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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Por que tem valor? Discutindo os critérios para a seleção de bens históricos - Parte I

Em qualquer tipo de estudo ou trabalho relacionado ao patrimônio construído, costuma ser nítida a ausência de critérios rígidos utilizados para afirmar, de modo definitivo, que um bem histórico é portador ou não de valores que determinem a necessidade de sua preservação. Deixando de lado qualquer tipo de dogmatismo, e munindo-se de conhecimentos, sensibilidade e principalmente bom senso, pode ser possível chegar a um resultado que seja o mais satisfatório possível.

Casa de caráter historicista, bastante tardia (1949), localizada entre Jammerthal e Joaneta, em Picada Café (RS): seu valor histórico poderia eventualmente ser contestado pela aplicação tardia destas formas históricas então já ultrapassadas. Mas esta adoção tardia de formas e da volumetria típica dos anos 10-30 nas cidades mais desenvolvidas de imigração alemã, pode ser bastante significativa historicamente: uma casa de caráter tão germânico, em plena campanha de nacionalização, e tão tradicional, em tempos de modernização, só seria possível em lugares muito isolados geograficamente. (Foto: Elis Regina Berndt/ Março 2010)

O patrimônio histórico construído tem uma inegável importância para as cidades, assunto que já discutimos em diversos artigos do Die Zeit. No entanto, como definir o que, de fato, é patrimônio? É nítido que não devemos nos restringir apenas aos bens históricos já tombados ou indicados para preservação. Afinal, o tombamento não determina o valor de um bem, apenas o declara oficialmente. Mas então, quais edificações são, de fato, portadoras de valores que a tornem merecedoras de proteção?

Casa neo-colonial, uma das últimas das tantas que caracterizaram o centro de Torres (RS): terá algum significado pra cidade? O sufocamento da casa pelas edificações lindeiras antecipa seu destino. (foto: Jorge Luís Stocker Jr/ Janeiro 2010)


Primeiramente, a única certeza que podemos ter é que não existe nenhuma resolução definitiva sobre o assunto. Na busca por embasamento, nos depararemos com a legislação, que no geral chega a ser bastante completa a respeito do tema, mas reticente e vaga quando aplicada em situações práticas; com as convenções e cartas patrimoniais, normalmente contraditórias quando aplicadas sem a análise dos seus contextos históricos, e ainda com a produção intelectual existente - que apesar de importantíssima e ótimo ponto de partida, é arriscada quando adotada sem a problematização necessária. Qualquer uma dessas fontes, adotada sem senso crítico e profunda reflexão, pode encorajar atitudes precipitadas. Num assunto onde tudo é tão subjetivo, é praticamente impossível adotar uma postura única e rígida que não analise cada caso como um caso único.
Com este artigo, pretendemos deixar nossa modesta contribuição para o tema, levantando questões, opiniões e exemplos para discutir formas e critérios que ao nosso ver deveriam nortear a seleção e preservação de bens históricos representativos do nosso patrimônio cultural.

O valor cultural

Mais conhecido de todos, e de maior aceitação, o valor cultural de um bem diz respeito a seu histórico e importância afetiva. Tem valor cultural os exemplares que ilustrem ("contem") uma história importante para a cidade, que tenham abrigado personalidades ou sejam características de algum grupo social, que representem uma cultura diferenciada (como a imigratória), e/ou que tenham importância social, como referencial afetivo. Também em alguns casos, pode ser considerado um exemplar que, ainda que hoje isolado, represente determinado período histórico de uma rua ou bairro.

É talvez o critério mais amplo, considerando-se que a "importância" de cada evento ou período histórico é muito relativa.


Casa eclética com a volumetria típica das regiões de imigração alemã, situada em Sander - bairro de Três Coroas (RS). Por muitos anos o estilo eclético foi considerado sem qualquer valor cultural e mera cópia de um estilo europeu. Em alguns casos ainda se mantém este preconceito, o que se torna um absurdo quando, como neste exemplo, é possível relacionar peculiaridades regionais tanto na volumetria quanto na espacialidade dos prédios. Sem pesquisa, é impossível determinar o valor de um bem! (foto: Jorge Luís Stocker Jr./ Agosto 2010)

Não podemos esquecer que, para conhecer o valor cultural de um prédio, é preciso bem mais do que uma simples visita de levantamento fotográfico e confecção imediata de laudo assinado por profissional legalmente habilitado (e algumas vezes, teoricamente bitolado): a pesquisa oral, documental e bibiliográfica é imprescindível para que se consiga obter dados que ajudem a contextualizar a edificação, sua origem e histórico. É impossível adivinhar o valor cultural de uma edificação através de uma fotografia ou ficha de inventário incompleta e portanto, é completamente hipócrita negar seu valor histórico sem que se tenha procedido uma pesquisa completa e competente. Decisões importantes como esta não podem ser tomadas precipitadamente, na pressa e de portas fechadas, por uma pessoa ou comissão responsável que não tenha respaldo representativo da sociedade e entidades interessadas no assunto.


As poucas edificações modernistas realmente significativas do ponto de vista arquitetônico, como a sede da Previdência Social em Sapiranga (RS), certamente tem um valor morfológico muito acentuado, embora ainda encontrem intensa contrariedade. No entanto, principalmente nas capitais, aos poucos vão encontrando sua valorização através da ampliação das pesquisas de mestrado e doutorado na área e do próprio distanciamento temporal que vai crescendo. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr/ Julho 2010)

O estado de conservação do bem em questão também costuma ser a justificativa para demolições. Oferecer risco aos transeuntes é realmente crítico, mas as providências tomadas devem vir em encontro à valorização e preservação do valor cultural do bem, e não sua erradicação através de demolição. Desta forma, ao invés da resolução de um problema, gera-se outro: um vácuo histórico e cultural irreversível para as nossas cidades já sequeladas e desmemoriadas. O mau estado de conservação pode prejudicar e colocar em risco o valor cultural, mas de modo algum o elimina. Não podemos esquecer ainda que, o próprio estado de ruínas de um edifício pode ser muito representativo e seu restauro ou consolidação enquanto ruína pode ser uma forma de educação patrimonial.



O prédio do antigo Evangeliches Stift e posteriormente Lar da Menina, em Novo Hamburgo, encontra-se em ruínas desde um incêndio nos anos 90, e se desintegrou lentamente ao longo dos anos. Felizmente foi tombado a nível municipal, como reconhecimento ao seu inestimável valor cultural - mesmo no atual estado de ruínas. Nos parece importante que não se reconstrua ou recomponha a fachada exatamente tal como se apresentava antes do incidente, como forma de educação patrimonial: seria demonstrar erroneamente que o patrimônio pode ser facilmente reconstruído, comprovando que erros como descaso e demolições são reversíveis posteriormente. As soluções para seu restauro deveriam, preferencialmente, recompor os volumes mas manter uma forma de valorizar esse arruinamento que faz parte da história da edificação. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./Agosto de 2010 e Acervo Pref. NH)

Necessário dizer, no contexto atual onde vemos é uma completa desfiguração da cidade tradicional, com a existência de apenas poucas migalhas históricas espalhadas pelas cidades, somos da opinião de que TODO e QUALQUER bem de interesse cultural que tenha chegado aos dias atuais em relativa integridade DEVE ser mantido. Ou, no mínimo, deve-se analisar muito profundamente a real necessidade de sua demolição. A quem ela beneficia? Que prejuízos ela traz? Frisando que a situação atual já é crítica, e que qualquer argumento que inclua a possibilidade de "congelamento da cidade" é fajuto (pois os prédios históricos são minoria inconteste) acreditamos ser praticamente impossível que a melhor opção seja a demolição em casos de bens realmente portadores de valor cultural.

O valor morfológico da arquitetura

A qualidade do projeto arquitetônico é, talvez, o conceito mais aceito e aplicado por arquitetos, e também no geral encontra bom respaldo popular. Quando se avalia o valor arquitetônico de uma edificação, se pesa a sua representatividade enquanto exemplar de determinado período estilístico, ou seja, sua filiação (ou reação) a determinada escola. Além de considerar-se a qualidade estética das fachadas, também deve ser avaliada a qualidade e/ou peculiaridade da distribuição espacial.


A Casa Soine, de 1914, situada em Dois Irmãos (RS) é um exemplar de inegável valor morfológico: apesar da relativa simplicidade, nota-se uma aplicação criteriosa e erudita de formas históricas. Tem também seu inestimável valor cultural, enquanto representante da arquitetura residencial em zonas de imigração teuta naquela década (Foto: Elis Regina Berndt/Dezembro 2009)

A planta-baixa das casas antigas, quando ainda reconhecíveis, podem ser uma fonte documental importantíssima para o entendimento das transformações econômicas e sociais. O espaço interno deve ser mantido sempre que possível, obviamente com a devida compatibilização com os novos usos. No entanto, como dificilmente é possível no caso de bens particulares e trocas constantes de usos, o mínimo a se fazer é documentar cada alteração introduzida. Tal precaução é de fácil execução e não se trata de nenhum exagero: é o mínimo a se exigir, em se tratando de prédios que chegaram até hoje em relativa integridade e que são, muitas vezes, os últimos representantes de determinados períodos.


O belo casarão Friedrich, exemplarmente bem conservado pela família, em Novo Hamburgo (RS). Hoje abriga um museu particular e mantém seu uso residencial, usos sustentáveis e que possibilitam a manutenção de sua integridade. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr./Setembro 2010)

É preciso ter em mente que, quando trabalhamos com um prédio histórico, temos em mãos um documento valioso que é portador de informações. De fato um documento "vivo", no qual as alterações e modernizações podem e devem somar ainda mais valores. Justamente por isso devem ser feitas com cuidado, conhecimento e com a devido registro das intervenções e motivações, que deve ser exigido pelas comissões responsáveis . Afinal, profissionais entram e saem dos seus cargos e a informação não documentada poderá se perder definitivamente.


A Casa Kaiser é um dos mais valiosos bens históricos do município de Novo Hamburgo (RS). Situada em Hamburgo Velho, data aproximadamente de 1850, e não tem hoje qualquer proteção legal. Trata-se da única construção enxaimel que ainda apresenta-se na sua quase originalidade, mantendo tanto sua estrutura quanto seus interiores com pouquíssimas intervenções, devido a manutenção do uso residencial pela família até alguns anos atrás. Hoje encontra-se desocupada. Seria lamentável neste caso específico uma reciclagem de uso que desfigurasse seu interior, por se tratar da única edificação enxaimel da cidade e uma das únicas da região a manter-se praticamente original. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr. / Agosto 2010)

Os critérios cultural e morfológico, bem como os demais (técnico, paisagístico, funcional, reconhecimento teórico e popular, etc) se entrelaçam e se complementam, de forma que não se pode julgar a partir de apenas um ponto de vista. Nos próximos artigos, buscaremos discutir um pouco sobre os demais critérios. Deixe sua contribuição nos comentários!

Texto: Jorge Luís Stocker Jr.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Apresentando... Picada 48 Alta, localidade de Ivoti (RS)

ATENÇÃO - ESTE ARTIGO NÃO DEVE SER REPRODUZIDOS SEM AUTORIZAÇÃO EXPRESSA.
O Rio Grande do Sul é muito deficiente na divulgação do patrimônio cultural da imigração alemã. As massas são conduzidas para os locais mais cenográficos possíveis, em detrimento da autenticidade. Oferecemos para o turista o que temos de pior em termos de preservação cultural, as “cidades temáticas” Gramado e Canela, e mais recentemente, Nova Petrópolis. O luxo forçado e o pretensioso clima europeu encanta os turistas, ao mesmo tempo que sobrepõe e elimina a simplicidade encantadora da cultura trazida pelos imigrantes alemães.
ESTE ARTIGO NÃO PODE SER REPRODUZIDO SEM AUTORIZAÇÃO EXPRESSA.

Casa enxaimel localizada em Picada 48 Alta (foto: Jorge Luís Stocker Jr.)
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A falta de um projeto amplo e adequado, com responsabilidade cultural, torna os locais mais autênticos pouco atraentes, pela falta de investimentos, atrativos de acesso público e mesmo de informações a respeito dos lugares. Assim é Picada 48 Alta, em Ivoti: um diamante em estado bruto, lugar muito simples, mas repleto de preciosidades prontas para serem apreciadas por quem seja capaz de reconhecê-las.
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Um pouco do cotidiano de Picada 48 Alta, em Ivoti (RS) (foto: Elis Regina Berndt)
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Picada 48 Alta situa-se no alto de um morro, com acesso por um dos trechos menos movimentados da Avenida Presidente Lucena. Devido a ter ficado fora da “rota” de passagem, esta localidade não teve o mesmo desenvolvimento alcançado pelo núcleo chamado Bom Jardim, hoje sede do município.
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Casa enxaimel em Picada 48 Alta, localidade de Ivoti (RS) (foto: Jorge Luís Stocker Jr.)
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As constantes enchentes do Arroio Feitoria teriam sido motivo para o desenvolvimento da Picada no alto do morro, e não na sua encosta. Tais enchentes foram ainda a causa da decadência do local conhecido como Buraco do Diabo, outrora centro regional, mas que ficou por décadas abandonado e, adquirido e restaurado pela administração municipal, é hoje principal ponto turístico de Ivoti [este local será apresentado em outro artigo].
Logo ao chegar na localidade, é possível visitar o Armazém Fritzen. O prédio, construído em técnica enxaimel, já serviu de Salão de Baile e é até hoje o principal ponto comercial.
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O Armazém Fritzen, construído em técnica enxaimel, ainda preserva características de venda colonial. (foto: Elis Regina Berndt.)
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Mais a frente, encontramos um interessante conjunto construído em técnica enxaimel. É possível observar a construção em separado de dois blocos: a residência e a cozinha (bloco menor). Este tipo de configuração foi muito comum na adaptação sul rio-grandense da técnica enxaimel utilizada na Alemanha . Enquanto na Alemanha rural o mais comum era um bloco único, aqui este bloco foi subdividido. A principal razão para esta separação era a prevenção de incêndios.
O mais interessante é que este modelo residência+cozinha, encontrado logo na entrada da localidade, vai se repetir quase uma dezena de vezes ao longo da Rua 48 Alta. Encontramos várias casas com estrutura praticamente iguais (desprezando adições e reformas posteriores), num raro caso de “modelo” reproduzido às dúzias numa mesma localidade.
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Conjunto residência + cozinha preservado em suas características originais. (foto: Jorge Luís Stocker Jr.)
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A localidade preserva até os dias atuais sua vocação rural. Saem da estrada principal diversas estradas particulares que levam até as suas respectivas plantações, ficando as residências enxaimel mais próximas da rua principal (algumas até hoje são sede das propriedades). Mais próximo a divisa com Dois Irmãos, as criações de muares na beira da estrada são um atrativo a parte.ATE
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Uma das tantas casinhas enxaimel construídas com a técnica original na Picada 48 Alta, em Ivoti (RS) (foto: Elis Regina Berndt.)
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Durante todo o caminho, também pode-se apreciar uma característica muito interessante das regiões rurais do Rio Grande do Sul, tanto de colonização alemã quanto italiana e açoriana: os muros de pedra, alguns deles já centenários. Estes muros delimitam áreas de plantação e áreas pastoris, além dos próprios limites da propriedade.
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Características rurais, com destaque ao muro de pedras delimitando a propriedade. (foto: Elis Regina Berndt).
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Picada 48 Alta não é atraente para o turismo de massas. É tampouco um local movimentado, devido a existência de outras estradas de ligação entre Dois Irmãos e Ivoti, melhores conservadas. É, no entanto, uma das poucas localidades da região metropolitana de Porto Alegre que preserva quase que integralmente suas características da época da colonização.
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Casa enxaimel com uso residencial em Picada 48 Alta (foto: Jorge Luís Stocker Jr.)
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É inegável a importância da técnica enxaimel como manifestação cultural autêntica, trazida pelos imigrantes alemães. Pela quantidade de construções enxaimel, a Picada 48 Alta é sem dúvidas, um núcleo rural muito relevante e com grande potencial a ser explorado de forma responsável. Torna-se urgente um levantamento abrangente, juntamente com ações de educação patrimonial, de forma a valorizar este conjunto e permitir que ele seja preservado para as próximas gerações.
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Texto: Jorge Luís Stocker Jr.

ATENÇÃO - ESTE ARTIGO NÃO DEVE SER REPRODUZIDOS SEM AUTORIZAÇÃO EXPRESSA.

Veja também:

- Site oficial da Prefeitura de Ivoti, com informações turísticas.

- Duas fotos de Picada 48 Alta no Panoramio, situadas no mapa [ 1 | 2 ]

segunda-feira, 16 de março de 2009

Apresentando... Santa Maria do Herval (RS)

ATENÇÃO - ESTE ARTIGO NÃO DEVE SER REPRODUZIDOS SEM AUTORIZAÇÃO EXPRESSA.
Em busca da história da imigração alemã no Rio Grande do Sul, o turista mais desavisado pode acabar no centro de Gramado, admirando prédios construídos a menos de uma década em estrutura de concreto. Já na pequena cidade vizinha, Santa Maria do Herval, a história se mostra teimosamente preservada – apesar de não haver nenhum dispositivo legal pela proteção do patrimônio.
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A tranquilidade de um domingo em Santa Maria do Herval, chamada de Teewald no dialeto local(foto: Jorge Luís Stocker Jr)
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Santa Maria do Herval está incluída na Rota Romântica. Apesar disso, não conta com qualquer estrutura turística. Pontos de interesse existem: são diversas casas enxaimel originais espalhadas pelo município e suas localidades. O problema, porém, é o de sempre. Não existe vontade política para efetivar o tombamento, ou para motivar a revitalização e restauro dessas construções.
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Casa de comércio, num estilo eclético típico da imigração alemã. O fechamento dos vãos seria facilmente reversível, num programa de revitalização dos prédios históricos. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr.)
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Isso, trocando em miúdos, mostra o despreparo da cidade em receber turismo e mesmo em preservar seu aspecto de cidade histórica da imigração alemã. Hoje, o turista pode passear por lá e se encantar com as casas em técnica enxaimel originais da imigração. Porém, quando voltar trazendo alguém junto para ver, pode não mais encontrar as mesmas construções. Afinal, nada garante a sobrevivência desse patrimônio.
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Caso interessante de residência em técnica enxaimel (rebocada), e anexo em alvenaria com telhado de quatro águas (Foto: Elis Regina Berndt)
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Apesar disso, a cidade preserva em sua área urbana alguns interessantes exemplares, a grande maioria tendo ainda hoje uso residencial. É interessante ver essas casas centenárias sendo utilizadas normalmente até hoje. Felizmente, não há na área urbana nenhuma casa abandonada.
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Casinha enxaimel com uso residencial, na área urbana do município. (Foto: Elis Regina Berndt)
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O dialeto Hunsrückisch
O mais interessante, porém, é o patrimônio imaterial do local. A língua oficial parece ser o dialeto Hunsrückisch (relativo a região do Hunsrick, de onde vieram os imigrantes alemães que se estabeleceram neste local a partir de 1854). É muito interessante caminhar pelo local e ver conversas em alemão dialeto acontecendo aqui e ali, algo em extinção nas antigas colônias mais desenvolvidas nos dias atuais, como Novo Hamburgo.
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Conjunto enxaimel construído em duas etapas, com uso residencial. (foto: Elis Regina Berndt)

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Divertido também, é entrar nas casas de comércio da região. Tudo que você perguntar, será provavelmente respondido em alemão, até que você informe que não domina o dialeto. Apesar de muito desconfiadas, após apresentações as pessoas se tornam muito receptivas.
Os olhares curiosos são frequentes, já que a quantidade de turistas que passam pela cidade ainda é quase nula, e os poucos que passam por ali dificilmente descem do carro para conhecer melhor o local.
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Relíquias Históricas

As duas grandes relíquias históricas da cidade são a Igreja de Nossa Senhora Auxiliadora, e o casarão enxaimel que abriga o Museu Histórico da cidade.
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A igreja de Nossa Senhora Auxiliadora destacando-se na paisagem local (Foto: Elis Regina Berndt )
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A igreja foi construída em 1909 e complementada em 1935, no belíssimo estilo neogótico. A impressão é de realmente estar visitando um templo na Alemanha rural, tal a precisão e o cuidado com o uso das formas históricas. A surpresa fica por conta do interior, onde se teve o cuidado de construir naves laterais e falsas abóbadas. As inscrições em alemão ajudam a construir este clima.
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O interior da igreja. Numa das abóbadas, lê-se a inscrição em alemão “Maria Mit Dem Kinde Liebe Uns Allen Deinen Segen Gibt” (Foto: Elis Regina Berndt)
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Destaca-se ainda o trabalho de marcenaria dos altares e púlpito, também com formas neogóticas. Nos altares, encontram-se três imagens trazidas de Munique (Alemanha), em 1870.
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Museu Municipal (foto: Jorge Luís Stocker Jr)
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Já na entrada da cidade, um casarão antigo chama atenção na paisagem da cidade. Trata-se do Museu Histórico Municipal, instalado no antigo casarão construído totalmente em técnica enxaimel de influência vestfaliana.
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Texto: Jorge Luís Stocker Jr.
Imagens: Elis Regina Berndt e Jorge Luís Stocker Jr.
Informações e imagens referentes a visita feita em 30.08.08.

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Leia também
História da Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Enxaimel em Hamburgo Velho

Apresentando... O Centro Histórico de Hamburgo Velho (Parte 2)
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Após a introdução histórica da parte I, seguimos agora apresentando o centro histórico de Novo Hamburgo, o bairro Hamburgo Velho.
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Hamburgo Velho em 1910. (Fonte: Enciclopédia Rio-Grandense)
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A técnica enxaimel
O enxaimel é uma técnica construtiva que consiste na montagem de uma estrutura independente de madeiras encaixadas – sem uso de pregos. O conhecimento construtivo veio com os imigrantes alemães, e foi aqui adaptado às necessidades e materiais encontrados na região.

Casa Schimitt-Presser, e a Fundação Scheffel em segundo plano (foto: Jorge Luís Stocker Jr.).
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As casas enxaimel foram construídas nos primórdios da colonização, consistindo na primeira forma de habitação definitiva. Mais tarde, a técnica seria substituída pelas construções de alvenaria no estilo eclético.
No bairro Hamburgo Velho, ainda hoje encontramos três exemplares desta técnica.
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Casa Schmitt-Presser
O mais importante exemplar de enxaimel de Hamburgo Velho, foi o primeiro representante desta técnica tombado pelo IPHAN. É possível observar que as vigas de madeira utilizadas na estrutura foram falquejadas de maneira rudimentar.
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Viga falquejada na casa Schimitt-Presser(foto: Jorge Luís Stocker Jr.).
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A Casa Schmitt-Presser abrigava o importante entreposto comercial citado no primeiro texto da série, devido a sua excelente localização.
Abriga hoje um museu, com acervo relativo à imigração alemã.
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Casa Kayser

Casa Kayser em 2009, depredada (foto: Elis Regina Berndt)
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Sobrado construído em enxaimel, apesar de ter sido inteiramente rebocado, com acréscimo inclusive de um friso na fachada. Ainda é possível observar a marcação das vigas de madeira pelo reboco nas laterais e fundos.
Seu interior ainda é bastante original, contando com mobiliário da padaria que já funcionou no local.
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Fundos da Casa Kayser, onde aparecem as vigas através do reboco. Ao fundo, a Igreja dos Reis Magos (IECLB) e ao lado, ruínas do Evangelische Stift (foto: Jorge Luís Stocker Jr.).
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Infelizmente, apesar de sua importância como exemplar da técnica, a casa não é tombada a nenhum nível. Encontra-se desocupada desde o falecimento dos proprietários. Suas esquadrias estão em avançada degradação.
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Esquadria degradada na casa Kayser (foto: Elis Regina Berndt)
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É inegável seu potencial para atividades culturais, ou até mesmo um museu, devido ao seu relativo bom estado de conservação do mobiliário original.

Casa Ody
Havia no local um importante exemplar de enxaimel, datado provavelmente de 1850. Infelizmente foi demolido e reconstruído com materiais atuais, um equívoco comum em algumas das “restaurações” realizadas no bairro.
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A casa Ody original, nos anos 90. Foto cedida por Paulo Dias Nunes.



A réplica construída no local (foto: Jorge Luís Stocker Jr.).
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O bairro perdeu assim um interessante exemplar de arquitetura vernacular, recebendo em substituição, uma lamentável réplica. Espera-se que este não seja o triste destino da Casa Kayser.

Texto: Jorge Luís Stocker Jr.

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Leia também

- Arquitetura da Imigração Alemã no Brasil (livro)- Arq. Günter Weimer

- Uma Venda Alemã - matéria sobre a Casa Schimitt-Presser