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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Hoje, 17 de agosto, comemora-se o Dia Nacional do Patrimônio Histórico.

Nós, brasileiros e gaúchos, certamente temos muito a comemorar. Afinal, somos um estado plural como o Brasil e portanto, nosso patrimônio cultural é muito diversificado.

Podemos comemorar o nosso legado missioneiro, muito bem expresso pelas ruínas de São Miguel Arcanjo, declaradas patrimônio da humanidade pela UNESCO. Além delas, as dezenas de imagens religiosas esculpidas pelos índios catequizados e pelos jesuítas que nosso Estado ainda abriga .

Uma das imagens missioneiras em exposição permanente no Museu Júlio de Castilhos, em Porto Alegre (RS). (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2009)

Comemoremos, quem sabe, a imigração açoriana que completará 260 anos em 2012. Crucial para nossa identidade enquanto gaúchos, nos legou cidades históricas como Triunfo, Santo Amaro, Pelotas, Rio Pardo e tantas outras, que até hoje guardam em suas ruas a história
deste povo tão simples, receptivo e acolhedor.


Um pouco do cotidiano tranquilo da Vila de Santo Amaro, em General Câmara (RS). (foto: Jorge Luís Stocker Jr/2008)
Casarão Mendonça, em Pelotas (RS). (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2011)
Um pouco do conjunto histórico colonial de Triunfo (RS). (foto: Elis Regina Berndt/2008)

E o que dizer do expressivo contingente de imigrantes alemães que aqui se instalaram, a partir de 1824, na colônia imperial de São Leopoldo e posteriormente, espalharam-se por colônias particulares em todo a extensão do Rio Grande do Sul? Nosso estado abriga lugares de memória inigualáveis, como o conjunto histórico de Ivoti (RS), o conhecido Buraco do Diabo, tombado pelo IPHAN, compreendendo a Ponte do Imperador e o núcleo de casas enxaimel; e o conjunto urbano de Dois Irmãos (RS), com suas dezenas de casas históricas devidamente tombadas pela Prefeitura Municipal. E não esqueçamos a Casa Schmitt-Presser, de Novo Hamburgo, primeira residência enxaimel tombada pelo IPHAN. Fantástico exemplar de arquitetura nesta técnica construtiva.
Casa Schmitt-Presser, primeiro enxaimel tombado pelo IPHAN nos anos 80. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)
A Av. São Miguel, de Dois Irmãos (RS), apresenta uma série de casas históricas. É bastante significativa a quantidade de bens tombados pela municipalidade nesta via. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2009)

E como esquecer os imigrantes italianos, aqueles que enfrentaram os terrenos íngremes e hostis da serra gaúcha, a partir de 1870? Esta imigração nos legou um pujante setor vitivinicultor, de qualidade reconhecida internacionalmente. Indispensável lembrar a bela Antônio Prado, patrimônio nacional pelo IPHAN com suas dezenas de casarões centenários de madeira, e a recentemente tombada Santa Tereza, não por conta do valor de alguns bens históricos em particular, mas pelo conjunto harmônico que compõe sua paisagem cultural típica.

A bela paisagem urbana típica de Santa Tereza (RS). (Foto gentilmente cedida por Rene Hass)

Os casarões típicos de Antônio Prado (RS). (foto gentilmente cedida por Rene Hass).

E as imigrações polonesa, judaica, pomerana, e a população afro-descendente, que tanto moldaram nossa cultura? Entre tantas influências, eis o povo gaúcho. Representado não apenas aquele cidadão pilchado com a vestimenta fetichizada pelo MTG, mas por todos cidadãos
destas terras ao sul do Brasil, onde muitas culturas vieram somar sua contribuição a um todo que ainda pulsa e vibra.

Temos muito a comemorar, sim.

Mas infelizmente, nossa comemoração será limitada. Pois aos poucos, estes motivos para comemoração vão se esvaindo. O ritmo com que nossa diversidade cultural é valorizada ainda não acompanha, nem de longe, a velocidade com que bens insubstituíveis vão desaparecendo do nosso imaginário e das nossas cidades.
A educação patrimonial ainda é incipiente. Ofegante, corre para deter a fúria do mercado imobiliário, que deseduca e atropela diariamente referências culturais sem deixar rastros. Não consegue, e nunca vencerá sozinha e a tempo esta luta inglória.

A comemoração é, portanto, feita com tristeza e esperança.

Esperança de que, algum dia, finalmente a Prefeitura Municipal de Campo Bom (RS) reconheça a importância de sua história. Que o primeiro cemitério da imigração alemã construído no Rio Grande do Sul, hoje em ruínas, venha a ser valorizado, em reconhecimento aos imigrantes alemães ali enterrados nos primeiros anos da colonização. Que seja tombado o templo evangélico, por sua importância como marco urbano na paisagem já tão descaracterizada.
Lápides de valor inestimável estão abandonadas e sujeitas a depredação em Campo Bom (RS). (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2009)

... de que o centro histórico de Hamburgo Velho, no entorno imediato da Casa Schmitt-Presser, venha um dia a ser devidamente oficializado e tombado como sítio histórico. Que deixe de ser um corredor de passagem do trânsito em um bairro fantasma, que volte a ter vida, a pulsar cultura. Que receba um mobiliário urbano adequado à sua importância.

A Casa Kayser, enxaimel, e o antigo Evangelisches Stift/Lar da Menina, tombado e arruinado; em Hamburgo Velho, bairro de Novo Hamburgo (RS). (Foto: Jorge Luís Stocker Jr./2011)

... que Ivoti se conscientize de que não é saudável relegar apenas ao núcleo de casas enxaimel tombado o papel de representar sua história. Uma série de residências e prédios históricos ainda pedem socorro pela Av. Presidente Lucena, outros muitos já sumiram, com autorização da própria administração. Outros, apesar de tombados pela municipalidade, correm o risco de perder sua ambientação devido a intervenções grosseiras no seu entorno.
Um dos remanescentes conjuntos na Av. Predidente Lucena, de Ivoti, a cada dia mais descaracterizada, com incentivo de um plano diretor permissivo e a valorização apenas do núcleo histórico afastado e desvinculado da malha urbana. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2007)

...de que São Leopoldo faça jus ao título recebido oficialmente em 2010, de Berço da Imigração Alemã no Brasil, e valorize as migalhas que sobraram de seu centro histórico realizando um inventário completo e digno. Que enfim, não aconteçam mais casos alarmantes como a infeliz construção do novo centro admnistrativo, que tristemente, segue em andamento, juntamente com a erradicação autorizada dos últimos bens culturais ao longo da rua Grande/ Independência.

Construção em andamento, substituindo um prédio Art Déco (link) que fazia conjunto com o remanescente que ainda aparece à esquerda. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2011).

... de que a cidade de Ilópolis saiba dar prosseguimentos à ação desencadeada pelo Museu do Pão, e agilize-se para valorizar os últimos casarões autênticos que ainda guarda em seu território urbano. Eles não são apenas velhos casarões de madeira italianos, e vão bem além de potencial turístico. Eles são parte da história da população local, e sem elas, a cidade perderá seu significado.
Um dos casarões restantes na área central de Ilópolis (RS), que ainda não contam com nenhum tipo de proteção. (Foto: Elis Regina Berndt, 2008).

... de que a nossa capital Porto Alegre dê atenção especial ao seu centro histórico, tirando do abandono e depredação bens importantíssimos como o Viaduto Otávio Rocha, tombado. Mas que também não siga permitindo a demolição de bens históricos valendo-se de critérios exclusivistas e que não levam em conta a diversidade e a inserção das edificações em um conjunto.
E assim poderíamos citar uma infinidade de casos que clamam por atenção e por uma solução.
Viaduto Otávio Rocha, tombado, agoniza em Porto Alegre (RS). (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010).

...Enfim, as tristezas são várias, mas as esperanças são muitas. Enquanto o futuro é apenas esperança, vamos continuar desempenhando nosso humilde papel, que é utilizar a ferramenta que temos em mãos (internet) para divulgar e problematizar a continuidade do patrimônio cultural.

“Só a democracia participativa, aliada à informações e educação, poderá assegurar que as escolhas certas serão utilizadas”
(Jacques Dalibard)

A população precisa estar preparada e munida de informação para exercer sua cidadania. Dadas as condições atuais, no deserto em que predomina apenas a (des)educação promovida pelo mercado imobiliário, é impossível esperar engajamento social nesta luta.

Os problemas existem, mas precisam ser divulgados para que sejam solucionados. O patrimônio precisa ser, enfim, visto para ser apropriado pela população.

Parabéns, patrimônio cultural gaúcho.

Jorge Luís Stocker Jr.

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Veja também:

Protesto organizado pela Defender em Porto Alegre, marcando o dia Nacional do Patrimônio Cultural:
[ vídeo | notícia 1 | notícia 2 | notícia 3]

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Por que tem valor? Discutindo os critérios para a seleção de bens históricos - Parte I

Em qualquer tipo de estudo ou trabalho relacionado ao patrimônio construído, costuma ser nítida a ausência de critérios rígidos utilizados para afirmar, de modo definitivo, que um bem histórico é portador ou não de valores que determinem a necessidade de sua preservação. Deixando de lado qualquer tipo de dogmatismo, e munindo-se de conhecimentos, sensibilidade e principalmente bom senso, pode ser possível chegar a um resultado que seja o mais satisfatório possível.

Casa de caráter historicista, bastante tardia (1949), localizada entre Jammerthal e Joaneta, em Picada Café (RS): seu valor histórico poderia eventualmente ser contestado pela aplicação tardia destas formas históricas então já ultrapassadas. Mas esta adoção tardia de formas e da volumetria típica dos anos 10-30 nas cidades mais desenvolvidas de imigração alemã, pode ser bastante significativa historicamente: uma casa de caráter tão germânico, em plena campanha de nacionalização, e tão tradicional, em tempos de modernização, só seria possível em lugares muito isolados geograficamente. (Foto: Elis Regina Berndt/ Março 2010)

O patrimônio histórico construído tem uma inegável importância para as cidades, assunto que já discutimos em diversos artigos do Die Zeit. No entanto, como definir o que, de fato, é patrimônio? É nítido que não devemos nos restringir apenas aos bens históricos já tombados ou indicados para preservação. Afinal, o tombamento não determina o valor de um bem, apenas o declara oficialmente. Mas então, quais edificações são, de fato, portadoras de valores que a tornem merecedoras de proteção?

Casa neo-colonial, uma das últimas das tantas que caracterizaram o centro de Torres (RS): terá algum significado pra cidade? O sufocamento da casa pelas edificações lindeiras antecipa seu destino. (foto: Jorge Luís Stocker Jr/ Janeiro 2010)


Primeiramente, a única certeza que podemos ter é que não existe nenhuma resolução definitiva sobre o assunto. Na busca por embasamento, nos depararemos com a legislação, que no geral chega a ser bastante completa a respeito do tema, mas reticente e vaga quando aplicada em situações práticas; com as convenções e cartas patrimoniais, normalmente contraditórias quando aplicadas sem a análise dos seus contextos históricos, e ainda com a produção intelectual existente - que apesar de importantíssima e ótimo ponto de partida, é arriscada quando adotada sem a problematização necessária. Qualquer uma dessas fontes, adotada sem senso crítico e profunda reflexão, pode encorajar atitudes precipitadas. Num assunto onde tudo é tão subjetivo, é praticamente impossível adotar uma postura única e rígida que não analise cada caso como um caso único.
Com este artigo, pretendemos deixar nossa modesta contribuição para o tema, levantando questões, opiniões e exemplos para discutir formas e critérios que ao nosso ver deveriam nortear a seleção e preservação de bens históricos representativos do nosso patrimônio cultural.

O valor cultural

Mais conhecido de todos, e de maior aceitação, o valor cultural de um bem diz respeito a seu histórico e importância afetiva. Tem valor cultural os exemplares que ilustrem ("contem") uma história importante para a cidade, que tenham abrigado personalidades ou sejam características de algum grupo social, que representem uma cultura diferenciada (como a imigratória), e/ou que tenham importância social, como referencial afetivo. Também em alguns casos, pode ser considerado um exemplar que, ainda que hoje isolado, represente determinado período histórico de uma rua ou bairro.

É talvez o critério mais amplo, considerando-se que a "importância" de cada evento ou período histórico é muito relativa.


Casa eclética com a volumetria típica das regiões de imigração alemã, situada em Sander - bairro de Três Coroas (RS). Por muitos anos o estilo eclético foi considerado sem qualquer valor cultural e mera cópia de um estilo europeu. Em alguns casos ainda se mantém este preconceito, o que se torna um absurdo quando, como neste exemplo, é possível relacionar peculiaridades regionais tanto na volumetria quanto na espacialidade dos prédios. Sem pesquisa, é impossível determinar o valor de um bem! (foto: Jorge Luís Stocker Jr./ Agosto 2010)

Não podemos esquecer que, para conhecer o valor cultural de um prédio, é preciso bem mais do que uma simples visita de levantamento fotográfico e confecção imediata de laudo assinado por profissional legalmente habilitado (e algumas vezes, teoricamente bitolado): a pesquisa oral, documental e bibiliográfica é imprescindível para que se consiga obter dados que ajudem a contextualizar a edificação, sua origem e histórico. É impossível adivinhar o valor cultural de uma edificação através de uma fotografia ou ficha de inventário incompleta e portanto, é completamente hipócrita negar seu valor histórico sem que se tenha procedido uma pesquisa completa e competente. Decisões importantes como esta não podem ser tomadas precipitadamente, na pressa e de portas fechadas, por uma pessoa ou comissão responsável que não tenha respaldo representativo da sociedade e entidades interessadas no assunto.


As poucas edificações modernistas realmente significativas do ponto de vista arquitetônico, como a sede da Previdência Social em Sapiranga (RS), certamente tem um valor morfológico muito acentuado, embora ainda encontrem intensa contrariedade. No entanto, principalmente nas capitais, aos poucos vão encontrando sua valorização através da ampliação das pesquisas de mestrado e doutorado na área e do próprio distanciamento temporal que vai crescendo. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr/ Julho 2010)

O estado de conservação do bem em questão também costuma ser a justificativa para demolições. Oferecer risco aos transeuntes é realmente crítico, mas as providências tomadas devem vir em encontro à valorização e preservação do valor cultural do bem, e não sua erradicação através de demolição. Desta forma, ao invés da resolução de um problema, gera-se outro: um vácuo histórico e cultural irreversível para as nossas cidades já sequeladas e desmemoriadas. O mau estado de conservação pode prejudicar e colocar em risco o valor cultural, mas de modo algum o elimina. Não podemos esquecer ainda que, o próprio estado de ruínas de um edifício pode ser muito representativo e seu restauro ou consolidação enquanto ruína pode ser uma forma de educação patrimonial.



O prédio do antigo Evangeliches Stift e posteriormente Lar da Menina, em Novo Hamburgo, encontra-se em ruínas desde um incêndio nos anos 90, e se desintegrou lentamente ao longo dos anos. Felizmente foi tombado a nível municipal, como reconhecimento ao seu inestimável valor cultural - mesmo no atual estado de ruínas. Nos parece importante que não se reconstrua ou recomponha a fachada exatamente tal como se apresentava antes do incidente, como forma de educação patrimonial: seria demonstrar erroneamente que o patrimônio pode ser facilmente reconstruído, comprovando que erros como descaso e demolições são reversíveis posteriormente. As soluções para seu restauro deveriam, preferencialmente, recompor os volumes mas manter uma forma de valorizar esse arruinamento que faz parte da história da edificação. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./Agosto de 2010 e Acervo Pref. NH)

Necessário dizer, no contexto atual onde vemos é uma completa desfiguração da cidade tradicional, com a existência de apenas poucas migalhas históricas espalhadas pelas cidades, somos da opinião de que TODO e QUALQUER bem de interesse cultural que tenha chegado aos dias atuais em relativa integridade DEVE ser mantido. Ou, no mínimo, deve-se analisar muito profundamente a real necessidade de sua demolição. A quem ela beneficia? Que prejuízos ela traz? Frisando que a situação atual já é crítica, e que qualquer argumento que inclua a possibilidade de "congelamento da cidade" é fajuto (pois os prédios históricos são minoria inconteste) acreditamos ser praticamente impossível que a melhor opção seja a demolição em casos de bens realmente portadores de valor cultural.

O valor morfológico da arquitetura

A qualidade do projeto arquitetônico é, talvez, o conceito mais aceito e aplicado por arquitetos, e também no geral encontra bom respaldo popular. Quando se avalia o valor arquitetônico de uma edificação, se pesa a sua representatividade enquanto exemplar de determinado período estilístico, ou seja, sua filiação (ou reação) a determinada escola. Além de considerar-se a qualidade estética das fachadas, também deve ser avaliada a qualidade e/ou peculiaridade da distribuição espacial.


A Casa Soine, de 1914, situada em Dois Irmãos (RS) é um exemplar de inegável valor morfológico: apesar da relativa simplicidade, nota-se uma aplicação criteriosa e erudita de formas históricas. Tem também seu inestimável valor cultural, enquanto representante da arquitetura residencial em zonas de imigração teuta naquela década (Foto: Elis Regina Berndt/Dezembro 2009)

A planta-baixa das casas antigas, quando ainda reconhecíveis, podem ser uma fonte documental importantíssima para o entendimento das transformações econômicas e sociais. O espaço interno deve ser mantido sempre que possível, obviamente com a devida compatibilização com os novos usos. No entanto, como dificilmente é possível no caso de bens particulares e trocas constantes de usos, o mínimo a se fazer é documentar cada alteração introduzida. Tal precaução é de fácil execução e não se trata de nenhum exagero: é o mínimo a se exigir, em se tratando de prédios que chegaram até hoje em relativa integridade e que são, muitas vezes, os últimos representantes de determinados períodos.


O belo casarão Friedrich, exemplarmente bem conservado pela família, em Novo Hamburgo (RS). Hoje abriga um museu particular e mantém seu uso residencial, usos sustentáveis e que possibilitam a manutenção de sua integridade. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr./Setembro 2010)

É preciso ter em mente que, quando trabalhamos com um prédio histórico, temos em mãos um documento valioso que é portador de informações. De fato um documento "vivo", no qual as alterações e modernizações podem e devem somar ainda mais valores. Justamente por isso devem ser feitas com cuidado, conhecimento e com a devido registro das intervenções e motivações, que deve ser exigido pelas comissões responsáveis . Afinal, profissionais entram e saem dos seus cargos e a informação não documentada poderá se perder definitivamente.


A Casa Kaiser é um dos mais valiosos bens históricos do município de Novo Hamburgo (RS). Situada em Hamburgo Velho, data aproximadamente de 1850, e não tem hoje qualquer proteção legal. Trata-se da única construção enxaimel que ainda apresenta-se na sua quase originalidade, mantendo tanto sua estrutura quanto seus interiores com pouquíssimas intervenções, devido a manutenção do uso residencial pela família até alguns anos atrás. Hoje encontra-se desocupada. Seria lamentável neste caso específico uma reciclagem de uso que desfigurasse seu interior, por se tratar da única edificação enxaimel da cidade e uma das únicas da região a manter-se praticamente original. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr. / Agosto 2010)

Os critérios cultural e morfológico, bem como os demais (técnico, paisagístico, funcional, reconhecimento teórico e popular, etc) se entrelaçam e se complementam, de forma que não se pode julgar a partir de apenas um ponto de vista. Nos próximos artigos, buscaremos discutir um pouco sobre os demais critérios. Deixe sua contribuição nos comentários!

Texto: Jorge Luís Stocker Jr.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Falando um pouco dos inventários...

A preservação do patrimônio cultural brasileiro encontra, no geral, empecilhos que já deveriam estar superados há muitas décadas. A falta de políticas municipais é o maior deles, e apenas reflete o ócio da sociedade na valorização do seu legado. O primeiro passo - inventariar o que existe - acaba sendo permeado de interesses políticos econômicos ou preconceitos ideológicos, impedindo uma correta valorização do patrimônio enquanto integrante e agente qualificador do espaço urbano.


Na cidade de Santa Maria do Herval (RS), a inexistência de qualquer tipo de levantamento torna frequente casos como este: edificações centenárias em técnica enxaimel são demolidas para dar lugar a prédios comuns da rotina imobiliária, que poderiam ser construídos em qualquer outra área livre da malha urbana. O patrimônio, que deveria articular o espaço urbano, some e dá lugar a falta de harmonia. (fotos: Elis Regina Berndt / 2008 e Jorge Luís Stocker Jr/2010)


Os inventários e seus critérios restritivos

O inventário do patrimônio cultural é sem dúvidas um importante instrumento: pode-se dizer que seja uma espécie de primeiro passo para o conhecimento das edificações e conjuntos importantes existentes no município. O produto do inventário é o conjunto de fichas-padrão, preenchidas com informações detalhadas específicas sobre a arquitetura e histórico de cada bem cultural, acompanhadas de levantamento fotográfico. Caso encontre o devido respaldo na legislação municipal e plano diretor, poderá se tornar o mais importante aliado na preservação e valorização do patrimônio cultural.

Quando o poder público toma a decisão de inventariar o legado arquitetônico, é recorrente que o trabalho seja feito pelo próprio corpo técnico das prefeituras. Este, embora devidamente capacitado, normalmente sofre a falta da autonomia necessária. Nestes casos, aparecem pressões de ordem política e econômica, alheias ao conhecimento científico, surgindo de critérios absurdos para a seleção das edificações: busca-se exemplares íntegros, sem alterações externas ou internas em relação ao estado original, e situadas em um entorno homogêneo ou harmônico. Busca-se, em suma, edificações em perfeito estado de conservação e, de preferência, aquelas cujos proprietários vejam a questão patrimonial com bons olhos e que "aceitem" ter seu bem tido como histórico.

Estes critérios, que seriam mais adequados para um passo maior, o tombamento municipal, acabam sendo adotados já para o filtro inicial, o inventário. Municípios com centenas de bens patrimoniais e conjuntos acabam limitando seu inventário a algumas dezenas de edificações, "as mais importantes e significativas". Com isto, limita-se ainda mais o universo de bens efetivamente tombados e protegidos integralmente: apenas aqueles "monumentais", segundo versam os antigos critérios, deveriam permanecer como monumentos históricos.
O inventário perde, então, o que deveria ser sua finalidade. Esperar-se-ia uma fonte completa de informações, devidamente mapeadas, a partir das quais seja possível separar e classificar os bens históricos por níveis de preservação (os que deveriam ser preservados na sua integridade, os que poderiam ser readequados internamente para novos usos com sensíveis alterações, ou mesmo os que poderiam ser desfigurados mantendo somente sua volumetria.)

Outro grande problema, é a adoção de critérios antiquados e preconceituosos para a seleção de bens. O inicialmente difamado estilo eclético já é hoje devidamente aceito como autêntico e histórico, no entanto, prédios pouco mais recentes que estes ainda encontram dificuldades. Pequenas cidades, cujo período de maior expressão foi influenciado pelo Art Deco, por exemplo, esbarram no desconhecimento da própria existência destas manifestações no município. Exemplares proto-modernos e do movimento moderno sequer são cogitados nas listagens. Isso se agrava pela inadequação das fichas padrão em relação as técnicas construtivas modernistas. A sua construção "muito recente" (embora alguns já datem dos anos 40) são a alegação mais comum quanto a exclusão destes bens nos inventários.


Duas edificações Art-Deco de Três Passos (RS). A cidade alcançou seu auge por volta dos anos 50, sendo característico da cidade este estilo, simplificado para o uso local. Não há registros de valorização deste legado. (fotos: Jorge Luís Stocker Jr/2010)

Os estilos historicistas, como o Missões / Mexicano / Californiano e os neo-medievais, encontram além da data de construção, o próprio preconceito cultivado dentro das escolas de arquitetura contra estes estilos. Por não se alinharem com a estética modernista vigente em suas épocas (majoritariamente até os anos 50), estes bens são considerados bregas, cenográficos, meros produtos imobiliários e desprovidos de qualquer valor histórico. No entanto, em muitos casos foram dentro destes estilos que surgiram os primeiros exemplares a apresentarem uma implantação diferenciada em relação ao lote, com recuos laterais ajardinados, aparecimento da garagem, aplicação de estratégias de conforto ambiental, técnica construtiva em concreto armado e uma série de novidades que são inegavalmente importantes e que justificam sua preservação. A própria existência de conjuntos homogêneos deste estilo deveria ser mais valorizada e levada em consideração, sob o risco de estarmos repetindo o mesmo erro cometido inicialmente contra o estilo eclético, e que abriu precedente para inúmeros crimes.


Esta casa em estilo missões, demolida em 2009 na cidade de Novo Hamburgo, ilustra a falta de atenção às edificações deste estilo. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr/2008)

Mas o que resta dizer, quando grande parte dos municípios não superou sequer este primeiro pequeno passo? Na maioria dos municípios inexiste sequer uma lista simples, quanto menos inventário ou tombamento. A meia dúzia de informações desencontradas existentes nas prefeituras destas cidades são arquivadas ou registradas nos mais diversos lugares e formatos e se perdem entre uma gestão e outra. A falta de bancos de dados digitais, constantemente atualizados e de fácil consulta, impedem a gestão adequada do patrimônio e dificultam sua própria divulgação.



Os inventários desmoralizados

Muitos municípios concluíram seu inventário do patrimônio cultural há bastante tempo. É o caso de cidades como Canoas, Sapiranga e Campo Bom (RS), que tem em comum o fato de terem realizado o inventário nos anos 90.

Era, então, ainda uma novidade a "abertura" dada pelos institutos de patrimônio às edificações relacionadas a imigração alemã, por exemplo. Mas, escassamente estudadas que eram até então, muitos exemplares seriam ignorados pela falta de informações que embasassem sua importância cultural.

A falta de respaldo na legislação municipal e a série de demolições que aconteceriam, muitas vezes durante o próprio processo de pesquisa, acabaram por desmoralizar estes levantamentos. Estes inventários não tem, hoje, nenhuma aplicação prática, sendo no máximo timidamente citados em planos diretores, audiências públicas e afins: o Inventário do Patrimônio Cultural, que deveria ser um instrumento importante, se torna um simples arquivo engavetado. Um mero e inutilizado conjunto de "registros históricos" do que a cidade TEVE até determinado ano, utilizados como forma de "cumprir o estatuto das cidades" com a manutenção de planos diretores fantasiosos e ineficientes, sem qualquer aplicabilidade no mundo real.


Exemplar do eclético típicos das áreas de colonização alemã, em Sapiranga (RS). Algumas vezes quando não estão demolidos, os bens inventariados encontram-se comprometidos em seu conteúdo histórico. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)

Tais adjetivos podem ser atribuídos ao inventário da cidade de Campo Bom. O estudo deste inventário, procedido pelo autor como exercício acadêmico no ano de 2009, demonstra seu "resultado prático": dos já poucos 57 bens listados em 1996, 12 hoje já se encontram completamente demolidos e 07 severamente danificados (desfigurados ou em ruínas).


Casos como o da Casa Moraes de Campo Bom são recorrentes: apesar de inventariados, são demolidos sem qualquer iniciativa da Prefeitura ou mesmo manifestações da sociedade. Esta casa foi esquecida tão rapidamente quanto demolida. (Foto: Inventário do Patrimônio Cultural de Campo Bom/1996)

Restam, portanto, apenas 37 bens 'praticamente' conservados, embora isso se deva ao puro acaso - não há nada que os proteja da demolição. Não apenas a falta de informação, especulação imobilária ou desinteresse dos proprietários explica tal resultado: a ineficiência e falta de interesse do poder público, aliado a conivência da sociedade, completam o triste caso. Lamentavelmente, se trata de uma das primeiras colônias alemãs no Brasil, que hoje tem muito pouco a mostrar aos seus visitantes e muito pouco a cultivar entre seus moradores.

Um quadro que começa a mudar

Felizmente, nem tudo são lamentações: na cidade de Canoas (RS), após mais de uma década da conclusão do inventário, e depois de muitas demolições, o assunto começa finalmente a ser levado a sério pelo poder público local.

A Prefeitura de Canoas, desde 2009, tem buscado sistematicamente tombar os prédios históricos inventariados do município. A cidade, fragilizada em sua identidade pelo crescimento explosivo, pela proximidade com a capital e ainda pelas "chagas urbanas" abertas pela linha superficial do trensurb e pela BR-116, finalmente volta os olhares aos pequenos mas significativos exemplares do charme e da riqueza do seu patrimônio cultural.


Villa Nenê, recentemente tombada na cidade de Canoas (RS) (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)

Já foram tombadas a Villa Mimosa, Villa Nenê, Casa dos Wittrock, Igreja Matriz, Antiga estação férrea e Casa dos Rosa, sendo dois destes bens de propriedade privada. São passos importantes e que não podem parar por aí. Ainda existem poucas, mas importantes edificações que deveriam ser preservadas, estejam elas inclusas ou não no inventário anteriormente produzido. São o pouco que restou e que, devidamente pensadas e incluídas em projetos eficientes, podem ser reapropriados pela memória afetiva da população local.



Casas históricas de Canoas (RS), ambas da década de 20 e que deveriam ser urgentemente valorizadas. São das poucas edificações ainda existentes representantes existentes de um período determinante para a história do município, e não podem ser marginalizadas no planejamento urbano. (fotos: Jorge Luís Stocker Jr/2010)

Texto: Jorge Luís Stocker Jr.
Imagens: Elis Regina Berndt e Jorge Luís Stocker Jr.

Leia também:

- Notícias de tombamentos em Canoas (RS): [ 1 - 2 - 3 - 4 - 5 ]

- Manual de inventário do IPHAE-RS

terça-feira, 22 de junho de 2010

Motivos para preservação do patrimônio e as destruições em Novo Hamburgo (RS)

Com políticas de preservação ineficazes ou inexistentes, edificações valiosas que identificam a região de imigração alemã do Rio Grande do Sul sucubem às pressões do mercado imobiliário.
ATENÇÃO: ESTE ARTIGO NÃO É CONTEÚDO LIVRE E SÓ PODE SER REPRODUZIDO TOTAL OU PARCIALMENTE SOB AUTORIZAÇÃO EXPRESSA DOS AUTORES.
Preservar não (apenas) pelo belo, mas pelo conteúdo


Casa demolida em junho/2010, sob aprovação do poder público, no centro de Novo Hamburgo: uma das pioneiras do padrão volumétrico que marcaria as colônias alemãs e que surgiu na cidade. (foto: Jorge Luís Stocker Jr.)
ESTE ARTIGO NÃO DEVE SER REPRODUZIDO SEM AUTORIZAÇÃO EXPRESSA
O patrimônio cultural brasileiro têm sido depredado e destruído dia após dia. Quando muito, ouvem-se lamúrias que buscam valorizar a "beleza"dos prédios antigos, em contraponto à padronização e falta de senso artístico da produção atual. Porém, mais do que um "regojizo" para o olhar, os prédios antigos desempenham muitas funções importantes dentro do tecido urbano.
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A mais importante das funções talvez seja a sua própria materialidade como "documento histórico". O prédio como um todo pode ser analisado de forma a encontrar respostas e perguntas sobre determinados períodos - as soluções construtivas revelam a procedência do conhecimento técnico e aspectos culturais da sociedade que o construiu, bem como o estágio de evolução tecnológica. Já a organização espacial diz muito sobre o modo de vida, aspectos sociais relevantes, entre outras. Até mesmo as modificações dos prédios através dos tempos, podem ser ricas fontes sobre as mudanças de valores estéticos, sociais e como eles se manifestaram na construção.
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Maquetes (reais ou virtuais), levantamentos, fotografias: nada pode substituir o valor de um prédio histórico na sua integridade, justamente por ser uma fonte não terceirizada, da qual podemos extrair informações e interpretações diretamente, sem resíduos interpretativos ou erros acumulados.
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Exemplo de conjunto importante, abandonado pelos olhares da sociedade. Situa-se na rua Marcílio Dias, em Novo Hamburgo (RS). Apesar do seu inestimável valor histórico, as casas deste padrão volumétrico típico das regiões de imigração alemã são desprezadas, e por este motivo, constantemente demolidas ao ponto de estarem próximas do desaparecimento. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2009)
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Considerando a cidade, novamente os prédios históricos desempenham importante papel, ainda que estejam deslocados de um conjunto homogêneo e isolados em suas características de época. Eles são responsáveis pela sensação de continuidade, esta "ponte" que nos permite conhecer e reconhecer o passado, tendo assim segurança para viver o atual e o futuro. Esta sensação agradável deriva da facilidade de entendimento: tudo aquilo que pode ser entendido e linearizado nos traz mais segurança. Uma cidade sem referenciais (sejam marcos históricos ou contemporâneros, monumentos, etc.) é carente de identidade, e traz por isto insegurança, dificuldades de localização, além da falta de "apego" pelo local de morada.
ESTE ARTIGO NÃO DEVE SER REPRODUZIDO SEM AUTORIZAÇÃO EXPRESSA
É possível, através da preservação de exemplares autênticos, datar de forma confiável a existência de determinadas vias e sua configuração estética e social em determinadas épocas.
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O bem histórico é insubstituível na sua condição de documento
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É recorrente que, na atualidade, se faça amplos levantamentos históricos e fotográficos, além de séries de entrevistas orais que procuram "resgatar" a história das cidades. Desta forma, deixa-se "vestígios" e registros para posteriores pesquisas, visto que é provável a perda definitiva destas memórias e do aspecto destes prédios e lugares. Instrumentos de preservação previstos constitucionalmente, os inventários muitas vezes tem sido empregados com esta função reduzida de "deixar registros".
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O mais triste de tudo é que sabemos: história escrita e interpretada é sim, importantíssima, porém, não faz parte do cotidiano da população. Assim como "a cura para o câncer" não faz parte da pauta e do dia-a-dia de todos os moradores da cidade, também o estudo da história e seus meandros é irrelevante para estas pessoas. A memória da dona Maria, de fato e infelizmente, não vai interessar de forma alguma a dona Joana.
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O valor do patrimônio também reside no seu significado atual
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E é aí que reside um dos maiores valores do patrimônio cultural material: Ele pertence sim a um mundo que já não existe, nasceu no passado - porém, pode fazer sentido e pode ser vivenciado no mundo presente!
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A continuidade do patrimônio e sua inclusão no cotidiano da população torna possível que ele continue fazendo sentido através dos tempos, "referendando" sua própria conservação. Criando estes vínculos entre a sociedade atual e o legado pretérito, o passado passa a participar da vida cotidiana, e não apenas dos estudos históricos do meio acadêmico. Novamente relembramos que fotografias, maquetes, textos e vídeos podem ser analisados, mas nunca vivenciados como o patrimônio conservado em sua integridade.
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Uma das casas pioneiras neste padrão volumétrico, a Casa Richter é atualmente mantida de forma exemplar pelos proprietários. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr.)
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A demolição de um bem histórico pela mera pressão imobiliária, apesar de uma constante, não pode continuar sendo encarado como rotineiro e comum. O risco é o bem-estar da cidade como um todo e a fragilização de sua identidade: não apenas se perde um "belo prédio antigo", mas queima-se definitivamente uma série de informações possíveis. Perde-se, ainda, uma possibilidade de vínculo afetivo dos moradores com as raízes culturais do município.
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As casas germânicas da Colônia Alemã de São Leopoldo
(conhecidas como: casas de frontão recortado, casas de telhado simétrico, casas de sótão-frontão)

Ainda inexpressivos na bibliografia existente, e com aspectos e peculiaridades ansiando um estudo completo e adequado, as casas construídas na colônia alemã no período aproximadamente compreendido entre a década de 10 e o início da década de 40, tem sido sistematicamente destruídas.
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Antiga sociedade Frohsin, projetada pelo arquiteto alemão Theo Wiederspahn em 1909, é prova da influência da linguagem eclética erudita na difusão de uma arquitetura da germanidade. (foto: Elis Regina Berndt/2009)
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Alinhadas em certos aspectos com o ideário eclético, estas casas provavelmente foram influenciadas pela presença maciça de profissionais arquitetos e engenheiros de formação alemã na região de Porto Alegre deste período. São legítimas "construções da germanidade", pretendiam-se teuto-brasileiras na sua aparência. Apresentam uma inconfundível volumetria, marcada pela inclinação dos telhados (com consequente uso da área como sótão).
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O deslocamento da "fachada principal", do lado maior para o lado menor, diferencia esta arquitetura da praticada em áreas de pura influência luso-brasileira. O oitão do telhado é valorizado, normalmente com uso de platibandas que constituem-se um marcante frontão - lembrando algumas vezes as soluções ecléticas para meios urbanos medievais, onde a estreiteza dos lotes impossibilita um aproveitamento mais horizontal.
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Um dos poucos conjuntos homogêneos ainda existentes, apesar da desfiguração de algumas partes, na Av. São Miguel de Dois Irmãos (RS). Em primeiro plano, a casa Konradt. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2009)
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As variações são muitas, existindo exemplares extremamente decorados - alguns com elementos eruditos, outros, com interpretações nitidamente vernaculares; e também exemplares extremamente despojados e geometrizantes, sintonizados, com algum atraso, às vanguardas européias.
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Essa arquitetura relaciona-se com acontecimentos pré e pós primeira Guerra Mundial, e provavelmente, com o pangermanismo. e, praticamente, desaparece quando eclode a Segunda Guerra Mundial (e a consequente campanha maciça de nacionalização, repressão à cultura germânica e muitos outros episódios traumáticos que seguem mal contados e sempre omitidos). Esta "repressão nacionalista" é a provável causa do abandono moral destas casas, e seu esquecimento como portadoras de um conteúdo simbólico (o germanismo) e histórico (interpretação local do eclético).
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Os exemplares que seguem existindo, são no geral desvalorizados, desprezados em inventários e omitidos em listas de tombamentos. O poder público de cidades onde estas casas foram o "padrão" por décadas - como Campo Bom, Sapiranga, Ivoti e Novo Hamburgo - mostram-se indiferentes a sua importância, ignorando os poucos exemplares existentes e permitindo sua sumária demolição.
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Nos poucos casos em que foram recentemente valorizados alguns exemplares, isto se deve muito mais ao seus aspectos históricos (ter sido importante entreposto comercial, como no caso da Casa Amarela de Ivoti, por exemplo) do que um real conhecimento e valorização do inegável caráter simbólico.
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Construída em 1949 - curiosamente, pelo menos 03 anos após o "fim da arquitetura teuto-brasileira" declarada pelo arquiteto Gunter Weimer em seu trabalho Arquitetura Erudita da Imigração Alemã. Situado em Jammerthal, interior de Picada Café, este exemplar bastante tardio ilustra a penetração da volumetria e das formas deste estilo pela população em geral, sua aplicação em prédios expontâneos e a perenidade que teve em locais de menos repressão nacionalista. (Foto: Elis Regina Berndt/ Março 2010)
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O berço deste patrimônio e sua destruição - Novo Hamburgo e arredores
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Segundo o historiador Jean Roche, estas casas (que numa rápida análise, denominou "casas de telhado simétrico") teriam surgido em Novo Hamburgo. A informação, sem fontes, parece se confirmar pela datação das casas ainda encontradas (e vêm aí, reforçada, a importância da preserva dos prédios como documentos): a mais antiga encontrada por nós data de 1903. Trata-se da Casa Richter, que ainda não se afasta de forma tão óbvio da arquitetura luso-brasileira, mas já apresenta uma volumetria característica. Mais tarde, com o aperfeiçoamento do padrão, os telhados se tornariam ainda mais inclinados e a presença da janela central do sótão, ainda mais pronunciada.
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A demolição deste legado
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Engana-se quem pensa que a desvalorização do patrimônio das imigrações restringiu-se ao período da campanha nacionalista da Ditadura. Muitos dos últimos e importantes exemplares deste acervo tem sido demolidos nos últimos anos, alheios ao desenvolvimento turístico e desprezado pelos inventários culturais.
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Casa inteiramente demolida no mês de junho de 2010 no centro de Novo Hamburgo. Construída em 1915, consistia em uma das mais antigas ainda existentes deste padrão, e uma das poucas praticamente ainda intocadas por modificações posteriores. (foto: Jorge Luís Stocker Jr. / 2009)
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Um dos primeiros exemplares deste padrão foi recentemente demolido em Novo Hamburgo. A casa, cuja datação da fachada informava sua construção em 1913, considerou-se desvalorizada por seu mau estado de conservação. Sem quaisquer protestos de nenhum setor da sociedade, este inestimável patrimônio foi rapidamente demolido sob acato da lei.
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Casa Moraes, nas proximidades do sítio histórico de Hamburgo Velho, inteiramente demolida no último ano. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2008)
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Aliás, esta tem sido a característica comum aos recentes casos de dano ao patrimônio cultural em toda região: contrariando o princípio dos direitos difusos (entre eles, o interesse cultural da sociedade na continuidade destes prédios, o potencial turístico, entre outros), as demolições são legalizadas e referendadas por conselhos (que infelizmente, apesar do esforço, são pressionados e engessados pelo mercado imobiliário, interesses políticos e falta de apoio das entidades), órgãos preservacionistas, e pelo próprio poder público - a quem cabe, constitucionalmente, a tutela e preservação deste patrimônio.
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Localização da casa demolida, em imagem de 1952. (fonte: Acervo Gilberto Winter - www.bauderecordacoes.com.br)
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Com a autorização da própria lei, torna-se um ataque ao patrimônio cultural cometido a olhos vistos e acobertado pela legislação ineficiente e pela população desinteressada e ignorante de seus direitos e deveres. Ainda há quem atrasa-se no lento raciocínio de que constitui-se patrimônio histórico apenas os bens devidamente tombados.
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Para estes, a citação abaixo poderia ser bastante esclarecedora:

“É perfeitamente cabível a proteção ao bem de valor cultural, esteja ou não tombado. Um bem pode ter acentuado valor cultural, mesmo que ainda não reconhecido ou até mesmo se negado pelo administrador. Como vimos, o tombamento é ato declaratório e não constitutivo desse valor: pressupõe esse valor; não é o valor cultural que decorre do tombamento.”

Hugo Nigro Mazzilli (“A Defesa dos Interesses Difusos em Juízo”, Ed. Saraiva, 17ª ed., SP 2004, p. 20)


Casa Trenz, de 1917, também foi recentemente demolida, em prejuízo da memória do município. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2008)
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As casas, que comprovavam a ligação de Novo Hamburgo com o advento deste tipo de construção, que se tornou padrão e marcou o visual de todas as colônias alemãs, simplesmente desaparecem para dar lugar a um prédio qualquer da rotina imobiliária. Fica ferida e perpetuamente danificada, assim, a própria IDENTIDADE do município de Novo Hamburgo.
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Comprovam esta lenta agonia outras recentes destruições: as casas Trenz, Fensterseifer e Moraes, todas integrantes do Inventário provisório e inteiramente demolidas. Constituíam-se, em alguns casos, no último testemunho histórico deste período em toda a rua ou no trecho em que se situavam e, certamente, seu desaparecimento empobrece o meio urbano do município, bem como invibiliza futuras pesquisas que procurem mapear este padrão construtivo.
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Casa Fensterseifer, de 1925, já em processo de demolição. Inteiramente demolida em Maio/2010. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr.)

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Texto: Jorge Luís Stocker Jr.
Imagens: Elis Regina Berndt e Jorge Luís Stocker Jr.

Veja também:

# Gunter Weimer: Arquitetura Erudita da Imigração Alemã (livro)
# Fotos de casas com este padrão volumétrico.

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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Pensar no atual como legado para o futuro

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Nestes tempos de decadência urbana, carrodependência, constantes mudanças e falta de referenciais, parar para pensar no meio urbano e na arquitetura como um legado para o futuro parece ser uma atitude cada vez menos comum.

Este “desapego” aos espaços e ao que eles podem representar é uma das conseqüências da modernidade, e reflete-se tanto na massiva demolição do patrimônio histórico, quanto na construção de edificações sem qualquer qualidade arquitetônica. Vivemos a era do “descartável”, e a cidade não escapa à regra.
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A falta de reflexão teórica sobre arquitetura e a existência de planos diretores defasados, apenas preocupados com a circulação de carros e com expansão imobiliária, intensifica a decadência urbana e visual de nossas cidades. Tudo sob o ultrapassado signo do “progresso” – que se dá às custas das sandices do mercado e a busca incessante por lucro fácil. Como um exemplo de mais acessível entendimento, está o trânsito confuso, até mesmo nas menores cidades.
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Novo Hamburgo: Bagunça na escala da cidade, em vista destacando área do centro histórico de Hamburgo Velho. Não há uma transição harmônica de limite de alturas, deixando a torre da Igreja dos Reis Magos e o Monumento à Imigração desvalorizado, e desvalorizando as próprias torres residenciais na paisagem. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr.)
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Das demolições, surgem então exemplares de uma arquitetura completamente subordinada ao que o “mercado quer”. São prédios pretensamente funcionais, com os repetitivos grandes panos de vidro para lojas comerciais, ocupação máxima de área, revestimentos repetitivos de cerâmica, enormes placas publicitárias... Um total “não pertencimento” a nada, sem vínculos com a cidade em que se situa nem com qualquer ramificação da arquitetura contemporânea qualificada.
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Mesmo quando a intenção parece ser das melhores, vemos as conseqüências da falta de correta reflexão. Que o digam as centenas de “enxaimelóides” e “castelinhos” da Serra Gaúcha, que já contaminam as serras do restante do Brasil. Na tentativa muitas vezes inocente (e na maioria das vezes interesseira) de homenagear cultura de imigrantes, acabam por confundir tudo o que poderia valorizá-las.
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Um dos últimos chalés antigos do centro de Gramado, finalmente valorizado. Será um espaço cultural/museu. Este estilo de casa era característico da região central. Em oposição, ao lado, um dos prédios atuais. Qualquer semelhança será, sem dúvidas, apenas triste coincidência. (Fotos: Jorge Luís Stocker Jr. /2008)
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O turista da Serra Gaúcha encanta-se com o luxo e requinte europeu do centro da cidade, atribuindo tudo isso à cultura local de imigração alemã e italiana. A simplicidade do autêntico legado cultural dos imigrantes, no entanto, é descartado e vilmente demolido a cada dia. O próprio legado imaterial desaparece sem maiores registros. Enquanto isso, o que estes espaços falsificados narram aos seus turistas?
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Vejamos por exemplo o “Parque do Imigrante”, em Nova Petrópolis, que pretende-se “histórico”. E o que encontramos nele é, no mínimo, revoltante: construções centenárias em técnica enxaimel, que foram cruelmente arrancadas de seus contextos originais, no interior do município, e posteriormente reconstruídas sem uso da técnica original (basta ver os parafusos e pregos!). A construção artificial de paisagens, sem vínculo real algum, com inclusive acréscimos e mudanças no corpo das edificações, não nos parece uma boa forma de “preservar a história”, quanto menos a memória – ainda mais sabendo-se que a última vincula-se muito facilmente aos espaços.
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Desrespeito histórico com a igreja evangélica, original da localidade de Linha Araripe. A igreja foi demolida e reconstruída no Parque Aldeia do Imigrante de Nova Petrópolis, com a invenção de uma torre “enxaimel” e de uma abside, utilizando pregos ao invés dos encaixes enxaimel. (Fotos: histórica Jornal o Diario 22.04.2009 e Jorge Luís Stocker Jr./2008)
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Já no centro das cidades da Serra Gaúcha, a profusão de edifícios novos “com estilo antigo” é intensa, todos na luta incessante pela fachada mais luxuosa e/ou exagerada. Não há qualquer relação com a técnica enxaimel original, pois os prédios tem estrutura de concreto armado. Não há sequer vinculação com a estética das estruturas originalmente praticadas na região, consequentes do local de origem dos imigrantes: estes prédios evocam paisagens suíças, ou imitam edificações bávaras/blokausse, as quais originalmente sequer existiram no Brasil. Isso quando não são prédios comuns, com aplique de trama de madeira completamente desproporcionada, gerando um conflito visual terrível. O enxaimel, nestes casos, não passa de um “agregado” posterior à fachada, valendo-se da estética para vender um clima europeu, a ser consumido pelo turista.
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Típico prédio gramadense, conseqüência do consumo de paisagens artificiais pelo turismo de massas e da legislação municipal, que isenta impostos para construções deste tipo. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr/2008)
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E o que será legado para o futuro, como retrato de nosso tempo, dos avanços construtivos ou mesmo estéticos? Sejamos razoáveis: este tipo de edificação, que falsifica uma técnica histórica de modo a reduzi-la a um adorno de fachada, tem algo a narrar às futuras gerações, além da decadência cultural e da falta de escrúpulos do mercado imobiliário? Há realmente alguma “continuidade” entre o enxaimel original (técnica construtiva síntese de elementos da cultura teuta com materiais e ambiente brasileiro), cujos últimos exemplares datam da década de 1910, e o enxaimelóide (adornos de fachada em concreto ou madeira) construído a partir dos anos 90?
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Neste mar de maus exemplos, felizmente encontramos, ao poucos, a consciência despertando. Já citamos anteriormente o Museu do Pão, de Ilópolis. Mas existem outros exemplos que, apesar de não embasados na cultura local como este, mostram uma visão diferenciada de arquitetura.
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Na cidadezinha de Alto Feliz (RS), também na Serra Gaúcha, a Vinícola Don Guerino descarta qualquer tentativa de inventar tradições ou falsas paisagens culturais. Quando muitas vinícolas empreendem a construção das suas sedes em forma de castelinhos pseudo-medievais, na tentativa de estabelecer ambientes que lembrem a tradição das vinícolas européias, a Don Guerino assume arquitetônicamente o que é de fato: uma vinícola nova, em busca de sua identidade própria.
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A vinícola Don Guerino, de Alto Feliz. Volumes puros, com boa articulação de texturas. (Foto: Jorge Luís Stocker Junior)
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O projeto do Arquiteto Daniel Palavro toma partido da linguagem contemporânea, utilizando um volume prismático alongado e horizontal. A boa distribuição dos espaços internos, refletida em uma geometria bem resolvida, reforça a qualidade estética do prédio. A articulação de volumes e de texturas é simples, mas nada simplória. O entorno, rodeado de morros verdes e dos vinhedos, emoldura perfeitamente sua existência, em contraste com as linhas retas.
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Deixemos o patrimônio histórico da região, ainda bastante significativo por sinal, contar sua história. Que, aliás, o poder público de Alto Feliz tenha a sensibilidade de inventariar as edificações, e protegê-las efetivamente, pois são determinantes para a construção da identidade derivada da cultura alemã e para o potencial turístico cultural.
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Outro ângulo do prédio da vinícola. (Foto: Jorge Luís Stocker Junior)
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E que possamos continuar construindo uma história autêntica, dando sim continuidade ao legado deixado pelo passado, mas respeitando seu limite temporal. É essencial pensar no atual como um legado para o futuro (mesmo em época de desapego espacial, pensar nesta atitude como forma de qualificar o presente): construindo uma arquitetura realmente vinculada ao nosso tempo, ao momento da arquitetura atual, sem falsificar a própria história que vivemos.
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Texto: Jorge Luís Stocker Jr.
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Observação: O texto anterior, relativo a destruição de uma casa histórica em Campo Bom foi temporariamente removido e deverá ser republicado em breve, complementado.
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VEJA TAMBÉM:
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- O bom exemplo de Ilópolis no desenvolvimento turístico – Museu do Pão;
- Vídeo de visita da ASAEC à vinícola Don Guerino.
-Site da vinícola Don Guerino.