quinta-feira, 31 de janeiro de 2019
O debate sobre a possível transferência do Laçador....
domingo, 30 de dezembro de 2018
Sobre a publicidade na Usina do Gasômetro
Já afixar uma placa publicitária de uma lojinha de variedades agride de forma espantosa e reduz o papel do mesmo ícone da cidade.
segunda-feira, 19 de outubro de 2015
Existe "gentrificação positiva"?
Discursos vazios a respeito dos benefícios da "gentrificação" tem ganhado páginas dos jornais e as redes, preenchendo uma lacuna deixada pelos movimentos sociais e pela academia. Apelando para o senso comum e para uma leitura parcial da realidade, processos de limpeza social são vendidos como única solução para recuperação de áreas degradadas, de problemas sociais, violência e mesmo de preservação.
Tais iniciativas não apenas omitem como negam a aplicação de instrumentos urbanísticos recomendáveis, raramente aplicam bons critérios de preservação e, principalmente, promovem um processo desumano de expulsão das comunidades estabelecidas nestes espaços urbanos, privando-as do direito à cidade. As "revitalizações" de áreas históricas propostas tem se mostrado nada além de mera limpeza e higienização social, com fins de tornar áreas mais aptas para o mercado e para uma população de alto poder aquisitivo. Este processo é conhecido como "gentrificação" e, ao nosso ver, nada tem de positivo.
Este artigo pretende dar um panorama a respeito dos processos de gentrificação em áreas históricas, de forma ampla mas simplificada, levantando questionamentos sobre suas implicações e buscando comprovar que, sobre o ponto de vista da preservação, nada há de "positivo".
O processo de Gentrificação
A "gentrificação" é um processo de limpeza e higienização social que, quando falamos de sítios históricos, costuma ser potencializado ou provocado por processos de "revitalização" ou "renovação urbana" de uma área. Este tipo de iniciativa ocorre normalmente em acordo dos setores públicos e privado (notadamente os mercados da construção civil e imobiliário) e portanto, não é arbitrário, mas cuidadosamente operado. Mesmo a política de preservação do patrimônio costuma ser manipulada diretamente para promoção deste fim.
O processo de gentrificação tem como alvo, no geral, grandes áreas de um centro urbano que encontram-se em decadência. A decadência tem motivações locais (fim de uma atividade econômica, desconexão com a cidade devido à mudanças na dinâmica de crescimento ou implantação de entroncamentos viários, etc.). O processo de degradação, independentemente da origem, é então explorado e se possível intensificado violentamente, para justificar as iniciativas que ali se pretende implantar.
É comum que inicialmente o valor dos imóveis seja reduzido. Para tanto, a área passa a ser privada de infra-estrutura básica, apresentando problemas simples de coleta de lixo, violência desenfreada, transporte público, sendo servida de forma deficiente por escolas e postos de saúde. Estas ações tornam desinteressante que os pequenos proprietários mantenham sua propriedade. Nesta etapa, em que o poder público se omite em oferecer serviços que seriam obrigatórios, se intensifica a estagnação econômica já previamente existente, o que atinge de forma arrasadora o espaço, transformando a mera decadência em colapso.
Este quadro de "abandono" é pintado cuidadosamente, posto que operado, e difundido nos meios de comunicação, que reforçam os espaços em questão como inseguros, focos de violência e perniciosos. Mesmo a política de preservação é utilizada para esta manobra - a "obrigatoriedade" de manter as edificações frente ao completo desinteresse econômico da área é utilizada como argumento para a compra destes imóveis por valores bastante reduzidos. Com isto, os imóveis são adquiridos dos moradores, herdeiros ou proprietários de pequenos negócios no local, ficando concentrados nas mãos de poucos investidores, como reservas especulativas.
Quando tais proprietários já estão em poder de parcela considerável do espaço em questão, a sua "revitalização" torna-se subitamente uma pauta pública, difundida como solução positiva para reabilitar econômica e socialmente uma área. O apelo de revitalização é fácil, pois vem de resposta a perguntas recentemente plantadas na sociedade. O alto investimento público é justificado pelas melhorias funcionais, estéticas e mesmo investimentos ditos culturais, com a recuperação de imóveis históricos nestas áreas.
Definir quando este processo começa é difícil. Tanto o poder público como apenas a iniciativa privada podem iniciá-lo. O fato é que, independentemente do modelo adotado, com a evolução do processo eleva-se subitamente o custo de vida e o valor dos imóveis (incluso aluguéis) de toda uma área.
É importante ressaltar que nem sempre o processo de gentrificação, em especial no seu início, tem a "cara feia" e repulsiva que se esperaria. O início deste processo pode ser espontâneo - ou pretensamente espontâneo - e provocado por iniciativas aparentemente descentralizadas, como a ocupação de edificações abandonadas por artistas, por negócios alternativos de empreendedores de classe média e média alta. Este tipo de nova ocupação costuma trazer diversidade e vida para um bairro decadente, mudando rapidamente a sua dinâmica para melhor.
Com a evolução do processo de gentrificação, mesmo os últimos moradores de baixa renda do local são obrigatoriamente removidos, seja por falta de condições de sustentabilidade devido ao alto custo de vida, seja pela expulsão no caso de áreas ocupadas de forma irregular (cuja propriedade é retomada, a despeito de previamente terem servido apenas para especulação e sem cumprimento da função social).
Executada a 'renovação urbana' sob o viés da gentrificação, o espaço passa a ser ocupado e frequentado pelas classes médias-altas ou altas, e diz-se então dele, que deixou a decadência e foi finalmente "reintegrado" a cidade.
Não há linearidade ou roteiro
O desenrolar do processo de gentrificação não se repete de forma linear e acrítica em todos os lugares. Devido às complexidades de cada centro urbano, as etapas se misturam e sobrepõem. É possível verificar que ainda assim, os fins são sempre os mesmos: a alteração na dinâmica social do local, concentração de imóveis nas mãos de investidores de alto poder aquisitivo, e a expulsão gradual ou súbita da comunidade pré-existente.
Como exemplo, verifica-se em muitos casos os imóveis já valorizados mesmo enquanto a área encontra-se aparentemente sem perspectivas e já existe campanha de difamação do local e difusão das restrições advindas de tombamentos. Note-se, que é nítido que os imóveis são inflacionados somente quando já estão sob posse dos agentes beneficiados pelo processo de gentrificação. Antigos moradores da área, que convivam com este processo, jamais conseguirão exercer propriedade da mesma forma ou comercializar os imóveis sob as mesmas premissas que estes novos proprietários, ainda que insistam. Da mesma forma, o resultado "final" do processo de gentrificação muitas vezes começa a aparecer antes mesmo da execução de qualquer obra pública ou alteração na política urbana.
Ressalte-se, também, que embora curiosamente alguns estejam tentando reabilitar a palavra "gentrificação", emprestando-lhe um sentido positivo, dificilmente estes processos serão vendidos com este nome. "Revitalização", "Renovação urbana", "Requalificação" e "Restauração" sãos os termos mais empregados para esconder um processo deste tipo.
Gentrificação é "positiva" para a preservação?
Toda a carga desumana dos processos de gentrificação costuma ser desprezada frente a solução aparentemente única que oferece para preservação do patrimônio edificado. No nosso ponto de vista, porém, costuma ser igualmente danoso à manutenção do patrimônio cultural:
- O patrimônio cultural é apenas um interesse secundário nestes processos. Interessa na medida em que facilita a redução do valor dos imóveis, até que sejam adquiridos por empreendedores que irão exercer o valor de mercado já elevado. Por esse motivo, a recuperação física costuma ser bastante arbitrária, com a perda do conteúdo histórico das edificações a partir de obras realizadas sem o devido cuidado técnico e respeito às diretrizes de preservação. Projetos de "revitalização" sob o viés da gentrificação tendem a espetacularização do patrimônio;
- Mesmo a seleção do patrimônio cultural a ser tutelado nessas áreas costuma ser bastante arbitrária e parcial, desprezando edificações e espaços importantes para facilitar as intervenções pretendidas;
- O patrimônio cultural nestes espaços se torna apenas marketing. Esvaziado do seu conteúdo social, cultural e simbólico, desvinculado de sua origem histórica e significados, o imóvel permanece apenas como elemento estético descontextualizado e fisicamente descaracterizado. A mesma pasteurização se dá nos espaços públicos, que a longo prazo perdem justamente a vitalidade que pretendia-se resgatar;
- Ainda que se considere o mais alto zelo com o processo de restauração, é importante lembrar que o significado do patrimônio cultural vai além da manutenção das estruturas físicas. O processo de gentrificação destrói violentamente o panorama sócio-cultural pré-existente, os laços afetivos dos cidadãos com o espaço e sua vitalidade. Interrompe o ciclo histórico, idealizando e mergulhando todo espaço numa superficial atemporalidade;
- Os centros históricos são pasteurizados e tornam-se todos muito parecidos, abrigando os mesmos tipos de lojinhas, escritórios ou franquias. A experiência de conhecer um centro histórico gentrificado é enfadonha, e muito semelhante a visitação de um shopping. Os centros históricos passam de portadores da identidade local a espaços genéricos que poderiam figurar em qualquer lugar do mundo.
- O espaço urbano perde sua diversidade, dinâmica e vitalidade, uma vez que é ocupado inteiramente por comércio e proprietários de mesmas características e faixas de renda. Quando o espaço não se consolida como centro de compras para turistas, ocorre rapidamente a perda da vitalidade e retorno do processo de decadência anterior.
- O investimento público na "revitalização" multiplica-se com o investimento em habitação social, e principalmente, em infra-estrutura urbana e de transportes, uma ver que implica no deslocamento de um contingente de moradores para áreas afastadas do centro urbano.
Repensando as intervenções urbanas
Devido aos elementos abordados, julgamos infeliz e forçada a difusão do termo "gentrificação positiva". Como vimos, mesmo os pequenos aspectos positivos trazidos por um processo de gentrificação costumam ser efêmeros, com efeitos colaterais danosos e fatalmente construídos sobre a desumanização do espaço urbano.
Não é impossível pensar na reabilitação de um espaço urbano degradado sem o uso destas premissas. Basta deixar o círculo vicioso e enxergar outras possibilidades concretas. Em especial, tendo em mente que qualquer alteração na dinâmica de um espaço urbano deveria ser, evidentemente, pensada em conjunto com a comunidade local e população da cidade como um todo. Promover o direito e o acesso à cidade, elaborando planos diretores participativos, são premissas mínimas do Planejamento Urbano. Não se pode definir o futuro de uma área e de um conjunto de cidadãos por "notório saber", apenas em gabinete e escritório.
Muitos instrumentos de planejamento urbano são previstos no Estatuto das Cidades e devem ser aplicados e efetivamente regulamentados: a transferência de potencial construtivo pode resolver a inviabilidade econômica dos processos de recuperação, sem necessidade de expulsão ou nivelamento da ocupação de todo bairro por faixa social. Já o IPTU progressivo inviabiliza a manutenção de imóveis desocupados em processo de degradação, onerando a manutenção de imóveis apenas como reserva especulativa. Da mesma forma outros instrumentos existem ou podem ser criados em resposta às problemáticas locais.
(fonte:http://www.justrenttoown.com/blog/gentrification-cultural-shift/)
Uma longa etapa de diagnóstico que permita o reconhecimento do patrimônio cultural material e imaterial, da comunidade pré-existente e suas aspirações e das potencialidades já latentes pode trazer todos os elementos para um processo de reabilitação. Cada espaço pede sua própria reabilitação urbana, que poderá ter sucesso na medida em que for pensada e organizada de forma orgânica e pertinente ao local abordado.
sábado, 21 de abril de 2012
O patrimônio que espera por um "Messias" - Sobre a necessidade de regulamentação municipal das políticas de patrimônio
Perde-se tempo, esforços e horas técnicas preciosas em discussões inócuas, que consistem em focar as energias neste eterno devaneio ou sondagem pró-gentrificação das áreas históricas, transferindo devidamente a culpa da situação para a sociedade que não se interessa. Poderia-se, pelo contrário, buscar alternativas para que haja finalmente regulamentação de políticas municipais de patrimônio cultural, que visem efetivar os direitos já garantidos na Constituição.
Perpetuar mal estar, baixa estima, lamúrias e perspectivas catastróficas parece ser a principal ocupação de muitos que se envolvem com o patrimônio cultural das cidades. Nos parece muito mais conveniente que se comece o quanto antes a buscar a criação de caminhos reais para garantir a continuidade do patrimônio, para que ele possa seguir testemunhando a história, mantendo a memória e identidade da cidade vivas e educando as novas gerações.
Garantir meios efetivos de proteção do patrimônio cultural (através do estudo e oficialização de inventários e áreas de interesse cultural no Plano Diretor, desconto de impostos, aplicação de mecanismos como transferência de índice, criação de fundos emergenciais e culturais, oportunidades de financiamento, etc.) são a única forma de garantir que os direitos conquistados na Constituição sejam cumpridos. É esta a principal raiz do problema da manutenção do patrimônio em nossas cidades, e que deveria ser urgentemente atacado.
O pensamento individualizador não se restringe a forma positiva (como solução), mas manifesta-se claramente também como negativa (busca de culpado). Quando não culpa-se a sociedade como um todo, transfere-se a "culpa" de perdas inestimáveis diretamente aos proprietários que demoliram o bem cultural, sem considerar a completa ineficácia ou inexistência de políticas de patrimônio que definam corretamente o bem como cultural, que regulamentem sua situação e intervenções, que traga punições pro caso de descumprimentos mas também benefícios e caminhos para facilitar a preservação.
De nada adianta educação patrimonial quando não há preservação (vamos ensinar o valor de algo que está sendo demolido por não ter 'valor', como explicar esse problema conceitual pra um discente?). Mas também não adianta preservar quando não há sociedade envolvida. A problemática do patrimônio não é simplória, certamente envolve uma série de fatores que precisam ser pensados em conjunto: educação, planejamento urbano, plano turístico, envolvimento social, pesquisa de suporte, formação de mão de obra capacitada pra restauração, etc. No entanto, ao final das contas tudo isso não passam de iniciativas administrativas simples, de custo irrelevante perto dos incontáveis benefícios coletivos e privados, sendo o principal deles a qualidade de vida da cidade. O patrimônio cultural pode transformar inclusive a economia de uma cidade, sendo uma segurança frente a instabilidade e os desvarios do mercado.
Determinadas situações acontecem quando existe um contexto. Um contexto insatisfatório como o geral hoje, gera apenas arruinamento, demolições legalizadas ou ilegais, ou a desqualificação de edificações históricas pela ausência de diretrizes adequadas e mesmo de possibilidades viáveis aos proprietários. Somente com a situação dos prédios de interesse histórico devidamente regulamentada, poderemos finalmente nos livrar da figura do "empresário messias" que, na sua infinita benevolência, é esperado ad aeternum para que de iniciativa própria, venha resolver problemas de interesse público!
Jorge Luís Stocker Jr.
segunda-feira, 11 de julho de 2011
Uma igreja alemã no Brasil - As igrejas de Kreinitz (Zeithain, Alemanha) e São Leopoldo (RS -Brasil)

Modelo de preservação leopoldense: o patrimônio "preservado", porém desmoralizado, não faz mais qualquer diferença. Sua presença é dispensável no cenário urbano que o engole. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2006)
Quando fundada, São Leopoldo foi planejada para sede administrativa das colônias alemãs gaúchas. Com um traçado de tabuleiro, a cidade desempenhou por muitos anos este papel, que a partir de 1930, com a emancipação do distrito de Novo Hamburgo, foi lentamente ficando obsoleto. A cidade perdeu praticamente todos os seus distritos, e sua importância administrativa. Mas continuou crescendo.
Um pouco sobre a igreja luterana no Rio Grande do Sul
Praticamente desconhecido no restante do Brasil, o luteranismo chegou ao Rio Grande do Sul junto aos primeiros imigrantes de confissão luterana. A liberdade de culto foi garantida a estes ainda em tempos do império, com uma série de restrições. A principal delas, constante na Constituição, dizia respeito aos templos: deveriam ser discretos e não ter aparência de casa de cultos, ou seja, torres estavam sumariamente proibidas.

Em segundo plano, o primeiro templo luterano de São Leopoldo (RS).
Esta situação deixou os pastores eruditos enviados pela igreja luterana alemã a partir da década de 1860 completamente horrorizados, e também causava péssima impressão entre os padres católicos. Vistos como cristãos brutalizados, os colonos foram lentamente “re-convertidos” a fé erudita. Não foi fácil fazê-los aceitar decisões superiores, vindas “de cima para baixo”, em contraste com as decisões comunitárias que vigoraram até então.
As comunidades luteranas, organizadas pelos próprios colonos como unidades autônomas, acabariam filiando-se a sínodos ligados diretamente a Igreja Luterana alemã. Esta filiação oportunizou o crescimento econômico das comunidades, pois era comum o financiamento de templos, vitrais, sinos e outros bens, em número e com tal qualidade que seriam inalcançáveis nas pequenas localidades. Estes sínodos, após muitas idas e vindas, tornaram-se completamente independentes da igreja alemã, gerando o que hoje conhecemos por IECLB - Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil.

Em 1908, a igreja em construção. Em primeiro plano, os filhos do Pastor Rotermund.
Neste breve resumo, não podemos deixar de citar a existência de outra corrente luterana, que viria a gerar a IELB - Igreja Evangélica Luterana do Brasil. Filiada inicialmente ao sínodo norte-americano Missouri, chegou às terras gaúchas com a vinda de missionários norte-americanos. Suas pregações tinham características mais fundamentalistas e captaram boa parte dos fiéis luteranos em algumas cidades.
A igreja luterana de São Leopoldo
A partir da década de 1870, mais ou menos, pode-se dizer que as colônias alemãs e alcançaram relativa estabilidade econômica e prosperidade. São Leopoldo centralizava então a administração de toda colônia, sendo cidade muito simbólica para germanidade gaúcha.

(foto: Jorge Luís Stocker Jr./2006)
A igreja luterana de São Leopoldo, devido a proibição da constituição Imperial, funcionava até então em uma simples casa de cultos. Após a proclamação da república, a igreja mostrou-se muito modesta e incompatível com a nova imagem de prosperidade da colônia São Leopoldo, e da própria igreja Luterana.

(foto: Jorge Luís Stocker Jr./2006)
Sob a liderança do polêmico Pastor Rotermund, a comunidade de São Leopoldo decide construir seu novo templo baseado em um projeto alemão. A referência foi o templo luterano de Kreinitz, distrito situado às margens do Rio Elba, de autoria do Arquiteto Julius Zeissig, de Leipzig. O projeto foi construído com algumas modificações: o relógio foi disposto em todas as faces (a igreja alemã tem apenas um), e foi ampliada a nave principal.

Kreinitz, Alemanha, e sua igreja luterana, cujo projeto serviu de base para a igreja Leopoldense. Gentilmente cedida por Andreas Büttner.
[amplie a imagem, vale a pena!]
É curioso observar a semelhança da implantação das cidades, ambas em terreno plano e às margens de um rio importante. Enquanto Kreinitz continua um pequeno e pacífico povoado às margens do Rio Elba, São Leopoldo desde então cresceu descontroladamente, poluindo o Rio dos Sinos, e sem o menor cuidado de manter a harmonia de escalas de sua paisagem urbana.
Em Kreinitz, a igreja ainda desponta como o mais importante dos edifícios (que de fato é), pautando um perfil harmonioso de escalas compatíveis. Não há concorrência sequer para a nave da igreja, cuja cumeeira é mais alta do que todas as demais edificações das cercanias.

A paisagem confusa de São Leopoldo, onde as escalas não seguem qualquer ordem. Os interessantes exemplares Art-Déco estão com os dias contados. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2006)
Já em São Leopoldo, a conhecida Igreja do Relógio aparece como uma jóia perdida em meio a confusão, difícil de ser encontrada em meio a efusão de prédios de diferentes períodos, proporções e qualidades. Prédios residenciais medíocres e sem a mesma importância cobrem as visuais a partir de quase todos os ângulos. O templo reduziu-se a apenas um eco de uma São Leopoldo que pretendia-se representativa da germanidade brasileira, mas que hoje figura como apenas mais um de seus centros urbanos caóticos.
Este processo de banalização do meio urbano ainda está em andamento - diariamente a cidade nega e erradica o restante do seu patrimônio cultural em nome de um conceito de progresso atrasado e pífio, que remonta à décadas passadas.
Ficam as imagens de Kreinitz que, talvez, sejam um eco romântico do que a paisagem urbana de São Leopoldo poderia ter sido.

Gentilmente cedida por Uwe Riemer.
Gentilmente cedida por Matthias H.

Gentilmente cedida por Matthias H.
Leia também
- Site sobre Kreinitz, com fotos da igreja.
- Sobre a igreja de Kreinitz
- Histórico da IECLB.
- Livro Herança de Geração em Geração, de Telmo Lauro Müller, sobre a igreja luterana de São Leopoldo.
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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
São Leopoldo (RS) está sumindo - "a todo vapor"!
Esta “ingenuidade” de que tratamos nada mais é do que a falta de conhecimento. Na maioria das vezes, a falta de acesso ao conhecimento. E ingenuidade se perdoa.
Talvez com ingenuidade, a Prefeitura Municipal de São Leopoldo lançou em 2009 um projeto de Centro Administrativo para a cidade. Localizado no coração histórico da cidade, o prédio seria um nefasto vizinho do patrimônio cultural circundante: Um bloco em altura, que tanto mimetizava o prédio Art Déco da antiga Prefeitura quanto acrescentava traves enxaimel a fachada.

Imagem da fachada, divulgada na internet em 2010. (fonte: PM São Leopoldo).
Em suma, uma completa vergonha. Um projeto digno de figurar em programa humorístico, ou em alguma sátira arquitetônica de faculdade. Era difícil, à época, acreditar na veracidade da notícia. Mas ela estava lá, apresentando uma Prefeitura “vexaimel” que viria para resgatar a cultura alemã na cidade e “criar” um novo ponto turístico.
Os erros desta proposta foram aqui discutidos na ocasião, no artigo que pode ser acessado clicando aqui.
Mas o Die Zeit não discutiu sozinho. Fomos apenas uma pecinha entre muitos: Diretórios Acadêmicos de Arquitetura e Urbanismo das universidades Unisinos e Feevale; profissionais autônomos da região, Defender, IAB e o ICOMOS. Lotamos a Câmara de Vereadores.
Fomos educados e sucintos, apontando os erros da proposta, que aliás, eram muitos. O enxaimel era apenas a cereja no topo do bolo. As traves enxaimel estavam lá apenas para evidenciar a todos: “opa, alguma coisa está MUITO errada aí!”. Muitas vezes este tipo de “cereja” já fez falta, aliás. Quem sabe outras obras teriam chamado a atenção e pudéssemos ter evitado muitas atrocidades maiores.
Mas de qualquer forma, remover a cereja não muda o sabor e o formato do bolo. Tampouco girá-lo no prato. Essa analogia pobre explica a estratégia da Prefeitura Municipal para readequar o projeto, uma espécie de “cala a boca” aos que reclamavam:

Mudou a cara, mudou a posição no terreno – a essência é a mesma!
Analisando bem a edificação, vemos uma ilustração clara da decadência das obras públicas. Com dinheiro público e com a oportunidade de ouro de construir um programa especial (Prefeitura) em um território rico em informações para serem exploradas, vemos que a Prefeitura Municipal desiste do fiasco vexaimel para investir numa espécie de “torre residencial”.
A arquitetura é mais do que apenas sua funcionalidade e sua materialidade: ela também é o que parece e o que representa. Quando tratamos de um Paço Municipal, esse significado redobra.
A torre agora é "contemporânea" (sic), o projeto é o mesmo. Ele representa para a cidade o mesmo que tantas outras torres residenciais representam. Um nada. Um edifício sem o caráter que uma Prefeitura deveria ter.
Mas, se por um lado ter essa forma “residencial” poderia fazer o prédio se esconder entre o mar de mediocridade, tornando-se apenas discreto, por outro, implantá-la num local onde ainda predomina a escala colonial e praticamente ao lado de edificações históricas cruciais para o centro histórico da cidade, é completamente insano. Prejudica imensamente o perfil da rua, a ambiência histórica e a visual de entrada do município.

Como compatibilizar esta escala com o edifício proposto?
Parafraseando o jornalista cultural André Azevedo da Fonseca, é “como se um engraçadinho suprimisse um parágrafo da história da cidade e inserisse, por conta própria, palavrões e vulgaridades”. O efeito é o mesmo. Mas ao contrário do caso a que se referia Fonseca, aqui não estamos lidando com uma mera desfiguração de prédio histórico, mas de uma intervenção crítica no coração da cidade.
Os problemas são, enfim, nítidos e visíveis, mas agora não é ingenuidade. Está claro: com tantos órgãos importantes e profissionais gabaritados alertando sobre os problemas que esta obra da forma como é proposta irá acarretar, a Prefeitura Municipal de São Leopoldo segue a construção “a todo vapor”.

"Em São Leopoldo, a obra não pode parar". Publicado no Informe Especial do jornal Zero Hora em 12/01.
E aliás, faz questão de usar os veículos de comunicação da região para demonstrar seu poder. O prédio sai, não importa se faça chuva, sol ou vento; e daí se o Ministério Público nos processa. Não vamos parar pra pensar, agora é agir.

"Nova Prefeitura com Obra Adiantada", em reportagem típica de assessoria de imprensa publicada no Jornal VS.
Definitivamente isso não é ingenuidade. Hipocrisia? Só sei dizer que o Poder Público Municipal de São Leopoldo é privilegiado. Cada erro que comete ou pensa em cometer, lá está a sociedade, atenta, ativa, engajada. Lotando a Câmara! Que o digam as últimas duas audiências públicas, onde destaca-se a causa ambiental do Bosque de São Francisco de Assis – causa esta, que a Prefeitura parece tentar “transferir” para abafar o caso. Fico imaginando que salto de qualidade a região daria, se a sociedade reagisse sempre assim.
Mas com tanta participação, tanto engajamento, a contrapartida que a Prefeitura concede é pífia. Responde com o silêncio e a ausência nas audiências. Toma atitudes como *esta sem consultar a sociedade.
Temos uma série de ganhos particulares com consequentes prejuízos coletivos. A balança pende pra um lado. E o lado vitorioso, não está interessado com a qualidade de vida, com o entendimento e apreciação da cidade como um todo. Não está interessado na proteção das fragilizadas migalhas de ecossistemas e de patrimônio cultural. Não está interessada, enfim, em nada que torna São Leopoldo a cidade de São Leopoldo.
E fica apenas a tristeza e a revolta, ao nos depararmos com as reportagens que nos deixam claro que obra não para. Afinal, sabemos que certamente este erro não é obra da ingenuidade.
Corram, pois o que conhecemos por São Leopoldo está sumindo. E no que depender da Prefeitura e do 'cronograma da obra', será " a todo vapor".
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Por que tem valor? Discutindo os critérios para a seleção de bens históricos - Parte I

Casa de caráter historicista, bastante tardia (1949), localizada entre Jammerthal e Joaneta, em Picada Café (RS): seu valor histórico poderia eventualmente ser contestado pela aplicação tardia destas formas históricas então já ultrapassadas. Mas esta adoção tardia de formas e da volumetria típica dos anos 10-30 nas cidades mais desenvolvidas de imigração alemã, pode ser bastante significativa historicamente: uma casa de caráter tão germânico, em plena campanha de nacionalização, e tão tradicional, em tempos de modernização, só seria possível em lugares muito isolados geograficamente. (Foto: Elis Regina Berndt/ Março 2010)
O patrimônio histórico construído tem uma inegável importância para as cidades, assunto que já discutimos em diversos artigos do Die Zeit. No entanto, como definir o que, de fato, é patrimônio? É nítido que não devemos nos restringir apenas aos bens históricos já tombados ou indicados para preservação. Afinal, o tombamento não determina o valor de um bem, apenas o declara oficialmente. Mas então, quais edificações são, de fato, portadoras de valores que a tornem merecedoras de proteção?

Casa neo-colonial, uma das últimas das tantas que caracterizaram o centro de Torres (RS): terá algum significado pra cidade? O sufocamento da casa pelas edificações lindeiras antecipa seu destino. (foto: Jorge Luís Stocker Jr/ Janeiro 2010)
Primeiramente, a única certeza que podemos ter é que não existe nenhuma resolução definitiva sobre o assunto. Na busca por embasamento, nos depararemos com a legislação, que no geral chega a ser bastante completa a respeito do tema, mas reticente e vaga quando aplicada em situações práticas; com as convenções e cartas patrimoniais, normalmente contraditórias quando aplicadas sem a análise dos seus contextos históricos, e ainda com a produção intelectual existente - que apesar de importantíssima e ótimo ponto de partida, é arriscada quando adotada sem a problematização necessária. Qualquer uma dessas fontes, adotada sem senso crítico e profunda reflexão, pode encorajar atitudes precipitadas. Num assunto onde tudo é tão subjetivo, é praticamente impossível adotar uma postura única e rígida que não analise cada caso como um caso único.
Com este artigo, pretendemos deixar nossa modesta contribuição para o tema, levantando questões, opiniões e exemplos para discutir formas e critérios que ao nosso ver deveriam nortear a seleção e preservação de bens históricos representativos do nosso patrimônio cultural.
O valor cultural
Mais conhecido de todos, e de maior aceitação, o valor cultural de um bem diz respeito a seu histórico e importância afetiva. Tem valor cultural os exemplares que ilustrem ("contem") uma história importante para a cidade, que tenham abrigado personalidades ou sejam características de algum grupo social, que representem uma cultura diferenciada (como a imigratória), e/ou que tenham importância social, como referencial afetivo. Também em alguns casos, pode ser considerado um exemplar que, ainda que hoje isolado, represente determinado período histórico de uma rua ou bairro.
É talvez o critério mais amplo, considerando-se que a "importância" de cada evento ou período histórico é muito relativa.

Casa eclética com a volumetria típica das regiões de imigração alemã, situada em Sander - bairro de Três Coroas (RS). Por muitos anos o estilo eclético foi considerado sem qualquer valor cultural e mera cópia de um estilo europeu. Em alguns casos ainda se mantém este preconceito, o que se torna um absurdo quando, como neste exemplo, é possível relacionar peculiaridades regionais tanto na volumetria quanto na espacialidade dos prédios. Sem pesquisa, é impossível determinar o valor de um bem! (foto: Jorge Luís Stocker Jr./ Agosto 2010)
Não podemos esquecer que, para conhecer o valor cultural de um prédio, é preciso bem mais do que uma simples visita de levantamento fotográfico e confecção imediata de laudo assinado por profissional legalmente habilitado (e algumas vezes, teoricamente bitolado): a pesquisa oral, documental e bibiliográfica é imprescindível para que se consiga obter dados que ajudem a contextualizar a edificação, sua origem e histórico. É impossível adivinhar o valor cultural de uma edificação através de uma fotografia ou ficha de inventário incompleta e portanto, é completamente hipócrita negar seu valor histórico sem que se tenha procedido uma pesquisa completa e competente. Decisões importantes como esta não podem ser tomadas precipitadamente, na pressa e de portas fechadas, por uma pessoa ou comissão responsável que não tenha respaldo representativo da sociedade e entidades interessadas no assunto.

As poucas edificações modernistas realmente significativas do ponto de vista arquitetônico, como a sede da Previdência Social em Sapiranga (RS), certamente tem um valor morfológico muito acentuado, embora ainda encontrem intensa contrariedade. No entanto, principalmente nas capitais, aos poucos vão encontrando sua valorização através da ampliação das pesquisas de mestrado e doutorado na área e do próprio distanciamento temporal que vai crescendo. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr/ Julho 2010)
O estado de conservação do bem em questão também costuma ser a justificativa para demolições. Oferecer risco aos transeuntes é realmente crítico, mas as providências tomadas devem vir em encontro à valorização e preservação do valor cultural do bem, e não sua erradicação através de demolição. Desta forma, ao invés da resolução de um problema, gera-se outro: um vácuo histórico e cultural irreversível para as nossas cidades já sequeladas e desmemoriadas. O mau estado de conservação pode prejudicar e colocar em risco o valor cultural, mas de modo algum o elimina. Não podemos esquecer ainda que, o próprio estado de ruínas de um edifício pode ser muito representativo e seu restauro ou consolidação enquanto ruína pode ser uma forma de educação patrimonial.


O prédio do antigo Evangeliches Stift e posteriormente Lar da Menina, em Novo Hamburgo, encontra-se em ruínas desde um incêndio nos anos 90, e se desintegrou lentamente ao longo dos anos. Felizmente foi tombado a nível municipal, como reconhecimento ao seu inestimável valor cultural - mesmo no atual estado de ruínas. Nos parece importante que não se reconstrua ou recomponha a fachada exatamente tal como se apresentava antes do incidente, como forma de educação patrimonial: seria demonstrar erroneamente que o patrimônio pode ser facilmente reconstruído, comprovando que erros como descaso e demolições são reversíveis posteriormente. As soluções para seu restauro deveriam, preferencialmente, recompor os volumes mas manter uma forma de valorizar esse arruinamento que faz parte da história da edificação. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./Agosto de 2010 e Acervo Pref. NH)
Necessário dizer, no contexto atual onde vemos é uma completa desfiguração da cidade tradicional, com a existência de apenas poucas migalhas históricas espalhadas pelas cidades, somos da opinião de que TODO e QUALQUER bem de interesse cultural que tenha chegado aos dias atuais em relativa integridade DEVE ser mantido. Ou, no mínimo, deve-se analisar muito profundamente a real necessidade de sua demolição. A quem ela beneficia? Que prejuízos ela traz? Frisando que a situação atual já é crítica, e que qualquer argumento que inclua a possibilidade de "congelamento da cidade" é fajuto (pois os prédios históricos são minoria inconteste) acreditamos ser praticamente impossível que a melhor opção seja a demolição em casos de bens realmente portadores de valor cultural.
O valor morfológico da arquitetura
A qualidade do projeto arquitetônico é, talvez, o conceito mais aceito e aplicado por arquitetos, e também no geral encontra bom respaldo popular. Quando se avalia o valor arquitetônico de uma edificação, se pesa a sua representatividade enquanto exemplar de determinado período estilístico, ou seja, sua filiação (ou reação) a determinada escola. Além de considerar-se a qualidade estética das fachadas, também deve ser avaliada a qualidade e/ou peculiaridade da distribuição espacial.

A Casa Soine, de 1914, situada em Dois Irmãos (RS) é um exemplar de inegável valor morfológico: apesar da relativa simplicidade, nota-se uma aplicação criteriosa e erudita de formas históricas. Tem também seu inestimável valor cultural, enquanto representante da arquitetura residencial em zonas de imigração teuta naquela década (Foto: Elis Regina Berndt/Dezembro 2009)
A planta-baixa das casas antigas, quando ainda reconhecíveis, podem ser uma fonte documental importantíssima para o entendimento das transformações econômicas e sociais. O espaço interno deve ser mantido sempre que possível, obviamente com a devida compatibilização com os novos usos. No entanto, como dificilmente é possível no caso de bens particulares e trocas constantes de usos, o mínimo a se fazer é documentar cada alteração introduzida. Tal precaução é de fácil execução e não se trata de nenhum exagero: é o mínimo a se exigir, em se tratando de prédios que chegaram até hoje em relativa integridade e que são, muitas vezes, os últimos representantes de determinados períodos.

O belo casarão Friedrich, exemplarmente bem conservado pela família, em Novo Hamburgo (RS). Hoje abriga um museu particular e mantém seu uso residencial, usos sustentáveis e que possibilitam a manutenção de sua integridade. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr./Setembro 2010)
É preciso ter em mente que, quando trabalhamos com um prédio histórico, temos em mãos um documento valioso que é portador de informações. De fato um documento "vivo", no qual as alterações e modernizações podem e devem somar ainda mais valores. Justamente por isso devem ser feitas com cuidado, conhecimento e com a devido registro das intervenções e motivações, que deve ser exigido pelas comissões responsáveis . Afinal, profissionais entram e saem dos seus cargos e a informação não documentada poderá se perder definitivamente.
A Casa Kaiser é um dos mais valiosos bens históricos do município de Novo Hamburgo (RS). Situada em Hamburgo Velho, data aproximadamente de 1850, e não tem hoje qualquer proteção legal. Trata-se da única construção enxaimel que ainda apresenta-se na sua quase originalidade, mantendo tanto sua estrutura quanto seus interiores com pouquíssimas intervenções, devido a manutenção do uso residencial pela família até alguns anos atrás. Hoje encontra-se desocupada. Seria lamentável neste caso específico uma reciclagem de uso que desfigurasse seu interior, por se tratar da única edificação enxaimel da cidade e uma das únicas da região a manter-se praticamente original. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr. / Agosto 2010)
Os critérios cultural e morfológico, bem como os demais (técnico, paisagístico, funcional, reconhecimento teórico e popular, etc) se entrelaçam e se complementam, de forma que não se pode julgar a partir de apenas um ponto de vista. Nos próximos artigos, buscaremos discutir um pouco sobre os demais critérios. Deixe sua contribuição nos comentários!Texto: Jorge Luís Stocker Jr.
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Falando um pouco dos inventários...

Na cidade de Santa Maria do Herval (RS), a inexistência de qualquer tipo de levantamento torna frequente casos como este: edificações centenárias em técnica enxaimel são demolidas para dar lugar a prédios comuns da rotina imobiliária, que poderiam ser construídos em qualquer outra área livre da malha urbana. O patrimônio, que deveria articular o espaço urbano, some e dá lugar a falta de harmonia. (fotos: Elis Regina Berndt / 2008 e Jorge Luís Stocker Jr/2010)
Os inventários e seus critérios restritivos
O inventário do patrimônio cultural é sem dúvidas um importante instrumento: pode-se dizer que seja uma espécie de primeiro passo para o conhecimento das edificações e conjuntos importantes existentes no município. O produto do inventário é o conjunto de fichas-padrão, preenchidas com informações detalhadas específicas sobre a arquitetura e histórico de cada bem cultural, acompanhadas de levantamento fotográfico. Caso encontre o devido respaldo na legislação municipal e plano diretor, poderá se tornar o mais importante aliado na preservação e valorização do patrimônio cultural.
Quando o poder público toma a decisão de inventariar o legado arquitetônico, é recorrente que o trabalho seja feito pelo próprio corpo técnico das prefeituras. Este, embora devidamente capacitado, normalmente sofre a falta da autonomia necessária. Nestes casos, aparecem pressões de ordem política e econômica, alheias ao conhecimento científico, surgindo de critérios absurdos para a seleção das edificações: busca-se exemplares íntegros, sem alterações externas ou internas em relação ao estado original, e situadas em um entorno homogêneo ou harmônico. Busca-se, em suma, edificações em perfeito estado de conservação e, de preferência, aquelas cujos proprietários vejam a questão patrimonial com bons olhos e que "aceitem" ter seu bem tido como histórico.
Estes critérios, que seriam mais adequados para um passo maior, o tombamento municipal, acabam sendo adotados já para o filtro inicial, o inventário. Municípios com centenas de bens patrimoniais e conjuntos acabam limitando seu inventário a algumas dezenas de edificações, "as mais importantes e significativas". Com isto, limita-se ainda mais o universo de bens efetivamente tombados e protegidos integralmente: apenas aqueles "monumentais", segundo versam os antigos critérios, deveriam permanecer como monumentos históricos.
O inventário perde, então, o que deveria ser sua finalidade. Esperar-se-ia uma fonte completa de informações, devidamente mapeadas, a partir das quais seja possível separar e classificar os bens históricos por níveis de preservação (os que deveriam ser preservados na sua integridade, os que poderiam ser readequados internamente para novos usos com sensíveis alterações, ou mesmo os que poderiam ser desfigurados mantendo somente sua volumetria.)
Outro grande problema, é a adoção de critérios antiquados e preconceituosos para a seleção de bens. O inicialmente difamado estilo eclético já é hoje devidamente aceito como autêntico e histórico, no entanto, prédios pouco mais recentes que estes ainda encontram dificuldades. Pequenas cidades, cujo período de maior expressão foi influenciado pelo Art Deco, por exemplo, esbarram no desconhecimento da própria existência destas manifestações no município. Exemplares proto-modernos e do movimento moderno sequer são cogitados nas listagens. Isso se agrava pela inadequação das fichas padrão em relação as técnicas construtivas modernistas. A sua construção "muito recente" (embora alguns já datem dos anos 40) são a alegação mais comum quanto a exclusão destes bens nos inventários.

Duas edificações Art-Deco de Três Passos (RS). A cidade alcançou seu auge por volta dos anos 50, sendo característico da cidade este estilo, simplificado para o uso local. Não há registros de valorização deste legado. (fotos: Jorge Luís Stocker Jr/2010)
Os estilos historicistas, como o Missões / Mexicano / Californiano e os neo-medievais, encontram além da data de construção, o próprio preconceito cultivado dentro das escolas de arquitetura contra estes estilos. Por não se alinharem com a estética modernista vigente em suas épocas (majoritariamente até os anos 50), estes bens são considerados bregas, cenográficos, meros produtos imobiliários e desprovidos de qualquer valor histórico. No entanto, em muitos casos foram dentro destes estilos que surgiram os primeiros exemplares a apresentarem uma implantação diferenciada em relação ao lote, com recuos laterais ajardinados, aparecimento da garagem, aplicação de estratégias de conforto ambiental, técnica construtiva em concreto armado e uma série de novidades que são inegavalmente importantes e que justificam sua preservação. A própria existência de conjuntos homogêneos deste estilo deveria ser mais valorizada e levada em consideração, sob o risco de estarmos repetindo o mesmo erro cometido inicialmente contra o estilo eclético, e que abriu precedente para inúmeros crimes.

Esta casa em estilo missões, demolida em 2009 na cidade de Novo Hamburgo, ilustra a falta de atenção às edificações deste estilo. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr/2008)
Mas o que resta dizer, quando grande parte dos municípios não superou sequer este primeiro pequeno passo? Na maioria dos municípios inexiste sequer uma lista simples, quanto menos inventário ou tombamento. A meia dúzia de informações desencontradas existentes nas prefeituras destas cidades são arquivadas ou registradas nos mais diversos lugares e formatos e se perdem entre uma gestão e outra. A falta de bancos de dados digitais, constantemente atualizados e de fácil consulta, impedem a gestão adequada do patrimônio e dificultam sua própria divulgação.
Os inventários desmoralizados
Muitos municípios concluíram seu inventário do patrimônio cultural há bastante tempo. É o caso de cidades como Canoas, Sapiranga e Campo Bom (RS), que tem em comum o fato de terem realizado o inventário nos anos 90.
Era, então, ainda uma novidade a "abertura" dada pelos institutos de patrimônio às edificações relacionadas a imigração alemã, por exemplo. Mas, escassamente estudadas que eram até então, muitos exemplares seriam ignorados pela falta de informações que embasassem sua importância cultural.
A falta de respaldo na legislação municipal e a série de demolições que aconteceriam, muitas vezes durante o próprio processo de pesquisa, acabaram por desmoralizar estes levantamentos. Estes inventários não tem, hoje, nenhuma aplicação prática, sendo no máximo timidamente citados em planos diretores, audiências públicas e afins: o Inventário do Patrimônio Cultural, que deveria ser um instrumento importante, se torna um simples arquivo engavetado. Um mero e inutilizado conjunto de "registros históricos" do que a cidade TEVE até determinado ano, utilizados como forma de "cumprir o estatuto das cidades" com a manutenção de planos diretores fantasiosos e ineficientes, sem qualquer aplicabilidade no mundo real.

Exemplar do eclético típicos das áreas de colonização alemã, em Sapiranga (RS). Algumas vezes quando não estão demolidos, os bens inventariados encontram-se comprometidos em seu conteúdo histórico. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)
Tais adjetivos podem ser atribuídos ao inventário da cidade de Campo Bom. O estudo deste inventário, procedido pelo autor como exercício acadêmico no ano de 2009, demonstra seu "resultado prático": dos já poucos 57 bens listados em 1996, 12 hoje já se encontram completamente demolidos e 07 severamente danificados (desfigurados ou em ruínas).

Casos como o da Casa Moraes de Campo Bom são recorrentes: apesar de inventariados, são demolidos sem qualquer iniciativa da Prefeitura ou mesmo manifestações da sociedade. Esta casa foi esquecida tão rapidamente quanto demolida. (Foto: Inventário do Patrimônio Cultural de Campo Bom/1996)
Restam, portanto, apenas 37 bens 'praticamente' conservados, embora isso se deva ao puro acaso - não há nada que os proteja da demolição. Não apenas a falta de informação, especulação imobilária ou desinteresse dos proprietários explica tal resultado: a ineficiência e falta de interesse do poder público, aliado a conivência da sociedade, completam o triste caso. Lamentavelmente, se trata de uma das primeiras colônias alemãs no Brasil, que hoje tem muito pouco a mostrar aos seus visitantes e muito pouco a cultivar entre seus moradores.
Um quadro que começa a mudar
A Prefeitura de Canoas, desde 2009, tem buscado sistematicamente tombar os prédios históricos inventariados do município. A cidade, fragilizada em sua identidade pelo crescimento explosivo, pela proximidade com a capital e ainda pelas "chagas urbanas" abertas pela linha superficial do trensurb e pela BR-116, finalmente volta os olhares aos pequenos mas significativos exemplares do charme e da riqueza do seu patrimônio cultural.

Villa Nenê, recentemente tombada na cidade de Canoas (RS) (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)
Já foram tombadas a Villa Mimosa, Villa Nenê, Casa dos Wittrock, Igreja Matriz, Antiga estação férrea e Casa dos Rosa, sendo dois destes bens de propriedade privada. São passos importantes e que não podem parar por aí. Ainda existem poucas, mas importantes edificações que deveriam ser preservadas, estejam elas inclusas ou não no inventário anteriormente produzido. São o pouco que restou e que, devidamente pensadas e incluídas em projetos eficientes, podem ser reapropriados pela memória afetiva da população local.


Casas históricas de Canoas (RS), ambas da década de 20 e que deveriam ser urgentemente valorizadas. São das poucas edificações ainda existentes representantes existentes de um período determinante para a história do município, e não podem ser marginalizadas no planejamento urbano. (fotos: Jorge Luís Stocker Jr/2010)
Texto: Jorge Luís Stocker Jr.
Imagens: Elis Regina Berndt e Jorge Luís Stocker Jr.
Leia também:
- Notícias de tombamentos em Canoas (RS): [ 1 - 2 - 3 - 4 - 5 ]
- Manual de inventário do IPHAE-RS
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Apagando a história do centro (histórico) - Porto Alegre (RS)

Detalhe da Residência de Frederico Guilherme Jung, projeto de 1905 atribuído ao Arq. Hermann Otto Menchen. Um peculiar exemplar eclético com características neogóticas, completamente em ruínas, situado na Marechal Floriano, 520. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr./2009)
Quem passeia pelas ruas do centro de Porto Alegre com um olhar mais atento, depara-se com uma riqueza arquitetônica ímpar. São várias as características que identificam a arquitetura da cidade, formando um conjunto rico e heterogêneo que abrange as mais variadas manifestações arquitetônicas.
No perímetro central, a quantidade de bens tombados é, para padrões brasileiros, até considerável; estando muitos deles ocupados por centros culturais, museus, e outras instituições públicas. Mas além destes exemplares já reconhecidos do patrimônio cultural, existem centenas de edificações interessantes que merecem um olhar mais acurado e um estudo aprofundado de sua história.
Reconhecendo a diversidade desta riqueza, o poder público municipal de Porto Alegre recentemente rebatizou o bairro, alterando sua denominação para "CENTRO HISTÓRICO".

Detalhe do Palacete Amália Barcelos, projetado pelo Arq. Ricardo Wriedt em 1921. Situa-se na esquina da Duque de Caxias comVigário José Inácio. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr/2009)
Toda esta riqueza, supõe-se, estaria sendo valorizada através do reconhecimento como "Centro Histórico" da cidade. Assumindo a condição de um sítio histórico, o bairro deveria por consequência (e bom senso) ser urgentemente submetido a um extenso levantamento e pesquisa; resultando em um inventário e mapeamento digital completo - de preferência, procedido por profissionais com amplos conhecimentos na área e sem vínculos políticos. Um estudo que levasse em consideração as recentes descobertas das pesquisas acadêmicas, contemplando não apenas os remanescentes ecléticos, mas os tantos exemplares proto-modernos e modernistas que trazem peculiaridades e que definitivamente fazem parte da paisagem porto-alegrense.
No entanto, o que verificamos no dia-a-dia é justamente, o desprezo do poder público e a conivência da sociedade com a destruição ou desfiguração de importantes componentes do conjunto histórico. Tão celebrado e "vendido" aos turistas, o centro vai se tornando cada vez menos "histórico".
Deformação na Rua da Praia
Um recente caso aconteceu a um exemplar eclético da Rua da Praia, uma das vias públicas mais relevantes da cidade (e a mais emblemática durante a vigência do estilo eclético).

Vista da rua da Praia com o prédio antes de sua modificação. (foto cedida pelo forista Minuano/Skyscrapercity Brasil)

Prédio durante as obras, respeitando a legislação e critérios de segurança. Tudo "dentro da lei"(foto cedida pelo forista Minuano/Skyscrapercity Brasil)
O assombroso é que esta descaracterização se deu às claras, e sob o rigor da "lei": teria sido aprovada pelo setor competente. Oficializa-se, assim, mais um caso típico, onde estes lamentáveis ataques contra o patrimônio cultural são cometidos com a conivência e aprovação do poder público - constitucionalmente responsável por sua conservação e zelo.Fica no ar, então, uma série de dúvidas. A primeira delas, é quanto a própria denominação de "CENTRO HISTÓRICO", visto que a desfiguração deste exemplar demonstra uma séria contradição a tal denominação.

A situação atual do prédio, completamente desfigurado.(foto cedida pelo forista Minuano/Skyscrapercity Brasil)
Uma edificação eclética, integrante do conjunto que caracteriza o Centro Histórico de Porto Alegre, tornou-se mais um exemplar qualquer, rotineiro, desprovido de qualquer valor, interesse ou significado; graças a conivência do poder público.
Estaria este prédio arrolado no inventário recentemente atualizado do centro? Caso estivesse, por que a modificação não foi barrada pelo poder público? Se não integrava a listagem, qual o critério adotado pelo poder público para a seleção das edificações? E qual, afinal, o tratamento que está sendo dispensado a este inventário - que importância está se atribuindo a este importante levantamento? Esta demolição foi aprovada pela comissão do patrimônio cultural?

Retrato do "abandono moral" do centro histórico. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr/2010)
É visível que a visão de patrimônio histórico limitado apenas aos bens tombados e desapropriados pelo poder público; constituindo pequenas ilhas ou "pontos de interesse" espalhados pela cidade, não é saudável para a compreensão do bairro como um todo, um conjunto (não apenas histórico, mas um "conjunto" de edificações que realmente faça sentido através de suas formas e usos).Um retrato ineficiência desta visão se manifesta mesmo em bens tombados, mas de propriedade particular. Na rua Riachuelo: um dos últimos exemplares coloniais sucumbe e, apesar de estar tombado há décadas, não verifica-se iniciativas no sentido de valorizá-lo aos olhos da população, quanto menos, de recuperar sua integridade e sua utilidade.

Casa Ferreira de Azevedo: tombada, mas completamente abandonada e desfigurada, próxima a Igreja Nossa Senhora das Dores, na Rua Riachuelo. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2008)
Que tipo de centro histórico Porto Alegre merece, afinal?
Leia também:
- Link sobre a Casa Ferreira de Azevedo na Wikipedia;
- Veja o que já escrevemos sobre a importância de preservar o patrimônio cultural no meio urbano;
- Nosso artigo sobre a desfiguração do legado modernista de Porto Alegre;
- Livro: Arquitetura Erudita da Imigração Alemã no RS - Günter Weimer (fonte das informações das imagens 01 e 02)








