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sábado, 20 de abril de 2013

A propósito da demolição da SAT – Vida e morte do patrimônio modernista no litoral norte gaúcho


Crédito da imagem: Cesar Girardi


No início da semana a sociedade gaúcha foi pega de surpresa com uma trágica notícia: a demolição de parte da sede social da SAT – Sociedade Amigos de Tramandaí, clube social e esportivo litorâneo muito conhecido por turistas, veranistas e moradores da cidade.
  A foto das obras chocou centenas de pessoas que guardavam com carinho memórias vinculadas ao espaço - em especial os bailes de carnaval. Chocante também a perda daquele referencial paisagístico querido, presente, marcando com obras de arte uma esquina no caminho de quem desce do centro para a praia ou vice-e-versa.
A propósito do despropósito da demolição da SAT, e da desvalorização do patrimônio do movimento moderno da arquitetura no litoral norte, tentamos ser breves mas não conseguimos. Tentamos ser técnicos, mas o lado afetivo impôs-se. Deixemos que ele fale mais alto.

A Vida - Litoral Norte e Patrimônio Moderno

O litoral norte gaúcho passou a ter no início do século XX grande importância para a sociedade. Nesta época estava em gestação um dos fundamentos da cultura sul rio-grandense, os “veraneios”, que dali pra frente cada vez mais mobilizariam a população.
A cultura dos “veraneios”, de lazer e terapêuticos, conheceu as versões campestre e litorânea, mas foi a segunda que de fato consolidou-se. O litoral norte, pela proximidade com a região metropolitana de Porto Alegre, mostrou-se o espaço mais propício para o estabelecimento desta cultura.
As viagens até o litoral, que inicialmente assemelhavam-se a odisséias, aos poucos foram tornando-se mais práticas com o advento dos automóveis e das estradas de rodagem melhor conservadas. Com isso o litoral norte consolidou-se como “segunda casa” para milhares de gaúchos. Grandes extensões de cômoros de areia foram dando lugar a dezenas de balneários, os chalés de madeira enfileiravam-se lado a lado, o traçado de cidade-jardim complementava o clima festivo e descompromissado de “colônia de férias”.
Tramandaí já era um pequeno povoado de origem luso-açoriana nos primórdios, sem fins de lazer e balneabilidade, e por esse motivo desenvolve-se em relação ao rio. Com a chegada dos veranistas, o núcleo urbano inicial se consolida, e logo o até hoje lembrado “bondinho” passaria a fazer a ligação entre o núcleo urbano e a praia, distante alguns quilômetros.
O rápido desenvolvimento do litoral torna-se uma realidade, e a população cada vez mais aficcionada pelos veraneios. O clima agradável e a tranqüilidade eram uma perfeita válvula de escape das cidades em pleno crescimento da região metropolitana.

Crédito da imagem: André Huyer.

As cidades litorâneas também consolidam-se como espaços de sociabilidade, onde velhos amigos se encontram, onde moradores de cidades distantes podem conviver como vizinhos durante alguns meses, e onde as famílias dispersas por várias casas e cidades conseguiam afirmar-se como famílias, reunidas sob um só teto, convivendo unidas pelo menos por alguns momentos no ano.
As amizades, somadas a presença de elementos teuto-brasileiros bastante afeitos ao espírito associativo foram viabilizando o surgimento das famosas “sociedades de amigos”, específicas de cada balneário. As Sociedades passavam a ser o principal palco da sociabilidade do litoral, e com a união e objetivos em comum, diversas delas conheceram a prosperidade, crescendo em importância e em número de associados.
A infra-estrutura de lazer conquistada em conjunto acompanhava todo um esforço de cooperação para a promoção de eventos (em especial os carnavais). Não a toa a construção das sedes sociais envolvia sócios e não sócios, com amplas campanhas de arrecadação de fundos.
É possível dizer que a arquitetura moderna encontrou no litoral norte gaúcho um dos principais palcos para manifestar-se. Era mais complicado implantar-se uma nova arquitetura nas cidades já saturadas de edificações de todos os tipos, com um mercado de construção civil cada vez mais restrito a edificações sem tanto cuidado arquitetônico e com uma vinculação afetiva cada vez menor das pessoas com as cidades.
Já no litoral era diferente: loteamentos em plena implantação propiciaram a aplicação de teorias urbanísticas novas, como a Cidade-Jardim pragmática adaptada pelo Eng. Ubatuba de Faria em Imbé e Atlântida. A demanda de construção de residências unifamiliares, tema querido de todas as teorias arquitetônicas, era significativa, em contraponto a demanda de apartamentos padronizados na cidade grande.
Uma expressão única de arquitetura começou a operar-se no litoral norte gaúcho: um modernismo nosso, adaptado pelos nossos arquitetos ao programa, situações, clima e gosto do cliente. Tivemos até mesmo chalés de traço modernista, inspirados em volumetrias de Niemeyer e com direito a cobogós, brise-soleil e muxarabis. O modernismo consolidou-se como em nenhum outro local do Estado como expressão máxima da arquitetura de um período.
Em Tramandaí, a sede social da SAT aparece como uma obra-prima que marca o auge de todo este ciclo, nos anos 60 e 70. O que houve de experimentação moderna na sede social da SAPI, da vizinha Imbé, foi perfeitamente desenvolvido na sede social do clube Tramandaiense.

Sede da SAPI, na vizinha Imbé. Fotos: Jorge Luís Stocker Jr.

Aparentemente construído em etapas, a arquitetura modernista do prédio da SAT remete a escola carioca, com suas generosas curvas, planos inclinados, volumetria arrojada. O prédio prima pelo formalismo em cada detalhe, apresentando obras de arte agregadas aos planos de fachada. As fenestrações em planos ou pautando a forma complementam a obra arquitetônica.
É importante ressaltar, ainda, o quanto o projeto da sede social da SAT, em sua totalidade, dialoga com o “espírito” do lugar: prima pela horizontalidade, tão característica do litoral norte gaúcho. Com nossa extensão de praia aberta, enxergamos a linha do horizonte integralmente. Sem acidentes naturais, assentado numa enorme planície arenosa, o litoral norte teve sua vocação para o horizontal traduzida e codificada em sua arquitetura moderna.


Crédito da imagem: André Huyer.

A morte – demolição do prédio da SAT

A infeliz notícia da demolição da esquina da sede social da SAT difundiu-se pelas redes sociais de forma viral. Foram dezenas de compartilhamentos, e centenas de lamentos. Acreditamos que ninguém imaginaria a quantidade de pessoas que tinham vínculos afetivos com aquele espaço.
Na defesa do patrimônio cultural gaúcho, nos deparamos frequentemente (e quase diariamente) com perdas irreperáveis de bens históricos. Mas podemos afirmar que jamais vimos um caso com tanta repercussão.
A demolição do prédio da SAT agride. Mexe com memórias. E não são quaisquer memórias: são memórias queridas, memórias de veraneio. Os melhores momentos da vida. Uma instituição gaúcha.
Aquele ponto marcante na Avenida da Igreja não existe mais. O monumento da garça, único contraponto vertical a horizontalidade do prédio, permanece como triste retrato do que sobrou. Espera para breve ser acompanhada de uma torre de apartamentos.


Crédito da imagem: Marione Otto.


A justificativa é a de sempre: dificuldades financeiras. Ontem a SAT fazia campanhas de arrecadação para ajudar causas diversas. Hoje, parece incapaz de fazer uma campanha para resgatar a si própria. Em momento de crise,  poderia-se reforçar a identidade da SAT, resgatar o espírito associativo, a vinculação afetiva com o espaço. Mas certamente o caminho mais fácil não apresentava tantos obstáculos a superar. Caminho este que aparece como o primeiro passo pra liquidá-la: aquele palco de tantas memórias torna-se repentinamente uma área condominial.

São só 25% por cento do prédio demolidos. Nos números tão pouco, mas na paisagem e na memória, uma soma significativa. O que seria de um livro, cortados 25%? Como entender um filme do qual se corta a melhor parte? O que é da nossa história enquanto sociedade, quando apagamos um trecho importante para no lugar inserir palavrões vulgares?


Crédito da imagem: Marione Otto.

Sem esquecer da soma de “tantos por cento” do novo prédio, que pretende-se construir na esquina, descontextualizando o antigo em sua harmonia de obra de arte. Agredindo a paisagem de Tramandaí em um dos seus únicos pontos de referência coletiva.
O apoio de veranistas, moradores e até associados da SAT ao embargo da demolição, conquistado pela pronta atuação do Ministério Público após denúncia da oscip Defender e de outros cidadãos, é indicativo de que algo está errado - e de que algo poderia, pôde e poderá ser feito pra reverter este tipo de situação.

A morte do patrimônio moderno no litoral norte gaúcho é uma realidade diária, triste e agressiva. Não é inevitável. Acontece porque queremos, ou porque deixamos. Instrumentos de proteção consagrados existem: apenas estamos evitando. Enquanto isso alguém está tripudiando sobre nossas memórias, sobre nossa identidade.

Não tão privilegiado pela natureza, nosso litoral norte tem por vocação a sociabilidade. É ela que estamos atacando. Estamos esquecendo a vinculação afetiva e social, que é base pra cultura do veraneio, e que ao desprezá-la estamos condenando nossas cidades litorâneas. Que a perda do prédio da SAT sirva de lição para que a sociedade busque reconhece-se em sua própria dimensão cultural. Só assim poderá evoluir. Do contrário, seguiremos nos vendendo facilmente (e com contrapartida irrisória) a qualquer ideal de “progresso” fajuto, vazio e que nada representa em termos de desenvolvimento humano e social.


Jorge Luís Stocker Jr.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

As vaquinhas ensinam arquitetura - Cow Parade Porto Alegre 2010

O Cow Parade de Porto Alegre tem despertado atenções. É impossível visitar uma das cerca de 80 vaquinhas espalhadas pela cidade e não se deparar com vários visitantes, com máquinas digitais em punho, registrando as obras de arte. Essa "movimentação" pelo meio urbano é elogiável, por reconciliar o cotidiano da cidade com os espaços que ela ocupa. A inserção das "vacas" como pontos de referência temporários suscita o reconhecimento dos pontos de interesse (permanentes) situados nas cercanias.


(Vacaduto da Borges - Foto: Elis Regina Berndt/Nov 2010)

Visitar as vaquinhas é um passatempo divertido, e resgata o "passear pela cidade", hoje tão incomum na cidade pelos mais variados motivos. E acredite, também pode ser divertido dedicar alguns cliques e olhares aos prédios evidenciados pelo posicionamento de algumas vaquinhas - lugares que dizem muito sobre a identidade de Porto Alegre.
Para dar um gostinho, vamos sugerir algumas visitas... Mas com olhar atento, é possível ver muito mais coisas interessantes entre uma vaquinha e outra!

"27 - Cowversa comigo?" - Estação Mercado

A vaquinha Cowversa comigo está sob o arco da Estação Mercado. O entorno é um dos mais interessantes de Porto Alegre, a começar pelo próprio Mercado que dá nome a estação. Trata-se de um dos prédios mais antigos ainda existentes na cidade, inicialmente com apenas um pavimento e torreões laterais, acrescido no início do séc. XX de mais um andar, recebendo a linguagem mais eclética que hoje o caracteriza.


Aspecto do Mercado Público de Porto Alegre. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr/2010)


O mercado público é até hoje, palco do cotidiano da cidade, existindo uma vida própria muito característica. A reforma dos anos 90 deixou o ambiente bastante asséptico em relação ao que se espera deste tipo de espaço, mas em contrapartida preparou o Mercado para continuar participando do cotidiano da cidade no século XXI.


Ao fundo, o Palácio do Comércio, projetado por Joseph Lutzenberger. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)


Também vale a pena reparar no Palácio do Comércio, situado ao lado da Estação. Inaugurado em 1940, o prédio reflete a tendência geometrizante, inspirada no Art Déco, que influenciou boa parte da produção arquitetônica da cidade na época, além de exemplificar a resistência aos modelos modernos de matriz corbuseana. Ironicamente, foi projetadopor um arquiteto alemão (Joseph Lutzenberger), durante o governo de Getúlio Vargas, que tanto faria pela nacionalização forçada e pela repressão à cultura alemã, respingando estas consequências na atuação de alemães em profissões como engenharia e arquitetura.


O entorno do mercado é riquíssimo em prédios de diferentes momentos da cidade. (foto: Jorge Luís Stocker Jr.)

"76 - Vacaduto da Borges" - Borges de Medeiros

A obra Vacaduto da Borges, situada no início da Borges de Medeiros, deixa em evidência um quarteirão de primeira importância para a arquitetura moderna na cidade. Como principal prédio do conjunto, desponta o monumental Sulacap, com sua inconfundível cobertura piramidal. O prédio, projetado pelo arquiteto Arnaldo Gladosch, foi inaugurado em 1943 e já então encontrava oposição ferrenha no meio acadêmico e profissional da cidade, que começava a interessar-se pelo modernismo corbuseano. Apesar de retrógrado pelo fato de utilizar mais cheios do que vazios e dos elementos decorativos, o prédio exemplificava a revolução urbana moderna que se pretendia na área, através de plano diretor elaborado pelo mesmo Gladosch. O "quarteirão Masson", como era então chamado, apresentava aspecto monumental, com a marcação da esquina através da torre. Tudo em substituição ao casario colonial e ao traçado de quadras pré-existentes no local, com complicada divisão de terras que atravancava a verticalização da cidade.


Edifício Sulacap, projetado por Arnaldo Gladosch. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)


Gladosch conseguiu deixar sua marca neste entorno não apenas através do Sulacap e do Sul América, prédios de sua autoria, mas também na própria avenida, mais precisamente no Quarteirão Masson que até hoje representa a síntese soluções urbanas por ele defendidas, como o abrigo coberto para pedestres, as relações de escala e alturas e a própria modernidade expressa através do "futurismo" e da monumentalidade. É impossível visualizar o impactante "cânion" de prédios da Borges de Medeiros, com o coroamento minucioso do Sulacap, e não remeter-se a cenas como as do filme alemão Metrópolis, de Fritz Lang.
Os prédios do entorno representam diferentes momentos da absorção do ideario "moderno" na cidade de Porto Alegre.


Conjunto "Continente", construído em diferentes momentos (Ed. Planalto, Ed. Missões e Ed. Fronteira), visivelmente inspirado no Palácio Capanema, de Niemeyer, Lucio Costa e cia, denotando a influência do modernismo carioca na cidade. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)


"72 - O Pensamento" - Casa de Cultura Mario Quintana


O Pensamento (Foto: Elis Regina Berndt/2010)


O antigo Hotel Majestic, que hoje abriga a Casa de Cultura Mario Quintana, é de longe um dos locais mais bacanas da cidade para se visitar, não importa o motivo: cinema, teatro, exposições artísticas culturais, café, ou mesmo apenas um chimarrão no jardim. Ou mesmo visitar a vaquinha "O Pensamento" da Cow Parade.


A Travessa dos Cataventos, que divide os dois blocos do antigo Hotel Majestic. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)

O projeto original, de Theo Wiederspahn, previa duas edificações idênticas, simétricas, unidas pelas duas cúpulas e pelas passarelas. A travessa interna, bastante ousada até para os dias atuais, acabou configurando-se em um dos espaços urbanos mais interessantes da capital gaúcha. É um espaço especial que a cidade soube apropriar-se.


Detalhe do Antigo Hotel Majestic, de Theo Wiederspahn (Foto: Jorge Luís Stocker Jr/2010)

O volume situado do lado leste, inaugurado em 1918, teve grande parte de suas características originais preservadas. O outro volume recebeu uma importante intervenção interna nos anos 90, quando foi convertido para Centro Cultural, com interessante uso de concreto armado nu.


A vista do "Jardim Joseph Lutzenberger" da CCMQ privilegia a vista da igreja das Dores, cuja fachada também é autoria de Theo Wiederspahn. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)

"80 - Bochincho no Galpão da CowParade" - Santander Cultural


Antiga sede do Banco Nacional do Comércio, hoje Santander Cultural. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)

Em frente ao Santander Cultural, na Praça da Alfândega, está situada a vaquinha denominada "Bochincho no Galpão da CowParade". O local é único, pelo "confronto" de dois modelos de edificação bancária: o antigo Banco Nacional do Comércio, hoje convertido em Santander Cultural, de feições fortemente clássicas, e o prédio modernista do antigo SulBanco, hoje Banco Santander.


Bochincho no Galpão da CowParade - Foto: Elis Regina Berndt/2010

O primeiro, teve projeto encomendado ao arquiteto Theo Wiederspahn, na época com um programa mais extenso. Problemas fariam com que Widerspahn falisse e se afastasse da obra, e seus estudos foram posteriormente adaptados por outros profissionais. Foi inaugurado em 1931. A riqueza dos conjuntos escultóricos, alguns dos quais executados pelo artista Fernando Corona, é um dos destaques da edificação, bem como a monumentalidade conferida pelos grandes pilares de ordem coríntia.


Inserção da antiga sede do Sulbanco a partir da rua General Câmara ("da ladeira"). (foto: Jorge Luís Stocker Jr/2010)

O segundo edifício, antiga sede do Sulbanco, inaugurado em 1943, passa despercebido aos que pouco conhecem sobre a arquitetura moderna. No entanto, é um dos principais exemplares da cidade. A adoção dos princípios modernistas, como o emprego do Brise-Soleil como elemento de proteção na fachada oeste (solução técnica mas de grande impacto visual) que permitiu grandes aberturas. O prédio marca o novo "programa" exigido pelas agências bancárias, um grande bloco verticalizado de escritório. A robustez exigida na época para sedes bancárias, porém, continua presente no pavimento térreo, revestido de granito preto. Vale ainda ressaltar a interessante articulação de materiais proposta pelo arquiteto Guido Trein - o metal do brise-soleil em contraste com os tijolos cerâmicos e a base de granito.

A interessante articulação de materiais do antigo Sulbanco. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)

Texto: Jorge Luís Stocker Jr.

Leia também:

-"Arnaldo Gladosch - O Edifício e a Metrópole" (livro) - Anna Paula Cannez

- Arquitetura Moderna em Porto Alegre (livro) - Alberto Xavier / Ivan Mizoguchi

- Cow Parade Porto Alegre 2010

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Por que tem valor? Discutindo os critérios para a seleção de bens históricos - Parte I

Em qualquer tipo de estudo ou trabalho relacionado ao patrimônio construído, costuma ser nítida a ausência de critérios rígidos utilizados para afirmar, de modo definitivo, que um bem histórico é portador ou não de valores que determinem a necessidade de sua preservação. Deixando de lado qualquer tipo de dogmatismo, e munindo-se de conhecimentos, sensibilidade e principalmente bom senso, pode ser possível chegar a um resultado que seja o mais satisfatório possível.

Casa de caráter historicista, bastante tardia (1949), localizada entre Jammerthal e Joaneta, em Picada Café (RS): seu valor histórico poderia eventualmente ser contestado pela aplicação tardia destas formas históricas então já ultrapassadas. Mas esta adoção tardia de formas e da volumetria típica dos anos 10-30 nas cidades mais desenvolvidas de imigração alemã, pode ser bastante significativa historicamente: uma casa de caráter tão germânico, em plena campanha de nacionalização, e tão tradicional, em tempos de modernização, só seria possível em lugares muito isolados geograficamente. (Foto: Elis Regina Berndt/ Março 2010)

O patrimônio histórico construído tem uma inegável importância para as cidades, assunto que já discutimos em diversos artigos do Die Zeit. No entanto, como definir o que, de fato, é patrimônio? É nítido que não devemos nos restringir apenas aos bens históricos já tombados ou indicados para preservação. Afinal, o tombamento não determina o valor de um bem, apenas o declara oficialmente. Mas então, quais edificações são, de fato, portadoras de valores que a tornem merecedoras de proteção?

Casa neo-colonial, uma das últimas das tantas que caracterizaram o centro de Torres (RS): terá algum significado pra cidade? O sufocamento da casa pelas edificações lindeiras antecipa seu destino. (foto: Jorge Luís Stocker Jr/ Janeiro 2010)


Primeiramente, a única certeza que podemos ter é que não existe nenhuma resolução definitiva sobre o assunto. Na busca por embasamento, nos depararemos com a legislação, que no geral chega a ser bastante completa a respeito do tema, mas reticente e vaga quando aplicada em situações práticas; com as convenções e cartas patrimoniais, normalmente contraditórias quando aplicadas sem a análise dos seus contextos históricos, e ainda com a produção intelectual existente - que apesar de importantíssima e ótimo ponto de partida, é arriscada quando adotada sem a problematização necessária. Qualquer uma dessas fontes, adotada sem senso crítico e profunda reflexão, pode encorajar atitudes precipitadas. Num assunto onde tudo é tão subjetivo, é praticamente impossível adotar uma postura única e rígida que não analise cada caso como um caso único.
Com este artigo, pretendemos deixar nossa modesta contribuição para o tema, levantando questões, opiniões e exemplos para discutir formas e critérios que ao nosso ver deveriam nortear a seleção e preservação de bens históricos representativos do nosso patrimônio cultural.

O valor cultural

Mais conhecido de todos, e de maior aceitação, o valor cultural de um bem diz respeito a seu histórico e importância afetiva. Tem valor cultural os exemplares que ilustrem ("contem") uma história importante para a cidade, que tenham abrigado personalidades ou sejam características de algum grupo social, que representem uma cultura diferenciada (como a imigratória), e/ou que tenham importância social, como referencial afetivo. Também em alguns casos, pode ser considerado um exemplar que, ainda que hoje isolado, represente determinado período histórico de uma rua ou bairro.

É talvez o critério mais amplo, considerando-se que a "importância" de cada evento ou período histórico é muito relativa.


Casa eclética com a volumetria típica das regiões de imigração alemã, situada em Sander - bairro de Três Coroas (RS). Por muitos anos o estilo eclético foi considerado sem qualquer valor cultural e mera cópia de um estilo europeu. Em alguns casos ainda se mantém este preconceito, o que se torna um absurdo quando, como neste exemplo, é possível relacionar peculiaridades regionais tanto na volumetria quanto na espacialidade dos prédios. Sem pesquisa, é impossível determinar o valor de um bem! (foto: Jorge Luís Stocker Jr./ Agosto 2010)

Não podemos esquecer que, para conhecer o valor cultural de um prédio, é preciso bem mais do que uma simples visita de levantamento fotográfico e confecção imediata de laudo assinado por profissional legalmente habilitado (e algumas vezes, teoricamente bitolado): a pesquisa oral, documental e bibiliográfica é imprescindível para que se consiga obter dados que ajudem a contextualizar a edificação, sua origem e histórico. É impossível adivinhar o valor cultural de uma edificação através de uma fotografia ou ficha de inventário incompleta e portanto, é completamente hipócrita negar seu valor histórico sem que se tenha procedido uma pesquisa completa e competente. Decisões importantes como esta não podem ser tomadas precipitadamente, na pressa e de portas fechadas, por uma pessoa ou comissão responsável que não tenha respaldo representativo da sociedade e entidades interessadas no assunto.


As poucas edificações modernistas realmente significativas do ponto de vista arquitetônico, como a sede da Previdência Social em Sapiranga (RS), certamente tem um valor morfológico muito acentuado, embora ainda encontrem intensa contrariedade. No entanto, principalmente nas capitais, aos poucos vão encontrando sua valorização através da ampliação das pesquisas de mestrado e doutorado na área e do próprio distanciamento temporal que vai crescendo. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr/ Julho 2010)

O estado de conservação do bem em questão também costuma ser a justificativa para demolições. Oferecer risco aos transeuntes é realmente crítico, mas as providências tomadas devem vir em encontro à valorização e preservação do valor cultural do bem, e não sua erradicação através de demolição. Desta forma, ao invés da resolução de um problema, gera-se outro: um vácuo histórico e cultural irreversível para as nossas cidades já sequeladas e desmemoriadas. O mau estado de conservação pode prejudicar e colocar em risco o valor cultural, mas de modo algum o elimina. Não podemos esquecer ainda que, o próprio estado de ruínas de um edifício pode ser muito representativo e seu restauro ou consolidação enquanto ruína pode ser uma forma de educação patrimonial.



O prédio do antigo Evangeliches Stift e posteriormente Lar da Menina, em Novo Hamburgo, encontra-se em ruínas desde um incêndio nos anos 90, e se desintegrou lentamente ao longo dos anos. Felizmente foi tombado a nível municipal, como reconhecimento ao seu inestimável valor cultural - mesmo no atual estado de ruínas. Nos parece importante que não se reconstrua ou recomponha a fachada exatamente tal como se apresentava antes do incidente, como forma de educação patrimonial: seria demonstrar erroneamente que o patrimônio pode ser facilmente reconstruído, comprovando que erros como descaso e demolições são reversíveis posteriormente. As soluções para seu restauro deveriam, preferencialmente, recompor os volumes mas manter uma forma de valorizar esse arruinamento que faz parte da história da edificação. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./Agosto de 2010 e Acervo Pref. NH)

Necessário dizer, no contexto atual onde vemos é uma completa desfiguração da cidade tradicional, com a existência de apenas poucas migalhas históricas espalhadas pelas cidades, somos da opinião de que TODO e QUALQUER bem de interesse cultural que tenha chegado aos dias atuais em relativa integridade DEVE ser mantido. Ou, no mínimo, deve-se analisar muito profundamente a real necessidade de sua demolição. A quem ela beneficia? Que prejuízos ela traz? Frisando que a situação atual já é crítica, e que qualquer argumento que inclua a possibilidade de "congelamento da cidade" é fajuto (pois os prédios históricos são minoria inconteste) acreditamos ser praticamente impossível que a melhor opção seja a demolição em casos de bens realmente portadores de valor cultural.

O valor morfológico da arquitetura

A qualidade do projeto arquitetônico é, talvez, o conceito mais aceito e aplicado por arquitetos, e também no geral encontra bom respaldo popular. Quando se avalia o valor arquitetônico de uma edificação, se pesa a sua representatividade enquanto exemplar de determinado período estilístico, ou seja, sua filiação (ou reação) a determinada escola. Além de considerar-se a qualidade estética das fachadas, também deve ser avaliada a qualidade e/ou peculiaridade da distribuição espacial.


A Casa Soine, de 1914, situada em Dois Irmãos (RS) é um exemplar de inegável valor morfológico: apesar da relativa simplicidade, nota-se uma aplicação criteriosa e erudita de formas históricas. Tem também seu inestimável valor cultural, enquanto representante da arquitetura residencial em zonas de imigração teuta naquela década (Foto: Elis Regina Berndt/Dezembro 2009)

A planta-baixa das casas antigas, quando ainda reconhecíveis, podem ser uma fonte documental importantíssima para o entendimento das transformações econômicas e sociais. O espaço interno deve ser mantido sempre que possível, obviamente com a devida compatibilização com os novos usos. No entanto, como dificilmente é possível no caso de bens particulares e trocas constantes de usos, o mínimo a se fazer é documentar cada alteração introduzida. Tal precaução é de fácil execução e não se trata de nenhum exagero: é o mínimo a se exigir, em se tratando de prédios que chegaram até hoje em relativa integridade e que são, muitas vezes, os últimos representantes de determinados períodos.


O belo casarão Friedrich, exemplarmente bem conservado pela família, em Novo Hamburgo (RS). Hoje abriga um museu particular e mantém seu uso residencial, usos sustentáveis e que possibilitam a manutenção de sua integridade. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr./Setembro 2010)

É preciso ter em mente que, quando trabalhamos com um prédio histórico, temos em mãos um documento valioso que é portador de informações. De fato um documento "vivo", no qual as alterações e modernizações podem e devem somar ainda mais valores. Justamente por isso devem ser feitas com cuidado, conhecimento e com a devido registro das intervenções e motivações, que deve ser exigido pelas comissões responsáveis . Afinal, profissionais entram e saem dos seus cargos e a informação não documentada poderá se perder definitivamente.


A Casa Kaiser é um dos mais valiosos bens históricos do município de Novo Hamburgo (RS). Situada em Hamburgo Velho, data aproximadamente de 1850, e não tem hoje qualquer proteção legal. Trata-se da única construção enxaimel que ainda apresenta-se na sua quase originalidade, mantendo tanto sua estrutura quanto seus interiores com pouquíssimas intervenções, devido a manutenção do uso residencial pela família até alguns anos atrás. Hoje encontra-se desocupada. Seria lamentável neste caso específico uma reciclagem de uso que desfigurasse seu interior, por se tratar da única edificação enxaimel da cidade e uma das únicas da região a manter-se praticamente original. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr. / Agosto 2010)

Os critérios cultural e morfológico, bem como os demais (técnico, paisagístico, funcional, reconhecimento teórico e popular, etc) se entrelaçam e se complementam, de forma que não se pode julgar a partir de apenas um ponto de vista. Nos próximos artigos, buscaremos discutir um pouco sobre os demais critérios. Deixe sua contribuição nos comentários!

Texto: Jorge Luís Stocker Jr.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Memórias de veraneio – O Legado histórico-cultural do litoral gaúcho, em Imbé (RS)

Hoje parece distante, mas houve um tempo em que para veranear no litoral gaúcho, as pessoas não se trancavam em condomínios fechados de gosto duvidoso.
ATENÇÃO: ESTE ARTIGO NÃO É CONTEÚDO LIVRE E SÓ PODE SER REPRODUZIDO TOTAL OU PARCIALMENTE SOB AUTORIZAÇÃO EXPRESSA DOS AUTORES.
Imbé (RS), município cuja área já pertenceu à Tramandaí, teve sua área loteada muito mais tarde do que sua cidade-mãe. Ao contrário desta, que se originou de povoamento açoriano, Imbé surge de fato apenas quando o veraneio nas praias gaúchas começa a se tornar mais acessível para as classes média e média-alta.
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O loteamento inicial de Imbé, com as ruas curvas, em imagem publicada em jornais da época, e em vista extraída do Google Earth.

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No início anos 30, a área central de Imbé ainda encontrava-se praticamente desocupada, tendo sido adquirida e rapidamente loteada. O projeto urbanístico ficou por conta do engenheiro-arquiteto Ubatuba de Faria, que buscou aplicar o conceito de cidade-jardim. A disposição das ruas em curvas e círculos concêntricos, e a criação de eixos principais arborizados, denotam a busca por um traçado diferenciado e “moderno”.
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Ilustrando as contradições daquela época, marcada pela oposição modernidade X tradição, encontramos na área central de Imbé projetos representativos de ambos os posicionamentos teóricos.
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Enquanto nas obras de caráter público, como o próprio traçado urbano, a sede da SAPI, Matriz católica e prédios da CORSAN prevalece uma linguagem bastante afinada com o modernismo, com aplicação de concreto armado, brise-soleil, coberturas planas e outros elementos; nas casas de veraneio particulares prevalece a evocação de ares medievais ou alpinos, num estilo que lembra muito os chalés gramadenses da mesma época. Mesmo os jardins apresentam esta afinidade, com canteiros repletos das hortênsias que simbolizam a serra gaúcha até hoje.
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Exemplares de casas com inspiração medieval, construídas em pedra. Ilustra a oposição entre as ideias modernas do traçado urbano, com a produção arquitetônica da época, grande parte ainda baseada em modelos históricos. (fotos: Jorge Luís Stocker Jr/2010)
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Caminhar pelas ruas do loteamento inicial, é conhecer um percurso charmoso e cheio de surpresas. O clima dos anos 50 prevalece, apesar da intensa especulação imobiliária que recai sobre o local e que nos permite, estupefatos, contabilizar várias “muretas neo-medievais” ou neo-coloniais já desprovidas da respectiva casa – e também novos e enormes muros sem diálogo algum com o charme do local.
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Muro de casinha neo-colonial/estilo missões, já demolida; e um muro recente que desfigura o conceito de cidade-jardim e encerra qualquer diálogo possível com o espaço urbano. Fotos: Jorge Luís Stocker Jr./2010
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As casas de pedra, apesar da falta de contexto, destacam-se pela aplicação competente da técnica construtiva, utilizando pedras inteiras como elemento estrutural, e não apenas decorativo. Grandes vãos são vencidos com arcos e sem o uso de concreto armado.
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Dois exemplares de chalés de madeira, de diferentes épocas, ainda conservados. O primeiro com lambrequim, e o segundo, com a inscrição denominando-o Villa Iara. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)

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Ainda contabiliza-se dezenas de casinhas de madeira, algumas dotadas de preciosos lambrequins. Muitas sofrem do envelhecimento e falta de manutenção. Embora existam chalés exemplarmente bem conservados, é fácil perceber que este precioso conjunto, não reconhecido como tal por nenhum órgão oficial e nem mesmo pela população e veranistas, extingue-se às claras, juntamente com o conceito que deu origem ao traçado urbano.
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Igreja Nossa Senhora de Fátima, com sua torre desfigurada. (foto: Jorge Luís Stocker Jr/2010)
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A Igreja de Nossa Senhora de Fátima, datada do início dos anos 60, parece ter se originado de um projeto modernista de boa qualidade plástica, embora não nos conste quem seja o autor. Lamentavelmente, percebe-se uma intervenção sensível na torre, com fechamento de um grande vão, supressão da cruz em alto relevo e uso de basculantes. Tal modificação tornou a torre desprovida de articulação volumétrica, trazendo grande prejuízo à percepção da importância arquitetônica da igreja e do próprio eixo visual onde está inserida.
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A Sede da SAPI – Sociedade Amigos da Praia de Imbé

Já a sede da SAPI – Sociedade Amigos da Praia de Imbé – é sem dúvidas um dos projetos mais interessantes e marcantes do modernismo gaúcho. Apesar da atual decadência e da introdução de elementos estranhos ao projeto original, ainda é possível visualizar e reconhecer as acertadas decisões arquitetônicas e a dignidade, que somente a boa arquitetura conserva frente ao quase abandono.
Construído no início dos anos 50, o projeto é assinado pelo arquiteto Luís Fernando Corona, co-autor do Palácio da Justiça, do edifício Jaguaribe e de muitas casas modernistas, na cidade de Porto Alegre. O projeto foi selecionado em um concurso nacional, promovido pelo IAB, e a obra infelizmente acabou sendo concretizada com muitas adaptações e modificações no programa de necessidades, desfigurando o conceito original.
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Letreiro e o volume instável da entrada principal da sede da SAPI, em Imbé. (fotos: Jorge Luís Stocker Jr./2010)
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Vemos uma linguagem de vertente modernista, com uso do concreto armado, curvas, brise soleils fixos na fachada oeste, cobertura plana, entre outros. A qualidade do projeto chama atenção: apesar das pequenas e reconhecíveis intervenções, percebe-se os espaços bem articulados, interiores riquíssimos, que trazem uma sensação espacial dificilmente experimentada em prédios deste caráter.
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É possível perceber no projeto algum resquício de uma linguagem modernizante art-decó, apesar de estarem bastante diluídas no conteúdo diretamente influenciado pelo modernismo brasileiro a lá Oscar Niemeyer e Lúcio Costa.
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Dois aspectos externos do prédio da SAPI: A articulação de volumes na fachada sul e o uso de brise-soleil fixo de concreto na fachada oeste. (fotos: Jorge Luís Stocker Jr./2010)
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O prédio é construído em pedra grês (não nos consta se fora sempre pintada de branco como está, ou se originalmente apresentava-se nua); havendo elementos estruturais de concreto armado revestidos com pastilhas cerâmicas verdes quase irregulares, e que lembram muito o trabalho artístico do pai do arquiteto; Fernando Corona.
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Na antiga entrada principal, ainda sobrevive o letreiro em caracteres modernistas típicos da época. Um anexo, gerado por uma adição posterior no programa de necessidades, acaba desfigurando a principal visual que se obteria a partir da rua, impossibilitando a visualização do volume cilíndrico conjunta com o volume da entrada principal.
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Entrando na edificação, percebemos que o ambiente provavelmente tinha contato visual direto com a área de lazer com piscinas, localizada na área externa e hoje infelizmente em ruínas; e com as quadras de tênis (estas bem conservadas e utilizadas pelos veranistas do local). Porém, o anexo anteriormente citado parece quebrar este contato, impedindo as visuais através da superfície envidraçada. Atualmente, ainda é possível perceber o cuidado em apresentar uma visual externa do volume cilíndrico correspondente ao salão/auditório.
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Aspecto do salão, no volume cilíndrico do prédio. (foto:Jorge Luís Stocker Jr./2010)
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Já o salão chama atenção por sua riqueza espacial, correspondendo e superando a todas as expectativas criadas pelo exterior do prédio. O rebaixamento em gesso do forro, com grandes círculos luminosos, cria uma singular atmosfera “futurista” (hoje soa como, digamos, um futuro do pretérito). O pé-direito relativamente baixo e o jogo de diferentes cotas de nível, com curvaturas, enriquece ainda mais a percepção do espaço, sendo possível “absorver” a perspectiva do salão inteiro estando em qualquer ponto. A luz permeia o ambiente através das grandes aberturas dispostas em todo volume curvo.
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Suaves diferenças de nível enriquecem o espaço. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)
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As esquadrias empregadas são janelas basculantes de madeira, provavelmente adotadas como maneira de prevenir a ferrugem.
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Dois ambientes da antiga SAPI: Entrada (vê-se o divisor de ambientes que lembra brise-soleils) e salão, com o imponente forro de gesso rebaixado(fotos: Jorge Luís Stocker Jr./2010).
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Segundo informações prestadas por alguns sócios no local, o prédio foi adquirido pela Prefeitura Municipal de Imbé, e encontra-se com o salão interditado devido ao mal estado de conservação. Ao que parece a Prefeitura pretende deixá-lo em condições de uso e abrigar ali o Coral ou Orquestra Municipal. Esperamos que a prefeitura de Imbé supere as expectativas e saiba valorizar este patrimônio de que agora detém tutela. Uma restauração ou mesmo reciclagem, respeitando as características originais, e prevendo novos usos e vida ao local, certamente tornariam o prédio um dos principais atrativos turísticos da cidade!

Texto e Imagens: Jorge Luís Stocker Jr.
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Leia também:
- Imbé - o adeus da cidade jardim. J. Geraldo V. Costa [Seção Minha cidade - Portal Vitruvius]
- Tese de mestrado da Arquiteta Alessandra Rambo Szekut, abordando a obra de Luís Fernando Corona. Inclui detalhes e croquis do projeto original da SAPI.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Continuidade Histórica e Arquitetura Moderna em Porto Alegre

A memória está estritamente vinculada a coisas sólidas e lugares (quem nunca anotou lembretes, riscou um "x" na própria mão ou amarrou uma fitinha no dedo...?). A cidade não foge à regra. O papel dos prédios históricos é fazer esta “ponte” com o passado, gerando a agradável sensação de continuidade e proporcionando ao presente, seu verdadeiro sentido e significação.
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O processo “cumulativo” de épocas nas cidades pode ser muito saudável, quando há uma convivência pacífica de épocas, usos - e, porque não?- escalas.
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Para garantir a sensação de continuidade, como define a palavra, é necessário que haja de fato uma continuação. Neste caso, não se trata de preservar única e ardorosamente a arquitetura de um passado eleito como importante: apenas vernacular (como a Ouro Preto que suprimiu seu período eclético), ou apenas de uma posterior pretensa belle-époque, etc.
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O surgimento no século passado de um novo conceito de morar, com a introdução de estratégias e técnicas construtivas novas dentro de projetos Art Déco/protomodernos, e a posterior “vitória” do movimento moderno no campo da arquitetura e da arte, são fases importantes para que o momento atual seja perfeitamente compreendido e vivenciado.
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E a arquitetura moderna?

Como exemplo ilustrativo de que a falta de cuidado e continuidade dos prédios históricos nem sempre estão relacionados à estagnação do seu uso original, vejamos uma das mais significativas casas modernistas da cidade de Porto Alegre.


Casa Jorge C. D'Azevedo, na sua configuração original (fonte: GOLDMAN, Carlos Henrique: projetos residenciais de Edgard Albuquerque Graeff) e na atual (Foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010). Na comparação, percebe-se a substituição das esquadrias originais, com supressão do brise soleil, em prol do uso de esquadrias simples de madeira, encontradas em qualquer loja de materiais de construção.
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Localizada no bairro Moinhos de Vento de Porto Alegre, a Casa Jorge C. D'Azevedo foi construída na década de 50, projetada pelo Arquiteto Carlos Alberto de Holanda Mendonça. Vemos no projeto uma criteriosa adoção dos pontos da arquitetura moderna, com uso de pilotis, brise-soleil, fachada e planta livres. O impacto visual, com inspiração na escola carioca, era gerado pelo uso de brise-soleil vertical. A ousadia de suspender uma casa sob pilotis na Porto Alegre dos anos 50, certamente a destacava dos prédios residenciais predominantes na época, a maioria inspiradas no modelo californiano de edificação neo-colonial hispânica (por aqui conhecida como “estilo missões” – e curiosamente, estes começam hoje a serem vistos como ‘históricos’, ao contrário dos prédios modernistas e proto-modernos da mesma época, encarados como ‘comuns’).
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A manutenção desta e de outras casas, tornaria possível uma importante “ponte” com o passado, uma forma de comprovar a introdução da arquitetura moderna ao contexto porto-alegrense. Ilustra a chegada de um novo modo de morar fora do eixo Rio-São Paulo, nos anos 50; além de constituir-se um perfeito referencial teórico para a arquitetura gaúcha atual. Não fosse a lamentável mutilação que transformou este e vários outros prédios representativos para a arquitetura local, em meros produtos imobiliários.
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Talvez o exemplar modernista mais importante do Rio Grande do Sul: Palácio da Justiça de Porto Alegre, também dos anos 50 (Foto: Jorge Luís Stocker Jr.). Interessante projeto, vencedor de concurso, dos arquitetos Carlos Maximiliano Fayet e Luís Fernando Corona. Recentemente reformado sob orientação do primeiro (já falecido), de forma a atualizar para as demandas e também finalizar o projeto original, que não havia sido executado inteiramente conforme o proposto.
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Enquanto isso, continuamos a buscar apenas nas obras do Niemeyer, Lúcio Costa e Cia, a essência do modernismo brasileiro. Esquecemos de valorizar, estudar e perpetuar os exemplos locais, que com tanta dificuldade introduziram as inovações arquitetônicas nesta cidade.
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A memória acabou?

Felizmente não, pois a cidade ainda tem outros edifícios e casas que narram este período de introdução e auge da arquitetura moderna, tão profícuo em estratégias projetuais e avanços estéticos. São exemplos maiores, o Jockey Club, o Esplanada (do Arq. Fresnédo Siri), o Palácio da Justiça (Luís Fernando Corona e Carlos M. Fayet), o Jaguaribe (Luís Fernando Corona e Fernando Corona), entre outros. Impossível não citar as aventuras proto-modernas protagonizadas pelo "arquiteto" auto-didata Fernando Corona, que escapam à rigidez teórica do movimento moderno, mas são valiosas justamente pelo toque ‘autoral’ e pela gradual introdução de elementos modernos em prédios com um pé no art-decó ou neo-colonial.
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Casa projetada nos anos 50 pelo arquiteto Fernando Corona, encontra-se bem conservada em sua originalidade. Sua estética atende à demanda por ares californianos, próprios do neo-colonial/estilo missões, ao mesmo tempo que introduz elementos modernos, como os balanços, janelas 'corridas' e muxarabis da arquitetura colonial brasileira. (pavimento superior, com arcos, é intervenção posterior). (Foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)
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Por sua adequação à época em que foram concebidos, estética e tecnologicamente, o legado modernista deveria servir de inspiração para muitos arquitetos atuais. Profissionais que nada mais fazem além de repetir exaustivamente a fórmula pré-concebida do que os “clientes costumam querer”. Quem sabe assim, deixaríamos de ver a construção de centenas de prédios “sem linguagem”, meramente produtos imobiliários, que não representam nenhuma cultura, nenhum estágio tecnológico, nenhum conceito... Enquanto este tempo não chega, que tenhamos mais cuidado com o legado de qualidade que os períodos anteriores nos deixaram.
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Leia também:
Arquitextos: Escola Carioca e a Arquitetura Moderna em Porto Alegre (Luís Haas Luccas)
Livro: A arquitetura moderna em Porto Alegre