quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Die Zeit - Dois anos no ar!

O blog Die Zeit completa hoje (25/02/2011) dois anos de sua publicação!

Temos a comemorar, principalmente, o acréscimo que tivemos em visitação: praticamente 80% em relação ao que atingimos no primeiro ano. Embora a marca de 8610 visitas seja modesta, nos orgulhamos dela pela consciência de mantermos um blog com esta temática, que nem sempre é de interesse geral, atingindo um público alvo muito específico. Constatamos a existência de uma lacuna; que é a difusão e pensamento crítico a respeito do patrimônio cultural gaúcho, que estamos tentando ocupar da melhor forma possível.

Receiosos de estarmos superestimando nossa pequena abrangência, acreditamos ter sido felizes este último ano, ao difundir informações e opiniões em questões críticas e pontuais, como a desfiguração do centro histórico de São Leopoldo (primeiramente contra uma homenagem equivocada, e posteriormente quanto a insistência do poder público daquela cidade). Mas para além das polêmicas, e mostrando que não estamos apenas tentando nos auto-promover, procuramos exorcizar o clima pesado e hostil que permeia a área de patrimônio cultural, com textos mais lúdicos, abordando a relação entre algumas animações computadorizadas, como Up! e Toy Story, com conceitos de patrimônio cultural, ou mesmo nos divertindo com as vaquinhas da Cow Parade. Se por um lado, compartilhamos resultados de pesquisas científicas, como no caso do texto sobre análise de fotografias; por outro, buscamos não nos preocupar com dogmatismos do meio acadêmico, arriscando um tom mais categórico quando julgamos necessário (como nesta desfiguração de uma casa histórica na Rua da Praia de Porto Alegre).

Nosso foco no último ano foi sugerir um pensamento crítico a respeito dos inventários do patrimônio cultural, ineficientes (como frisamos no caso de Campo Bom) ou mesmo ainda inexistentes. É uma tecla que pretendemos continuar pressionando, com a esperança de que consigamos sensibilizar quanto a necessidade de uso correto deste instrumento como ponto de partida para políticas patrimôniais eficientes. Escrevemos não como os grandes teóricos que não somos, mas com a certeza de estarmos buscando a continuidade dos bens patrimoniais, sendo categóricos a respeito das justificadtivas hipócritas que visam contemplar interesses particulares.
Nosso agradecimento a todos que nos acompanham, pelo tempo e paciência que concedem.


Obrigado!

Jorge Luís Stocker Junior.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

São Leopoldo (RS) está sumindo - "a todo vapor"!

Imitações históricas fantasiosas. Enjambrações e desfiguração de prédios históricos. Muitos destes erros com os quais nos deparamos em nossas cidades diariamente poderiam ser justificados pela “ingenuidade”. Até mesmo algumas demolições.

Esta “ingenuidade” de que tratamos nada mais é do que a falta de conhecimento. Na maioria das vezes, a falta de acesso ao conhecimento. E ingenuidade se perdoa.

Talvez com ingenuidade, a Prefeitura Municipal de São Leopoldo lançou em 2009 um projeto de Centro Administrativo para a cidade. Localizado no coração histórico da cidade, o prédio seria um nefasto vizinho do patrimônio cultural circundante: Um bloco em altura, que tanto mimetizava o prédio Art Déco da antiga Prefeitura quanto acrescentava traves enxaimel a fachada.



Imagem da fachada, divulgada na internet em 2010. (fonte: PM São Leopoldo).


Em suma, uma completa vergonha. Um projeto digno de figurar em programa humorístico, ou em alguma sátira arquitetônica de faculdade. Era difícil, à época, acreditar na veracidade da notícia. Mas ela estava lá, apresentando uma Prefeitura “vexaimel” que viria para resgatar a cultura alemã na cidade e “criar” um novo ponto turístico.

Os erros desta proposta foram aqui discutidos na ocasião,
no artigo que pode ser acessado clicando aqui.

Mas o Die Zeit não discutiu sozinho. Fomos apenas uma pecinha entre muitos: Diretórios Acadêmicos de Arquitetura e Urbanismo das universidades Unisinos e Feevale; profissionais autônomos da região, Defender, IAB e o ICOMOS. Lotamos a Câmara de Vereadores.

Fomos educados e sucintos, apontando os erros da proposta, que aliás, eram muitos. O enxaimel era apenas a cereja no topo do bolo. As traves enxaimel estavam lá apenas para evidenciar a todos: “opa, alguma coisa está MUITO errada aí!”. Muitas vezes este tipo de “cereja” já fez falta, aliás. Quem sabe outras obras teriam chamado a atenção e pudéssemos ter evitado muitas atrocidades maiores.

Mas de qualquer forma, remover a cereja não muda o sabor e o formato do bolo. Tampouco girá-lo no prato. Essa analogia pobre explica a estratégia da Prefeitura Municipal para readequar o projeto, uma espécie de “cala a boca” aos que reclamavam:





Mudou a cara, mudou a posição no terreno – a essência é a mesma!



Analisando bem a edificação, vemos uma ilustração clara da decadência das obras públicas. Com dinheiro público e com a oportunidade de ouro de construir um programa especial (Prefeitura) em um território rico em informações para serem exploradas, vemos que a Prefeitura Municipal desiste do fiasco vexaimel para investir numa espécie de “torre residencial”.

A arquitetura é mais do que apenas sua funcionalidade e sua materialidade: ela também é o que parece e o que representa. Quando tratamos de um Paço Municipal, esse significado redobra.

A torre agora é "contemporânea" (sic), o projeto é o mesmo. Ele representa para a cidade o mesmo que tantas outras torres residenciais representam. Um nada. Um edifício sem o caráter que uma Prefeitura deveria ter.

Mas, se por um lado ter essa forma “residencial” poderia fazer o prédio se esconder entre o mar de mediocridade, tornando-se apenas discreto, por outro, implantá-la num local onde ainda predomina a escala colonial e praticamente ao lado de edificações históricas cruciais para o centro histórico da cidade, é completamente insano. Prejudica imensamente o perfil da rua, a ambiência histórica e a visual de entrada do município.

Como compatibilizar esta escala com o edifício proposto?


Parafraseando o jornalista cultural André Azevedo da Fonseca, é “como se um engraçadinho suprimisse um parágrafo da história da cidade e inserisse, por conta própria, palavrões e vulgaridades”. O efeito é o mesmo. Mas ao contrário do caso a que se referia Fonseca, aqui não estamos lidando com uma mera desfiguração de prédio histórico, mas de uma intervenção crítica no coração da cidade.

Os problemas são, enfim, nítidos e visíveis, mas agora não é ingenuidade. Está claro: com tantos órgãos importantes e profissionais gabaritados alertando sobre os problemas que esta obra da forma como é proposta irá acarretar, a Prefeitura Municipal de São Leopoldo segue a construção “a todo vapor”.


"Em São Leopoldo, a obra não pode parar". Publicado no Informe Especial do jornal Zero Hora em 12/01.


E aliás, faz questão de usar os veículos de comunicação da região para demonstrar seu poder. O prédio sai, não importa se faça chuva, sol ou vento; e daí se o Ministério Público nos processa. Não vamos parar pra pensar, agora é agir.




"Nova Prefeitura com Obra Adiantada", em reportagem típica de assessoria de imprensa publicada no Jornal VS.


Definitivamente isso não é ingenuidade. Hipocrisia? Só sei dizer que o Poder Público Municipal de São Leopoldo é privilegiado. Cada erro que comete ou pensa em cometer, lá está a sociedade, atenta, ativa, engajada. Lotando a Câmara! Que o digam as últimas duas audiências públicas, onde destaca-se a causa ambiental do Bosque de São Francisco de Assis – causa esta, que a Prefeitura parece tentar “transferir” para abafar o caso. Fico imaginando que salto de qualidade a região daria, se a sociedade reagisse sempre assim.

Mas com tanta participação, tanto engajamento, a contrapartida que a Prefeitura concede é pífia. Responde com o silêncio e a ausência nas audiências. Toma atitudes como *esta sem consultar a sociedade.

Temos uma série de ganhos particulares com consequentes prejuízos coletivos. A balança pende pra um lado. E o lado vitorioso, não está interessado com a qualidade de vida, com o entendimento e apreciação da cidade como um todo. Não está interessado na proteção das fragilizadas migalhas de ecossistemas e de patrimônio cultural. Não está interessada, enfim, em nada que torna São Leopoldo a cidade de São Leopoldo.

E fica apenas a tristeza e a revolta, ao nos depararmos com as reportagens que nos deixam claro que obra não para. Afinal, sabemos que certamente este erro não é obra da ingenuidade.
Corram, pois o que conhecemos por São Leopoldo está sumindo. E no que depender da Prefeitura e do 'cronograma da obra', será " a todo vapor".

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

As vaquinhas ensinam arquitetura - Cow Parade Porto Alegre 2010

O Cow Parade de Porto Alegre tem despertado atenções. É impossível visitar uma das cerca de 80 vaquinhas espalhadas pela cidade e não se deparar com vários visitantes, com máquinas digitais em punho, registrando as obras de arte. Essa "movimentação" pelo meio urbano é elogiável, por reconciliar o cotidiano da cidade com os espaços que ela ocupa. A inserção das "vacas" como pontos de referência temporários suscita o reconhecimento dos pontos de interesse (permanentes) situados nas cercanias.


(Vacaduto da Borges - Foto: Elis Regina Berndt/Nov 2010)

Visitar as vaquinhas é um passatempo divertido, e resgata o "passear pela cidade", hoje tão incomum na cidade pelos mais variados motivos. E acredite, também pode ser divertido dedicar alguns cliques e olhares aos prédios evidenciados pelo posicionamento de algumas vaquinhas - lugares que dizem muito sobre a identidade de Porto Alegre.
Para dar um gostinho, vamos sugerir algumas visitas... Mas com olhar atento, é possível ver muito mais coisas interessantes entre uma vaquinha e outra!

"27 - Cowversa comigo?" - Estação Mercado

A vaquinha Cowversa comigo está sob o arco da Estação Mercado. O entorno é um dos mais interessantes de Porto Alegre, a começar pelo próprio Mercado que dá nome a estação. Trata-se de um dos prédios mais antigos ainda existentes na cidade, inicialmente com apenas um pavimento e torreões laterais, acrescido no início do séc. XX de mais um andar, recebendo a linguagem mais eclética que hoje o caracteriza.


Aspecto do Mercado Público de Porto Alegre. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr/2010)


O mercado público é até hoje, palco do cotidiano da cidade, existindo uma vida própria muito característica. A reforma dos anos 90 deixou o ambiente bastante asséptico em relação ao que se espera deste tipo de espaço, mas em contrapartida preparou o Mercado para continuar participando do cotidiano da cidade no século XXI.


Ao fundo, o Palácio do Comércio, projetado por Joseph Lutzenberger. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)


Também vale a pena reparar no Palácio do Comércio, situado ao lado da Estação. Inaugurado em 1940, o prédio reflete a tendência geometrizante, inspirada no Art Déco, que influenciou boa parte da produção arquitetônica da cidade na época, além de exemplificar a resistência aos modelos modernos de matriz corbuseana. Ironicamente, foi projetadopor um arquiteto alemão (Joseph Lutzenberger), durante o governo de Getúlio Vargas, que tanto faria pela nacionalização forçada e pela repressão à cultura alemã, respingando estas consequências na atuação de alemães em profissões como engenharia e arquitetura.


O entorno do mercado é riquíssimo em prédios de diferentes momentos da cidade. (foto: Jorge Luís Stocker Jr.)

"76 - Vacaduto da Borges" - Borges de Medeiros

A obra Vacaduto da Borges, situada no início da Borges de Medeiros, deixa em evidência um quarteirão de primeira importância para a arquitetura moderna na cidade. Como principal prédio do conjunto, desponta o monumental Sulacap, com sua inconfundível cobertura piramidal. O prédio, projetado pelo arquiteto Arnaldo Gladosch, foi inaugurado em 1943 e já então encontrava oposição ferrenha no meio acadêmico e profissional da cidade, que começava a interessar-se pelo modernismo corbuseano. Apesar de retrógrado pelo fato de utilizar mais cheios do que vazios e dos elementos decorativos, o prédio exemplificava a revolução urbana moderna que se pretendia na área, através de plano diretor elaborado pelo mesmo Gladosch. O "quarteirão Masson", como era então chamado, apresentava aspecto monumental, com a marcação da esquina através da torre. Tudo em substituição ao casario colonial e ao traçado de quadras pré-existentes no local, com complicada divisão de terras que atravancava a verticalização da cidade.


Edifício Sulacap, projetado por Arnaldo Gladosch. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)


Gladosch conseguiu deixar sua marca neste entorno não apenas através do Sulacap e do Sul América, prédios de sua autoria, mas também na própria avenida, mais precisamente no Quarteirão Masson que até hoje representa a síntese soluções urbanas por ele defendidas, como o abrigo coberto para pedestres, as relações de escala e alturas e a própria modernidade expressa através do "futurismo" e da monumentalidade. É impossível visualizar o impactante "cânion" de prédios da Borges de Medeiros, com o coroamento minucioso do Sulacap, e não remeter-se a cenas como as do filme alemão Metrópolis, de Fritz Lang.
Os prédios do entorno representam diferentes momentos da absorção do ideario "moderno" na cidade de Porto Alegre.


Conjunto "Continente", construído em diferentes momentos (Ed. Planalto, Ed. Missões e Ed. Fronteira), visivelmente inspirado no Palácio Capanema, de Niemeyer, Lucio Costa e cia, denotando a influência do modernismo carioca na cidade. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)


"72 - O Pensamento" - Casa de Cultura Mario Quintana


O Pensamento (Foto: Elis Regina Berndt/2010)


O antigo Hotel Majestic, que hoje abriga a Casa de Cultura Mario Quintana, é de longe um dos locais mais bacanas da cidade para se visitar, não importa o motivo: cinema, teatro, exposições artísticas culturais, café, ou mesmo apenas um chimarrão no jardim. Ou mesmo visitar a vaquinha "O Pensamento" da Cow Parade.


A Travessa dos Cataventos, que divide os dois blocos do antigo Hotel Majestic. (Foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)

O projeto original, de Theo Wiederspahn, previa duas edificações idênticas, simétricas, unidas pelas duas cúpulas e pelas passarelas. A travessa interna, bastante ousada até para os dias atuais, acabou configurando-se em um dos espaços urbanos mais interessantes da capital gaúcha. É um espaço especial que a cidade soube apropriar-se.


Detalhe do Antigo Hotel Majestic, de Theo Wiederspahn (Foto: Jorge Luís Stocker Jr/2010)

O volume situado do lado leste, inaugurado em 1918, teve grande parte de suas características originais preservadas. O outro volume recebeu uma importante intervenção interna nos anos 90, quando foi convertido para Centro Cultural, com interessante uso de concreto armado nu.


A vista do "Jardim Joseph Lutzenberger" da CCMQ privilegia a vista da igreja das Dores, cuja fachada também é autoria de Theo Wiederspahn. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)

"80 - Bochincho no Galpão da CowParade" - Santander Cultural


Antiga sede do Banco Nacional do Comércio, hoje Santander Cultural. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)

Em frente ao Santander Cultural, na Praça da Alfândega, está situada a vaquinha denominada "Bochincho no Galpão da CowParade". O local é único, pelo "confronto" de dois modelos de edificação bancária: o antigo Banco Nacional do Comércio, hoje convertido em Santander Cultural, de feições fortemente clássicas, e o prédio modernista do antigo SulBanco, hoje Banco Santander.


Bochincho no Galpão da CowParade - Foto: Elis Regina Berndt/2010

O primeiro, teve projeto encomendado ao arquiteto Theo Wiederspahn, na época com um programa mais extenso. Problemas fariam com que Widerspahn falisse e se afastasse da obra, e seus estudos foram posteriormente adaptados por outros profissionais. Foi inaugurado em 1931. A riqueza dos conjuntos escultóricos, alguns dos quais executados pelo artista Fernando Corona, é um dos destaques da edificação, bem como a monumentalidade conferida pelos grandes pilares de ordem coríntia.


Inserção da antiga sede do Sulbanco a partir da rua General Câmara ("da ladeira"). (foto: Jorge Luís Stocker Jr/2010)

O segundo edifício, antiga sede do Sulbanco, inaugurado em 1943, passa despercebido aos que pouco conhecem sobre a arquitetura moderna. No entanto, é um dos principais exemplares da cidade. A adoção dos princípios modernistas, como o emprego do Brise-Soleil como elemento de proteção na fachada oeste (solução técnica mas de grande impacto visual) que permitiu grandes aberturas. O prédio marca o novo "programa" exigido pelas agências bancárias, um grande bloco verticalizado de escritório. A robustez exigida na época para sedes bancárias, porém, continua presente no pavimento térreo, revestido de granito preto. Vale ainda ressaltar a interessante articulação de materiais proposta pelo arquiteto Guido Trein - o metal do brise-soleil em contraste com os tijolos cerâmicos e a base de granito.

A interessante articulação de materiais do antigo Sulbanco. (foto: Jorge Luís Stocker Jr./2010)

Texto: Jorge Luís Stocker Jr.

Leia também:

-"Arnaldo Gladosch - O Edifício e a Metrópole" (livro) - Anna Paula Cannez

- Arquitetura Moderna em Porto Alegre (livro) - Alberto Xavier / Ivan Mizoguchi

- Cow Parade Porto Alegre 2010