valorizar esse arruinamento que faz parte da história da edificação. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./Agosto de 2010 e Acervo Pref. NH)

Necessário dizer, no contexto atual onde vemos é uma completa desfiguração da cidade tradicional, com a existência de apenas poucas migalhas históricas espalhadas pelas cidades, somos da opinião de que TODO e QUALQUER bem de interesse cultural que tenha chegado aos dias atuais em relativa integridade DEVE ser mantido. Ou, no mínimo, deve-se analisar muito profundamente a real necessidade de sua demolição. A quem ela beneficia? Que prejuízos ela traz? Frisando que a situação atual já é crítica, e que qualquer argumento que inclua a possibilidade de "congelamento da cidade" é fajuto (pois os prédios históricos são minoria inconteste) acreditamos ser praticamente impossível que a melhor opção seja a demolição em casos de bens realmente portadores de valor cultural.

O valor morfológico da arquitetura

A qualidade do projeto arquitetônico é, talvez, o conceito mais aceito e aplicado por arquitetos, e também no geral encontra bom respaldo popular. Quando se avalia o valor arquitetônico de uma edificação, se pesa a sua representatividade enquanto exemplar de determinado período estilístico, ou seja, sua filiação (ou reação) a determinada escola. Além de considerar-se a qualidade estética das fachadas, também deve ser avaliada a qualidade e/ou peculiaridade da distribuição espacial.


A Casa Soine, de 1914, situada em Dois Irmãos (RS) é um exemplar de inegável valor morfológico: apesar da relativa simplicidade, nota-se uma aplicação criteriosa e erudita de formas históricas. Tem também seu inestimável valor cultural, enquanto representante da arquitetura residencial em zonas de imigração teuta naquela década (Foto: Elis Regina Berndt/Dezembro 2009)

A planta-baixa das casas antigas, quando ainda reconhecíveis, podem ser uma fonte documental importantíssima para o entendimento das transformações econômicas e sociais. O espaço interno deve ser mantido sempre que possível, obviamente com a devida compatibilização com os novos usos. No entanto, como dificilmente é possível no caso de bens particulares e trocas constantes de usos, o mínimo a se fazer é documentar cada alteração introduzida. Tal precaução é de fácil execução e não se trata de nenhum exagero: é o mínimo a se exigir, em se tratando de prédios que chegaram até hoje em relativa integridade e que são, muitas vezes, os últimos representantes de determinados períodos.


O belo casarão Friedrich, exemplarmente bem conservado pela família, em Novo Hamburgo (RS). Hoje abriga um museu particular e mantém seu uso residencial, usos sustentáveis e que possibilitam a manutenção de sua integridade. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr./Setembro 2010)

É preciso ter em mente que, quando trabalhamos com um prédio histórico, temos em mãos um documento valioso que é portador de informações. De fato um documento "vivo", no qual as alterações e modernizações podem e devem somar ainda mais valores. Justamente por isso devem ser feitas com cuidado, conhecimento e com a devido registro das intervenções e motivações, que deve ser exigido pelas comissões responsáveis . Afinal, profissionais entram e saem dos seus cargos e a informação não documentada poderá se perder definitivamente.


A Casa Kaiser é um dos mais valiosos bens históricos do município de Novo Hamburgo (RS). Situada em Hamburgo Velho, data aproximadamente de 1850, e não tem hoje qualquer proteção legal. Trata-se da única construção enxaimel que ainda apresenta-se na sua quase originalidade, mantendo tanto sua estrutura quanto seus interiores com pouquíssimas intervenções, devido a manutenção do uso residencial pela família até alguns anos atrás. Hoje encontra-se desocupada. Seria lamentável neste caso específico uma reciclagem de uso que desfigurasse seu interior, por se tratar da única edificação enxaimel da cidade e uma das únicas da região a manter-se praticamente original. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr. / Agosto 2010)

Os critérios cultural e morfológico, bem como os demais (técnico, paisagístico, funcional, reconhecimento teórico e popular, etc) se entrelaçam e se complementam, de forma que não se pode julgar a partir de apenas um ponto de vista. Nos próximos artigos, buscaremos discutir um pouco sobre os demais critérios. Deixe sua contribuição nos comentários!

Texto: Jorge Luís Stocker Jr.