quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Falando um pouco dos inventários...

A preservação do patrimônio cultural brasileiro encontra, no geral, empecilhos que já deveriam estar superados há muitas décadas. A falta de políticas municipais é o maior deles, e apenas reflete o ócio da sociedade na valorização do seu legado. O primeiro passo - inventariar o que existe - acaba sendo permeado de interesses políticos econômicos ou preconceitos ideológicos, impedindo uma correta valorização do patrimônio enquanto integrante e agente qualificador do espaço urbano.


Na cidade de Santa Maria do Herval (RS), a inexistência de qualquer tipo de levantamento torna frequente casos como este: edificações centenárias em técnica enxaimel são demolidas para dar lugar a prédios comuns da rotina imobiliária, que poderiam ser construídos em qualquer outra área livre da malha urbana. O patrimônio, que deveria articular o espaço urbano, some e dá lugar a falta de harmonia. (fotos: Elis Regina Berndt / 2008 e Jorge Luís Stocker Jr/2010)


Os inventários e seus critérios restritivos

O inventário do patrimônio cultural é sem dúvidas um importante instrumento: pode-se dizer que seja uma espécie de primeiro passo para o conhecimento das edificações e conjuntos importantes existentes no município. O produto do inventário é o conjunto de fichas-padrão, preenchidas com informações detalhadas específicas sobre a arquitetura e histórico de cada bem cultural, acompanhadas de levantamento fotográfico. Caso encontre o devido respaldo na legislação municipal e plano diretor, poderá se tornar o mais importante aliado na preservação e valorização do patrimônio cultural.

Quando o poder público toma a decisão de inventariar o legado arquitetônico, é recorrente que o trabalho seja feito pelo próprio corpo técnico das prefeituras. Este, embora devidamente capacitado, normalmente sofre a falta da autonomia necessária. Nestes casos, aparecem pressões de ordem política e econômica, alheias ao conhecimento científico, surgindo de critérios absurdos para a seleção das edificações: busca-se exemplares íntegros, sem alterações externas ou internas em relação ao estado original, e situadas em um entorno homogêneo ou harmônico. Busca-se, em suma, edificações em perfeito estado de conservação e, de preferência, aquelas cujos proprietários vejam a questão patrimonial com bons olhos e que "aceitem" ter seu bem tido como histórico.

Estes critérios, que seriam mais adequados para um passo maior, o tombamento municipal, acabam sendo adotados já para o filtro inicial, o inventário. Municípios com centenas de bens patrimoniais e conjuntos acabam limitando seu inventário a algumas dezenas de edificações, "as mais importantes e significativas". Com isto, limita-se ainda mais o universo de bens efetivamente tombados e protegidos integralmente: apenas aqueles "monumentais", segundo versam os antigos critérios, deveriam permanecer como monumentos históricos.
O inventário perde, então, o que deveria ser sua finalidade. Esperar-se-ia uma fonte completa de informações, devidamente mapeadas, a partir das quais seja possível separar e classificar os bens históricos por níveis de preservação (os que deveriam ser preservados na sua integridade, os que poderiam ser readequados internamente para novos usos com sensíveis alterações, ou mesmo os que poderiam ser desfigurados mantendo somente sua volumetria.)

Outro grande problema, é a adoção de critérios antiquados e preconceituosos para a seleção de bens. O inicialmente difamado estilo eclético já é hoje devidamente aceito como autêntico e histórico, no entanto, prédios pouco mais recentes que estes ainda encontram dificuldades. Pequenas cidades, cujo período de maior expressão foi influenciado pelo Art Deco, por exemplo, esbarram no desconhecimento da própria existência destas manifestações no município. Exemplares proto-modernos e do movimento moderno sequer são cogitados nas listagens. Isso se agrava pela inadequação das fichas padrão em relação as técnicas construtivas modernistas. A sua construção "muito recente" (embora alguns já datem dos anos 40) são a alegação mais comum quanto a exclusão destes bens nos inventários.


Duas edificações Art-Deco de Três Passos (RS). A cidade alcançou seu auge por volta dos anos 50, sendo característico da cidade este estilo, simplificado para o uso local. Não há registros de valorização deste legado. (fotos: Jorge Luís Stocker Jr/2010)

Os estilos historicistas, como o Missões / Mexicano / Californiano e os neo-medievais, encontram além da data de construção, o próprio preconceito cultivado dentro das escolas de arquitetura contra estes estilos. Por não se alinharem com a estética modernista vigente em suas épocas (majoritariamente até os anos 50), estes bens são considerados bregas, cenográficos, meros produtos imobiliários e desprovidos de qualquer valor histórico. No entanto, em muitos casos foram dentro destes estilos que surgiram os primeiros exemplares a apresentarem uma implantação diferenciada em relação ao lote, com recuos laterais ajardinados, aparecimento da garagem, aplicação de estratégias de conforto ambiental, técnica construtiva em concreto armado e uma série de novidades que são inegavalmente importantes e que justificam sua preservação. A própria existência de conjuntos homogêneos deste estilo deveria ser mais valorizada e levada em consideração, sob o risco de estarmos repetindo o mesmo erro cometido inicialmente contra o estilo eclético, e que abriu precedente para inúmeros crimes.


Esta casa em estilo missões, demolida em 2009 na cidade de Novo Hamburgo, ilustra a falta de atenção às edificações deste estilo. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr/2008)

Mas o que resta dizer, quando grande parte dos municípios não superou sequer este primeiro pequeno passo? Na maioria dos municípios inexiste sequer uma lista simples, quanto menos inventário ou tombamento. A meia dúzia de informações desencontradas existentes nas prefeituras destas cidades são arquivadas ou registradas nos mais diversos lugares e formatos e se perdem entre uma gestão e outra. A falta de bancos de dados digitais, constantemente atualizados e de fácil consulta, impedem a gestão adequada do patrimônio e dificultam sua própria divulgação.



Os inventários desmoralizados

Muitos municípios concluíram seu inventário do patrimônio cultural há bastante tempo. É o caso de cidades como Canoas, Sapiranga e Campo Bom (RS), que tem em comum o fato de terem realizado o inventário nos anos 90.

Era, então, ainda uma novidade a "abertura" dada pelos institutos de patrimônio às edificações relacionadas a imigração alemã, por exemplo. Mas, escassamente estudadas que eram até então, muitos exemplares seriam ignorados pela falta de informações que embasassem sua importância cultural.

A falta de respaldo na legislação municipal e a série de demolições que aconteceriam, muitas vezes durante o próprio processo de pesquisa, acabaram por desmoralizar estes levantamentos. Estes inventários não tem, hoje, nenhuma aplicação prática, sendo no máximo timidamente citados em planos diretores, audiências públicas e afins: o Inventário do Patrimônio Cultural, que deveria ser um instrumento importante, se torna um simples arquivo engavetado. Um mero e inutilizado conjunto de "registros históricos" do que a cidade TEVE até determinado ano, utilizados como forma de "cumprir o estatuto das cidades" com a manutenção de planos diretores fantasiosos e ineficientes, sem qualquer aplicabilidade no mundo real.


Exemplar do eclético típicos das áreas de colonização alemã, em Sapiranga (RS). Algumas vezes quando não estão demolidos, os bens inventariados encontram-se comprometidos em seu conteúdo histórico. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)

Tais adjetivos podem ser atribuídos ao inventário da cidade de Campo Bom. O estudo deste inventário, procedido pelo autor como exercício acadêmico no ano de 2009, demonstra seu "resultado prático": dos já poucos 57 bens listados em 1996, 12 hoje já se encontram completamente demolidos e 07 severamente danificados (desfigurados ou em ruínas).


Casos como o da Casa Moraes de Campo Bom são recorrentes: apesar de inventariados, são demolidos sem qualquer iniciativa da Prefeitura ou mesmo manifestações da sociedade. Esta casa foi esquecida tão rapidamente quanto demolida. (Foto: Inventário do Patrimônio Cultural de Campo Bom/1996)

Restam, portanto, apenas 37 bens 'praticamente' conservados, embora isso se deva ao puro acaso - não há nada que os proteja da demolição. Não apenas a falta de informação, especulação imobilária ou desinteresse dos proprietários explica tal resultado: a ineficiência e falta de interesse do poder público, aliado a conivência da sociedade, completam o triste caso. Lamentavelmente, se trata de uma das primeiras colônias alemãs no Brasil, que hoje tem muito pouco a mostrar aos seus visitantes e muito pouco a cultivar entre seus moradores.

Um quadro que começa a mudar

Felizmente, nem tudo são lamentações: na cidade de Canoas (RS), após mais de uma década da conclusão do inventário, e depois de muitas demolições, o assunto começa finalmente a ser levado a sério pelo poder público local.

A Prefeitura de Canoas, desde 2009, tem buscado sistematicamente tombar os prédios históricos inventariados do município. A cidade, fragilizada em sua identidade pelo crescimento explosivo, pela proximidade com a capital e ainda pelas "chagas urbanas" abertas pela linha superficial do trensurb e pela BR-116, finalmente volta os olhares aos pequenos mas significativos exemplares do charme e da riqueza do seu patrimônio cultural.


Villa Nenê, recentemente tombada na cidade de Canoas (RS) (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)

Já foram tombadas a Villa Mimosa, Villa Nenê, Casa dos Wittrock, Igreja Matriz, Antiga estação férrea e Casa dos Rosa, sendo dois destes bens de propriedade privada. São passos importantes e que não podem parar por aí. Ainda existem poucas, mas importantes edificações que deveriam ser preservadas, estejam elas inclusas ou não no inventário anteriormente produzido. São o pouco que restou e que, devidamente pensadas e incluídas em projetos eficientes, podem ser reapropriados pela memória afetiva da população local.



Casas históricas de Canoas (RS), ambas da década de 20 e que deveriam ser urgentemente valorizadas. São das poucas edificações ainda existentes representantes existentes de um período determinante para a história do município, e não podem ser marginalizadas no planejamento urbano. (fotos: Jorge Luís Stocker Jr/2010)

Texto: Jorge Luís Stocker Jr.
Imagens: Elis Regina Berndt e Jorge Luís Stocker Jr.

Leia também:

- Notícias de tombamentos em Canoas (RS): [ 1 - 2 - 3 - 4 - 5 ]

- Manual de inventário do IPHAE-RS

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Apagando a história do centro (histórico) - Porto Alegre (RS)

Reconhecido por sua riqueza cultural, o centro da cidade de Porto Alegre, capital gaúcha, foi recentemente re-batizado "Centro Histórico". A iniciativa, que busca associar a imagem do bairro ao seu patrimônio, parece ter se limitado apenas a uma mudança de nome.

Detalhe da Residência de Frederico Guilherme Jung, projeto de 1905 atribuído ao Arq. Hermann Otto Menchen. Um peculiar exemplar eclético com características neogóticas, completamente em ruínas, situado na Marechal Floriano, 520. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr./2009)

Quem passeia pelas ruas do centro de Porto Alegre com um olhar mais atento, depara-se com uma riqueza arquitetônica ímpar. São várias as características que identificam a arquitetura da cidade, formando um conjunto rico e heterogêneo que abrange as mais variadas manifestações arquitetônicas.

No perímetro central, a quantidade de bens tombados é, para padrões brasileiros, até considerável; estando muitos deles ocupados por centros culturais, museus, e outras instituições públicas. Mas além destes exemplares já reconhecidos do patrimônio cultural, existem centenas de edificações interessantes que merecem um olhar mais acurado e um estudo aprofundado de sua história.
Reconhecendo a diversidade desta riqueza, o poder público municipal de Porto Alegre recentemente rebatizou o bairro, alterando sua denominação para "CENTRO HISTÓRICO".


Detalhe do Palacete Amália Barcelos, projetado pelo Arq. Ricardo Wriedt em 1921. Situa-se na esquina da Duque de Caxias comVigário José Inácio. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr/2009)

A iniciativa é interessante e demonstra uma visão mais ampla do conceito de patrimônio cultural e de sítios históricos. Definitivamente, não se trata de um conjunto homogêneo. Há, no entanto, uma densidade considerável de prédios de interesse histórico, arquitetônico e cultural. São resquícios coloniais, convivendo com residências, palacetes e prédios ecléticos; além de interessantes edificações Art Deco, algumas poucas com influencia Art Nouveau, e grandes prédios proto-modernos e finalmente, modernistas.

Toda esta riqueza, supõe-se, estaria sendo valorizada através do reconhecimento como "Centro Histórico" da cidade. Assumindo a condição de um sítio histórico, o bairro deveria por consequência (e bom senso) ser urgentemente submetido a um extenso levantamento e pesquisa; resultando em um inventário e mapeamento digital completo - de preferência, procedido por profissionais com amplos conhecimentos na área e sem vínculos políticos. Um estudo que levasse em consideração as recentes descobertas das pesquisas acadêmicas, contemplando não apenas os remanescentes ecléticos, mas os tantos exemplares proto-modernos e modernistas que trazem peculiaridades e que definitivamente fazem parte da paisagem porto-alegrense.

No entanto, o que verificamos no dia-a-dia é justamente, o desprezo do poder público e a conivência da sociedade com a destruição ou desfiguração de importantes componentes do conjunto histórico. Tão celebrado e "vendido" aos turistas, o centro vai se tornando cada vez menos "histórico".

Deformação na Rua da Praia

Um recente caso aconteceu a um exemplar eclético da Rua da Praia, uma das vias públicas mais relevantes da cidade (e a mais emblemática durante a vigência do estilo eclético).


Vista da rua da Praia com o prédio antes de sua modificação. (foto cedida pelo forista Minuano/Skyscrapercity Brasil)

O prédio, indicado à esquerda, apresentava sua fachada relativamente bem conservada em relação a provável configuração original. Remontava ao período social mais importante da Rua da Praia, apresentando uma fachada eclética rica em detalhes e ornamentação. No entanto, apesar da inegável importância no contexto que ocupava, este prédio foi integralmente descaracterizado, sem qualquer reflexão ou manifestação pública no sentido de pesquisar mais profundamente sua importância ou comprovar sua importância no conjunto.

Prédio durante as obras, respeitando a legislação e critérios de segurança. Tudo "dentro da lei"(foto cedida pelo forista Minuano/Skyscrapercity Brasil)

O assombroso é que esta descaracterização se deu às claras, e sob o rigor da "lei": teria sido aprovada pelo setor competente. Oficializa-se, assim, mais um caso típico, onde estes lamentáveis ataques contra o patrimônio cultural são cometidos com a conivência e aprovação do poder público - constitucionalmente responsável por sua conservação e zelo.

Fica no ar, então, uma série de dúvidas. A primeira delas, é quanto a própria denominação de "CENTRO HISTÓRICO", visto que a desfiguração deste exemplar demonstra uma séria contradição a tal denominação.


A situação atual do prédio, completamente desfigurado.(foto cedida pelo forista Minuano/Skyscrapercity Brasil)

A descaracterização se mostra completamente desprovida de sentido: não adiciona nenhum valor arquitetônico contemporâneo ou funcionalidade. É visível que, além da péssima qualidade arquitetônica resultante desta intervenção, as modificações não foram introduzidas de forma a viabilizar novos usos. Percebe-se que sequer foram alteradas as aberturas: a intenção parece, salvo engano, simplesmente desfigurar uma edificação histórica, "tirar-lhe" qualquer valor que possa resultar numa futura proteção legal.

Uma edificação eclética, integrante do conjunto que caracteriza o Centro Histórico de Porto Alegre, tornou-se mais um exemplar qualquer, rotineiro, desprovido de qualquer valor, interesse ou significado; graças a conivência do poder público.

Estaria este prédio arrolado no inventário recentemente atualizado do centro? Caso estivesse, por que a modificação não foi barrada pelo poder público? Se não integrava a listagem, qual o critério adotado pelo poder público para a seleção das edificações? E qual, afinal, o tratamento que está sendo dispensado a este inventário - que importância está se atribuindo a este importante levantamento? Esta demolição foi aprovada pela comissão do patrimônio cultural?

Retrato do "abandono moral" do centro histórico. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr/2010)

É visível que a visão de patrimônio histórico limitado apenas aos bens tombados e desapropriados pelo poder público; constituindo pequenas ilhas ou "pontos de interesse" espalhados pela cidade, não é saudável para a compreensão do bairro como um todo, um conjunto (não apenas histórico, mas um "conjunto" de edificações que realmente faça sentido através de suas formas e usos).

Um retrato ineficiência desta visão se manifesta mesmo em bens tombados, mas de propriedade particular. Na rua Riachuelo: um dos últimos exemplares coloniais sucumbe e, apesar de estar tombado há décadas, não verifica-se iniciativas no sentido de valorizá-lo aos olhos da população, quanto menos, de recuperar sua integridade e sua utilidade.


Casa Ferreira de Azevedo: tombada, mas completamente abandonada e desfigurada, próxima a Igreja Nossa Senhora das Dores, na Rua Riachuelo. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2008)

Que tipo de centro histórico Porto Alegre merece, afinal?

Leia também:

- Link sobre a Casa Ferreira de Azevedo na Wikipedia;

- Veja o que já escrevemos sobre a importância de preservar o patrimônio cultural no meio urbano;

- Nosso artigo sobre a desfiguração do legado modernista de Porto Alegre;

- Livro: Arquitetura Erudita da Imigração Alemã no RS - Günter Weimer (fonte das informações das imagens 01 e 02)


terça-feira, 29 de junho de 2010

Questões patrimoniais em Up - Altas Aventuras, Toy Story 3 e Dona Cristina Perdeu a Memória

O meio do patrimônio cultural muitas vezes é pesado e repleto de ranço e mau humor. Há sempre alguém disposto a puxar o tapete, seja por motivos financeiros, políticos, ou até mesmo, pelo próprio "poder da palavra"(são os ditos "donos do patrimônio".)


Filmes como Toy Story 3 podem ser fonte riquíssima de interpretações lúdicas a respeito da importância da memória.(fonte: IMDB / Pixar Disney)

Em tempo de pluralidade de interpretações e de teorias, alguns conceitos apressados vão perdendo sua vez, as soluções rápidas e acríticas tomadas em outro contexto vão se mostrando ineficientes. Este ambiente líquido traz insegurança, mas também, um campo fértil e múltiplo para atuação. Nunca se viu tantos projetos de educação patrimonial, pesquisas, inventários e interesses voltados ao legado cultural. Apesar das muitas perdas e tristes episódios, um novo horizonte começa a se esboçar, graças aos trabalhos de "formiguinha" que começam a pipocar por aí, gerando tombamentos, inventários, rotas culturais e turísticas, centros de cultura, museus comunitários, e uma pluralidade de novos resultados interessantes.

Dentro dessa perspectiva, torna-se incompreensível o clima de ranço e baixa-estima mantido por alguns dos envolvidos na causa patrimonial. Buscamos com este artigo, dissolver um pouco desse peso, trazendo uma abordagem leve sobre o tema, brincando de certa forma, de problematizar questões patrimoniais a partir de produtos culturais.

Encontramos, despretenciosamente, interessantes referências a área de patrimônio cultural no roteiro de dois longa-metragens de animação. São eles Up - Altas Aventuras e Toy Story 3, ambos produzidos numa parceria da Pixar com a Disney. Como um contraponto local, incluímos o belíssimo curta-metragem Dona Cristina Perdeu a Memória, dirigido por Ana Luísa Azevedo (diretora do recente "Antes que o Mundo Acabe").

Atenção, os textos contém spoilers!

A Especulação Imobiliária e a memória afetiva em Up! - Altas Aventuras

O longa-metragem de animação em 3d UP! - Altas Aventuras foi lançado no ano de 2009, tornando-se uma das maiores bilheterias do ano. O filme conta a história de Carl Fredericksen, um idoso viúvo que vive com a memória de sua falecida esposa Ellie. O longa apresenta logo de início uma espécie de "resumo" da história do casal, e de forma divertida, sensibiliza para a cumplicidade e doçura dos momentos compartilhados juntos. Vemos que os dois se conhecem durante brincadeiras em uma casa abandonada. Pelo apego sentimental, adquirem esta casa após o casamento, e a transformam em um lar aconchegante - exatamente como o planejado quando se conheceram ainda crianças.


A casa do sr. Carl flutuando pela cidade - descontextualizada pela nova configuração urbana, só resta "partir" para um mundo de sonhos (fonte: IMDB / Pixar Disney)

Triste por perceber que a sua amada jamais realizou o sonho de conhecer a "Cachoeira dos Sonhos", Carl sofre com as lembranças, e também com um conflito econômico. Cercado por um grande empreendimento imobiliário, Carl acaba se desentendendo com um representante da construtora que pretende comprar sua casa (última restante no quarteirão) para demolir. Irritado, acaba agredindo o trabalhador e é punido com um mandato de interdição. Querem levar o senhor para o asilo, mas este consegue fugir, fazendo a casa voar com o material da época em que vendia balões! Sai então em busca da Cachoeira como forma de realizar postumamente o desejo de vida de sua parceira.



O casal reforma a casa onde se conheceu, transformando num lar aconchegante (fonte: IMDB / Pixar Disney)

Neste começo, já vemos uma situação recorrente nas nossas cidades: com a falta de controle do gabarito, que deveria dar-se através dos planos diretores, as cidades transformam-se em "canteiro de obras". A questão se descentraliza do desinteresse na manutenção das casas antigas, e se direciona para o valor que os terrenos adquirem. Explicamos: a Prefeitura "libera" construções com muitos pavimentos em uma área caracterizada por residências unifamiliares, onde anteriormente não havia esta liberdade. Esses terrenos passam ntão, por uma valorização que supera em muito o valor que uma pequena construção pode suprir com sua área útil. Trocando em miúdos: a partir do momento em que são declarados, através do plano diretor, integrantes de uma zona com grande índice de aproveitamento (IA), o terreno passa a valer uma fábula, pela nova possibilidade de construção vertical com muitos pavimentos, e em consequência, muito lucro com a venda de várias unidades. A manutenção das residências unifamiliares, e entre elas, as casas históricas destas regiões, se torna economicamente insustentável.

O filme mostra, ainda, a difícil relação entre o senhor Fredericksen e o jovem escoteiro Russel. Frutos de épocas e mentalidades completamente diferentes, são "forçados" a conviver a partir do momento em que o persistente garoto é acidentalmente "sequestrado", quando o casa do sr. Carl levanta vôo e ele encontra-se na varanda. A relação dos dois se desenvolve aos poucos, passando por momentos bastante simbólicos visualmente, com destaque para a dupla "carregando" juntos a casa flutuante (o legado afetivo do sr. Fredericksen), amarrados a cordas.


A dupla carregando a casa até o local dos sonhos de Ellie. (fonte: IMDB / Pixar Disney)

Após uma sucessão de acontecimentos, a casa do sr. Fredericksen volta ao chão e, com a queda, fica completamente bagunçada. Triste, o senhor senta-se em meio a bagunça e contempla o álbum que a esposa havia criado quando criança. Com amargura, contempla a seção que havia ao final: "Coisas que irei fazer". A esposa não havia vivido a aventura que sonhava na cachoeira dos Sonhos, mas Carl surpreende-se ao deparar-se com o contraponto, uma série de fotos do casal em momentos felizes que passaram juntos. Ellie deixou a mensagem do que havia, de fato, "feito": vivido uma aventura! Cabe frisar que o sr. Fredericksen apenas voltou a contemplar este álbum (re-analisar?) devido a provável confusão de seu imaginário, após tantos acontecimentos e novidades que abalaram o mundo tal qual ele conhecia (abalo expresso visualmente na casa bagunçada). A memória funcionando como uma troca e reinterpretação do passado em decorrência do momento atual. Essa "revisão" se completa quando Carl decide livrar-se do "peso" do mobiliário, permitindo que a casa volte a flutuar: o esquecimento fazendo parte do processo de memória e reinterpretação, funcionando como "selecionador" do que pode e o que não pode fazer sentido hoje.

Ao final do filme, finalmente e após muitas aventuras partilhadas juntos, o sr. Carl Fredericksen e o garoto Russel tornam-se grandes amigos. Numa cena bastante emblemática, Carl entrega para o garoto o "distintivo Ellie" - na verdade apenas uma tampinha de refrigerante, para ele repleta de significados. Significados valorizados também pelo garoto, agora que tinham tanto em comum e compartilhavam sua história.

O legado confiado a nova geração - Toy Story 3 3D


O terceiro capítulo da saga Toy Story foi recentemente lançado, tomando partido da tecnologia 3D. O filme, no entanto, não abusa dos recursos visuais oferecidos por esta linguagem: esqueça as cenas de vôos rasantes e de objetos voando no espectador, tão comuns nos demais filmes recentemente lançados. O foco aqui é o roteiro, muito divertido mas sensível e tocante: de brincadeira, corre por aí a declaração de que a Pixar teria utilizado a tecnologia 3d apenas para que o público não tenha vergonha de chorar no cinema, com os olhos escondidos atrás dos óculos 3d!


Encarando as mudanças: Andy é desafiado a decidir o destino das "tralhas". (fonte: IMDB / Pixar Disney)

O longa conta com muitos momentos de grande carga emocional e caráter simbólico. Um deles diz respeito aos brinquedos, lembranças da infância, confinados numa "caixa de memórias". Os brinquedos fazem de tudo para ser vistos, mas nada funciona: eles não fazem mais sentido na vida do agora jovem Andy.


O difícil momento de contemplar o "passado" e definir seu destino. (fonte: IMDB / Pixar Disney)

Num momento crítico, de mudança de cotidiano, o garoto enfrenta o desafio de selecionar o que vai levar para a faculdade, o que vai descartar e o que irá guardar no porão. Ou seja: o que vai continuar fazendo parte de sua vida; as lembranças que ficarão intocáveis e escondidas, longe de reinterpretações e resignificações da vida diária; e o que pretende esquecer de vez.

Por um descuido, a sacola onde o garoto confina os brinquedos (com exceção de Woody, que pretende levar pra faculdade) acaba sendo confundida com lixo por sua mãe. Os brinquedos sentem-se agora descartados, e, às escondidas, colocam-se numa caixa que é doada para a creche Sunnyside. Neste local, são destinados como brinquedos numa sala de crianças muito pequenas, onde são praticamente "torturados". Os novos donos (ainda) não entendem aquele "legado" que receberam: mordem, quebram, sujam. Os brinquedos não fazem sentido pra quem ainda não tem referências na memória.
Caíram em mãos despreparadas.


O que ainda faz sentido no momento atual? (fonte: IMDB / Pixar Disney)

Os brinquedos, procurando fugir daquele local onde estão presos, unem-se e conseguem, após alguns atritos, libertar-se. No entanto, por acidente vão parar novamente no lixo, sendo quase completamente incinerados. Salvam-se, no entanto, e conseguem voltar para a casa do garoto Andy a tempo de entrar na caixa de itens destinados a ficarem estocados no sótão.
Em seguida, depois de um bilhete escrito pelo brinquedo Woody, vem uma das cenas mais bonitas e tocantes do filme: o garoto toma coragem e decide doar aquele capítulo importante de sua infância para uma garotinha. Aqueles brinquedos não podem, de forma alguma, voltar a fazer sentido em sua própria vida, que entra em outra fase. Porém, ao invés de descartar ou enterrar no porão da memória, Andy deixa este legado cuidadosamente, para quem ele ainda pode ter importância! Relembrando sua infância, nomeia cada um dos brinquedos, deixando claro que a garota precisa "dar conta" de receber um legado tão importante pra ele (incluindo o boneco Woody, seu "melhor amigo" de infância).
E finalmente, os brinquedos (o legado afetivo do garoto) encontram novo dono (se tornam o legado afetivo, presente na vida cotidiana e atual de outra pessoa!).


Unindo gerações em Dona Cristina Perde a Memória


Um curta-metragem muito simples e tocante, fruto de um projeto da Casa de Cinema de Porto Alegre e dirigido pela gaúcha Ana Luísa Azevedo. Com o tempo da narrativa marcado visualmente pelo caminhar compassado de um patinho de brinquedo, o roteiro versa sobre os contatos do garoto Antônio com Dona Cristina. Interna de um lar de idosos, Dona Cristina sofre de perda de memória recente, o que a faz esquecer completamente de seus contatos anteriores com o garoto.


Separados por suas diferenças, o menino Antônio (Pedro Tergolina) e Dona Cristina (Lissy Brock). (fonte: Casa de Cinema de Porto Alegre)

Confuso com o frequente esquecimento da senhora, Antônio diverte-se inventando novos nomes para si mesmo, enquanto tenta construir uma ponte de madeira para atravessar de bicileta uma pequena fenda do pátio. Aos poucos, porém, percebe que existe uma "lógica" por trás das memórias de dona Cristina, que embaralha informações verdadeiras com um toque de fantasia, como uma forma de tornar suas recordações reais de palpáveis (como quando confunde a história de sua família e seus nomes, atribuindo características de pessoas conhecidas a nomes fictícios e a outros internos do asilo).

Fechada em si mesmo e acuada pelo tratamento impessoal que recebe das enfermeiras, que a tratam como criança, a senhora ocupa seu tempo construindo a "barreira simbólica" que a divide do mundo e da geração atual. Porém, a partir dos contatos com Antônio, a senhora começa a descontruir essa barreira.


Antônio (Pedro Tergolina) "atravessa" a barreira construída por Dona Cristina (Lissy Brock). (fonte: Casa de Cinema de Porto Alegre)

Ciente de suas limitações físicas, a senhora decide deixar para o menino Antônio todos seus "objetos de memória". Estes objetos asseguram a memória da senhora: com eles, é possível recordar de coisas passadas, que se tornariam cada vez mais nebulosas sem a presença física dessas "lembranças". Tal relação vem em encontro de tudo que dizemos frequentemente nos demais artigos: o legado material é importantíssimo, como meio de assegurar a manutenção da memória. Sem eles, a memória "perde-se" em si mesma e não é legada às novas gerações, e portanto, é desprovida de sentido para elas.

Ao "legar"/compartilhar suas lembranças com o menino Antônio, dona Cristina deixa para a nova geração um pouco de tudo aquilo que era importante para ela - e pede para que ele "guarde aquelas memórias", para o caso de ela esquecer: "Se eu precisar lembrar de alguma coisa, eu te procuro"!


Dona Cristina (Lissy Brock) confia seu legado ao menino Antônio (Pedro Tergolina). (fonte: Casa de Cinema de Porto Alegre)

Eis o legado cultural em sua essência! E para completar o tocante caráter simbólico que pode ser extraído desta história,Dona Cristina constrói uma ponte, a partir do material da cerca que os separava (as diferenças). Com esta ajuda, e com o cuidado de quem sabe do valor afetivo dos objetos que carregava na cestinha da bicicleta, finalmente Antônio consegue atravessar a ponte sem cair! As gerações atuais, certamente, tem muito a aprender com as "donas Cristinas" que existem por aí. Somente com as "pontes" construídas através das próprias diferenças de trajetória e de contextos, a geração atual poderá deixar de cair e se espatifar, vítima da própria inexperiência que conduz aos frequentes erros!



Munido do legado de Dona Cristina (Lissy Brock), Antônio (Pedro Tergolina) deixa de cair. (fonte: Casa de Cinema de Porto Alegre)

Estas breves e despretenciosas análises não esgotam o tema, mas esperamos, possam ser ponto de partida para que novos olhares sejam lançados aos diversos produtos culturais com os quais temos contato (música, filmes, novelas...?) Patrimônio cultural não é apenas o saber acadêmico teórico existente nos livros, é parte do coditiano, das memórias e emoções. Por esta importância, está representado em muitos setores de nossas vidas!

Veja também:

- Assista o curta Dona Cristina perdeu a Memória no Porta Curtas.